Informação sobre a ocupação israelita, a resistência palestiniana e a solidariedade internacional *** email: comitepalestina@bdsportugal.org
28
Mai 17
publicado por samizdat, às 22:40link do post | comentar
Um artigo de Diana Buttu, advogada e ex-conselheira da equipa de
negociação da OLP.

Traduzido pelo CSP do artigo publicado no New York Times em 26/5/2017:
https://www.nytimes.com/2017/05/26/opinion/palestinian-authority-mahmoud-abbas.html?_r=0


RAMALLAH, CISJORDÂNIA — A reunião, esta semana, do presidente Trump com
o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, foi apresentada
como um esforço do autor de "A arte do negócio" para reiniciar o
processo de paz patrocinado pelos Estados Unidos, há muito tempo parado.
Mas enquanto o 50º aniversário da ocupação israelita ocorre já no
próximo mês, o que é certo é que o processo está pior que estagnado.
Perante um governo intransigente de direita em Israel, que não acredita
que os palestinianos devam ter plenos direitos, as negociações são
fúteis. 

Em que ponto isso deixa o sr. Trump e a política americana de sustentar
a Autoridade Palestiniana e o sr. Abbas? Dado o miserável fracasso das
conversações construído num quadro de falência que favorece fortemente
Israel, cada vez mais palestinianos debatem a necessidade de uma nova
liderança e uma nova estratégia.

Muitos questionam actualmente se a Autoridade Palestiniana desempenha
algum papel positivo ou se é simplesmente um instrumento de controlo
para Israel e a comunidade internacional. A lógica inevitável é que está
na hora de a Autoridade ir-se.

Criada em 1994 sob os Acordos de Oslo, a Autoridade Palestiniana
destinava-se a ser um órgão temporário que se transformaria num governo
com plenas funções, logo que estivesse garantido o Estado, o que foi
prometido para 1999. A jurisdição da Autoridade foi portanto sempre
limitada. Ela é responsável por apenas 18 por cento da Cisjordânia
(dividida em oito áreas). Comparados com o total do controlo de Israel
sobre a Cisjordânia ocupada e a faixa de Gaza, os poderes da Autoridade
Palestiniana são insignificantes.

Para muitos palestinianos, no entanto, o estabelecimento de seu governo
era um sonho realizado. Finalmente, aqueles que viviam sob a ocupação
desde 1967 seriam libertados do regime repressivo militar de Israel para
se governarem eles próprios. Os palestinianos reivindicavam postos na
nova entidade e tinham orgulho em criar instituições apesar dos
obstáculos impostos pelo governo israelita. Como as negociações se
arrastaram em Oslo, essas instituições só se tornaram ainda mais
entrincheiradas.

Mais de duas décadas depois, as negociações não produziram nenhum
progresso. Passei vários anos envolvida no lado palestiniano das
negociações e posso atestar a sua futilidade. Delegados palestinianos,
que precisavam de autorização para entrar em Israel a fim de participar
nas conversações, ficavam rotineiramente retidos nos checkpoints
israelitas. Quando falávamos de direito internacional e da ilegalidade
dos colonatos, os negociadores israelitas riam-se na nossa cara.
O poder é tudo, pareciam eles dizer, e vocês não têm nenhum.

Com o tempo, ficou claro que o orçamento e as prioridades da Autoridade
eram principalmente destinadas a assegurar que os palestinianos
permanecessem um dos povos mais vigiados e controlados do planeta. Com
efeito, a Autoridade Palestiniana serviu como subempreiteiro das forças
armadas israelitas de ocupação. A pesada centralização na segurança,
disseram-nos, era necessária para a continuação duradora das
conversações de paz. Hoje, um terço inteiro do orçamento da Autoridade,
aproximadamente 4 bilhões de dólares, vai para o policiamento, mais do
que para a saúde e a educação juntas.

Estas forças de segurança não fornecem um serviço de polícia normal aos
palestinianos, e em vez disso, ajudam o exército israelita na manutenção
da ocupação e dos colonatos de Israel em permanente expansão. A
internacionalmente elogiada "cooperação de segurança" entre Israel e a
Autoridade Palestiniana só resultou na detenção e prisão de
palestinianos, incluindo activistas não-violentos dos direitos humanos,
enquanto é permitido aos colonos israelitas armados e violentos
aterrorizar os palestinianos com total impunidade. A Autoridade
Palestiniana não tem jurisdição sobre os colonos, e o exército israelita
quase sempre olha para o lado.

A razão de ser da Autoridade Palestiniana hoje não é a de libertar a
Palestina; é de manter os palestinianos silenciosos e abafar as
divergências enquanto Israel rouba terras, destrói casas palestinianas e
constrói e expande colonatos. Em vez de se tornar um Estado soberano, a
Autoridade Palestiniana tornou-se um Estado proto-policial, uma ditadura
virtual, apoiada e financiada pela comunidade internacional.

Olhem para o seu líder. Com oitenta e dois anos, o sr. Abbas vem
controlando a Autoridade há mais de 12 anos, governando por decreto
presidencial durante a maioria desse tempo, sem nenhum mandato
eleitoral. Ele presidiu a alguns dos piores dias da história da
Palestina, incluindo a desastrosa cisão, que já dura há uma década,
entre o seu partido Fatah e o Hamas, o outro jogador importante na
política palestiniana, e a três ataques militares israelitas a Gaza
devastadores.

Sob a sua presidência, o parlamento palestiniano tornou-se moribundo e
irrelevante. Muitos palestinianos nunca votaram em eleições
presidenciais ou parlamentares porque o sr. Abbas não conseguiu
conservá-los, muito embora eles sejam chamados na lei básica que rege a
Autoridade Palestiniana. As últimas sondagens de opinião mostram que a
sua popularidade está no nível mais baixo de sempre, com dois terços dos
palestinianos tão descontentes que querem a sua demissão.

Um número igualmente alto já não acredita que as negociações irão
garantir a sua liberdade. A Autoridade Palestiniana institucionaliza a
dependência perante os doadores internacionais, que amarra as mãos da
Autoridade com condições políticas. Em consequência, até o uso do
Tribunal Penal Internacional para responsabilizar Israel pela construção
ilegal de colonatos tem de ser pesado contra as eventuais repercussões
financeiras de um acto tão simples.

Para eliminar este laço que tem sufocado os palestinianos, a Autoridade
deve ser substituída pelo tipo de tomada de decisão baseada na
comunidade que antecedeu a sua criação. E temos de reformar o nosso
principal órgão político, a Organização de Libertação da Palestina, que
o Sr. Abbas também lidera, para torná-lo mais representativo do povo
palestiniano e dos seus partidos políticos, incluindo o Hamas. Há muito
que o Hamas indicou que quer ser parte da OLP, e a sua carta revista,
recentemente lançada em Doha, no Qatar, afirma esta aspiração.

Com o processo de negociação morto, por que devem os palestinos ser
forçados a agarrarem-se à Autoridade Palestiniana, que só tem
prejudicado a sua luta de décadas pela justiça e ajudado a dividi-los?

Dado que existem cerca de 150.000 funcionários que dependem da
Autoridade para receber o seu salário, não tenho nenhuma ilusão de que
fechá-la será fácil ou sem sofrimento. Mas este é o único caminho para
restaurar a nossa dignidade e uma tomada de decisão palestiniana
independente. Uma OLP reformada, com a sua credibilidade renovada, será
capaz de aumentar os fundos de palestinianos e nações amigas para apoiar
aqueles que vivem sob a ocupação, como fazia antes do processo de Oslo.

Para alguns, isto pode soar à desistência do sonho nacional de
autodeterminação. Não é. Ao desmantelar a Autoridade, os palestinianos
podem de novo confrontar a ocupação israelita de forma estratégica,
oposta às propostas de um Estado meramente simbólicas do sr. Abbas. Isso
significa apoiar as iniciativas baseadas na comunidade que organizam
protestos de massa não-violentos e pressionam para haver boicotes,
desinvestimento e sanções contra Israel, como aqueles que ajudaram a
acabar com o apartheid na África do Sul.

Esta nova estratégia pode significar reivindicar direitos iguais dentro
de um único Estado, um resultado infinitamente mais justo e atingível
que o processo apoiado pelos americanos que pretendia que a paz poderia
vir ignorando os direitos dos refugiados palestinianos e dos cidadãos
palestinianos de Israel. Já mais de um terço dos palestinianos dos
territórios ocupados defende a solução de um Estado único, sem que
nenhum grande partido defenda essa política.

Ao desmantelar a Autoridade Palestiniana e reformar a OLP, a verdadeira
vontade dos palestinianos será ouvida. Se o desfecho é dois Estados ou
um Estado, cabe a esta geração de palestinianos decidir.

23
Mar 17
publicado por samizdat, às 21:21link do post | comentar

Publicamos aqui a carta de demissão de Rima Khalaf, secretária executiva da ESCWA (Comissão Económica e Social para a Ásia ocidental), em resposta ao pedido formal de António Guterres, secretário-geral da ONU, para que a ESCWA retirasse a publicação de um relatório que acusa Israel de ser um Estado de apartheid.



Caro Senhor Secretário Geral,

Considerei com atenção a sua mensagem transmitida pelo Chefe de gabinete e asseguro-lhe que em nenhum momento pus em questão o seu direito de retirar a publicação do relatório do nosso site internet ou o facto de que todos nós que trabalhamos para o secretariado estejamos submetidos à autoridade do secretário-geral. Assim como não tenho nenhuma dúvida com respeito ao seu empenho perante os direitos humanos em geral, e a sua posição firme relativa aos direitos do povo palestiniano. Também compreendo as suas preocupações, em particular nestes tempos difíceis que lhe deixam pouca escolha.

Não sou insensível aos ataques viciosos e às ameaças que pesam sobre as Nações Unidas e sobre si pessoalmente por parte de importantes Estados-membros como resposta à publicação do relatório da ESCWA intitulado "As práticas de Israel para com os palestinianos e a questão do apartheid". Não me parece surpreendente que tais Estados-membros, actualmente com governos que se preocupam pouco com as normas e os valores internacionais relativos aos direitos humanos, recorram à intimidação quando lhes parece difícil defender as suas políticas e práticas ilícitas. É normal que os criminosos pressionem e ataquem aqueles que defendem as suas vítimas. Eu não posso submeter-me a uma tal pressão.

Não é em virtude do meu estatuto de oficial internacional, mas em virtude do meu estatuto de ser humano honesto, que acredito, como o senhor, nos valores e princípios universais que sempre foram as linhas de conduta do bem na história humana, e sobre os quais uma organização como a nossa, as Nações Unidas, é fundada. Como o senhor, considero que a discriminação contra qualquer pessoa por motivos da sua religião, da cor da sua pele, do seu sexo ou da sua origem étnica é inaceitável, e que tais discriminações não podem tornar-se aceitáveis por via dos cálculos do oportunismo ou do poder político. Considero ainda que os povos não só deveriam ter o direito de dizer a verdade ao poder, mas que eles têm o dever de o fazer.

No espaço de dois meses, o senhor pediu-me que retirasse dois relatórios produzidos pela ESCWA, não por causa de erros que tivessem sido cometidos nesses relatórios, e provavelmente não porque o senhor estivesse em desacordo com o seu conteúdo, mais por causa da pressão política exercida pelos Estados-membros que violam gravemente o direito dos povos da região.

O senhor viu que os povos dessa região vivem um período de sofrimento nunca visto na história moderna, e que o número considerável de catástrofes hoje resulta do fluxo de injustiças que foram ignoradas, escondidas ou abertamente aprovadas por governos poderosos dentro e fora da região. Esses mesmos governos são os que estão a pressioná-lo para fazer calar a voz da verdade e o apelo à justiça apresentados nesses relatórios.

Considerando o que precede, eu não posso senão manter as conclusões do relatório da ESCAW, segundo as quais o Estado de Israel estabeleceu um regime de apartheid que procura o domínio de um grupo racial sobre outro. As provas trazidas neste relatório redigido por peritos de renome são numerosas. Todos os que atacaram esse relatório não disseram uma palavra sobre o seu conteúdo. Considero como um dever meu, em vez de eliminar as provas, divulgar o facto legalmente e moralmente indefensável de que no século XXI ainda existe um Estado de apartheid. Ao dizer isto, não estou a afirmar nenhuma superioridade moral ou visão superior. A minha posição é influenciada por uma vida de experiências onde vi as consequências desastrosas para a paz quando se bloqueia as queixas dos povos da nossa região.

Percebo que tenho pouca escolha. Não posso agora retirar mais outro dossier das Nações Unidas bem documentado e resultado de investigações aprofundadas sobre graves violações dos direitos humanos, embora saiba que instruções claras do secretário-geral devam ser aplicadas rapidamente. É um dilema que só posso resolver pela minha demissão para permitir que outra pessoa faça aquilo que eu não posso fazer em boa consciência. Sei que já só tenho duas semanas no meu posto; a minha demissão não se destina portanto a exercer qualquer pressão política. É simplesmente porque penso que é meu dever para com os povos que servimos, para com as Nações Unidas e para comigo mesma, não retirar um testemunho honesto sobre um crime em curso que está na origem de tanto sofrimento humano. Por consequência, venho entregar-lhe a minha demissão das Nações Unidas.

Respeitosamente,

Rima Khalaf


Traduzido pelo CSP da versão francesa publicada em 21 mars 2017 em http://www.france-palestine.org/Lettre-de-demission-de-Rima-Khalaf-secretaire-executive-de-l-ESCWA-commission


10
Mar 17
publicado por samizdat, às 23:22link do post | comentar

Este apelo foi lançado hoje em Portugal no âmbito da campanha internacional de BDS / Boicote-Desinvestimento-Sanções

 

Caro/a fotógrafo/a,

 

Na Palestina, não fosse o trabalho dos fotógrafos, nunca conseguiríamos capturar a verdadeira imagem da ocupação e da violação dos direitos humanos.

 

Por isso mesmo, Israel pressiona cada vez mais os fotógrafos palestinianos e internacionais que tentam transmitir uma imagem mais próxima da realidade.

 

Aqui damos apenas alguns exemplos dos muitos abusos contra fotógrafos. A muitos deles foi negada a liberdade de movimento para poder realizar o seu trabalho. Outros foram humilhados, obrigados a tirarem a roupa para poderem passar as barreiras de segurança com vista a realizar o seu trabalho.

 

Em Abril de 2016, o fotógrafo Hazem Naser foi detido pelas forças israelitas. Em Setembro, o fotógrafo Nidal Shatayyah foi ferido perto de Jerusalém. Nesse mesmo mês, o fotógrafo Ashraf Amra, que já foi várias vezes ferido ao longo da sua carreira, foi impedido de sair de Gaza – que está sob o bloqueio – para receber um prémio numa competição internacional.

 

Em plena violação da lei internacional, foram assassinados vários fotógrafos palestinianos pelo exército israelita, entre os quais Rami Rayan e Muhamad Nur-alDin al-Diari, e outros internacionais como o italiano Simone Camille e o inglês Tom Hurndall.

 

Em solidariedade com os fotógrafos palestinianos e internacionais que arriscam a vida todos os dias para transmitir uma imagem verdadeira da situação na Palestina, em memória dos que morreram com uma câmara na mão, e respondendo ao apelo palestiniano para uma campanha internacional de boicote, desinvestimento e sanções (BDS), convidamo-lo/la a não ficar indiferente e a assinar este compromisso como forma de solidariedade com o povo palestiniano e de contributo para que todos os seres humanos tenham direito à igualdade, liberdade e justiça.

 

 

O compromisso resume-se nesta declaração:      

 

"Apoiamos a luta palestiniana pela liberdade, justiça e igualdade. Em resposta ao apelo de fotógrafos, jornalistas e trabalhadores culturais palestinianos para um boicote cultural a Israel, comprometemo-nos a não aceitar convites profissionais ou financiamentos do Estado israelita ou de qualquer instituição ligada ao seu governo, até que Israel cumpra com a lei internacional e  os princípios universais de direitos humanos."

 

Por favor, considere adicionar o seu nome a este compromisso. Os nomes dos apoiantes não serão publicados até ser atingida uma massa crítica e os apoiantes serem notificados.

 

Se quiser assinar, por favor utilize este formulário, onde o texto do compromisso está integral. Os organizadores da campanha estão disponíveis para responder a qualquer questão ou comentário através do email comitepalestina@bdsportugal.org

 

Cumprimentos,

Plataforma BDS-Portugal

 ---------------------

 

 

Para mais informação/enquadramento:

Preparámos esta folha que responde a questões sobre o compromisso e sobre o boicote cultural a Israel e os seus objectivos.

 

O apelo da Campanha Palestiniana para o Boicote Cultural e Académico pode ser consultado aqui: http://pacbi.org/etemplate.php?id=869


26
Jan 17
publicado por samizdat, às 21:57link do post | comentar
Nakba é a palavra árabe para designar a cataśtrofe que foi a fundação do Estado de Israel no território da Palestina. A "catástrofe" deveu-se ao facto de existir um povo de carne e osso nessas terras supostamente desabitadas que iriam abrigar a invenção de um "povo judeu". A catástrofe foram os massacres de 1947-48 pelas milícias sionistas, a destruição de aldeias palestinianas e a expulsão dos seus habitantes.

 

A grande tragédia desta catástrofe é a voracidade insaciável do Estado de Israel, que até hoje omite desenhar as suas fronteiras nacionais em qualquer atlas geográfico, na certeza de que elas serão sempre e sempre alargadas. O projecto sionista desde o seu início é o de estender os limites do Estado judeu sobre todo o território da Palestina histórica. Como já dizia Himmler a propósito da Polónia, "não é possível germanizar o povo, é preciso germanizar o território". E, como na verdade, a Palestina não era nem é "uma terra sem povo", a limpeza étnica sempre foi tarefa essencial do projecto sionista. Assim, temos assistido desde há quase 70 anos, sob a fiel cumplicidade da maioria dos governos democráticos, ao lento mas progressivo genocídio do povo palestiniano.

 

Logo após a tomada de posse de Trump, Israel anunciava a construção de mais 566 alojamentos em Jerusalém-oriental e 2.500 na Cisjordânia, dois territórios palestinianos ocupados ilegalmente segundo o direito internacional. (Porque a ocupação e usurpação de terras que teve lugar entre 1948 e 1967 é considerada ainda hoje dentro da legalidade internacional).

 

O genocídio segue o seu curso, não só pela extensão de cada vez mais colonatos judeus em cima de casas, terras agrícolas e aldeias palestinianas destruídas pelas forças militares e policiais israelitas, mas também pelo bloqueio à Faixa de Gaza, onde uma população de quase dois milhões de palestinianos vive cercada, sem acesso a água potável, a medicamentos e cuidados médicos, mal nutrida e regularmente bombardeada pelo exército israelita.

 

O intuito do genocídio está presente na política colonial quotidiana de Israel. Vemo-lo no recente anúncio da construção de mais colonatos, e vemo-lo nos esforços para privar os palestinianos de qualquer meio de subsistência. Um despacho de 25 de Janeiro da agência noticiosa Ma'an News reportava, por exemplo, que aviões israelitas estavam a pulverizar com químicos herbicidas as culturas agrícolas ao longo da fronteira de Gaza, numa zona onde se concentra toda a reserva de alimentos da Faixa de Gaza. O pretexto evocado para esta acção é o de manter uma zona de segurança com a visibilidade necessária para impedir a "infiltração" de palestinianos. Os estragos provocados por esses produtos químicos não se limitam à zona fronteiriça e penetram até mais de um quilómetro no interior da Faixa, destruindo os poucos meios de subsistência que ainda restam a uma população encurralada neste imenso campo de concentração em que se tornou Gaza.

 

Perante a impunidade de que goza o Estado de Israel, a cumplicidade descarada de Trump ou a cumplicidade dissimulada dos governos da União Europeia, se nos sobra ainda algum optimismo quanto à sobrevivência do povo palestiniano, é porque vemos que não foi possível quebrar a sua capacidade de resistência ao fim destas sete décadas de martírio. Ainda na semana passada, e segundo o jornal  L'humanité, uma greve geral foi massivamente seguida em várias localidades árabes de Israel, sobretudo no Neguev e em Nazaré, para protestar contra mais uma destruição de casas no deserto do Neguev, que levou à morte de dois beduínos alvejados por polícias israelitas.

 

Resta-nos também uma ponta de optimismo por sabermos que podemos, também nós aqui na Europa, apoiar e fortalecer essa resistência respondendo ao apelo dos sindicatos, associações e outros agrupamentos da Palestina para pressionar Israel através da campanha BDS - Boicote, Desinvestimento e Sanções - a cessar a sua política de ocupação, apartheid e opressão na Palestina.

17
Jan 17
publicado por samizdat, às 15:55link do post | comentar

A conferência de paz de Paris foi mais que inútil - todos sabem que uma solução de dois Estados em Israel e Palestina é impossível agora

 

Mesmo para o que as conferências de paz costumam ser, esta foi a mais miserável de todas. Patética, sem esperança, infeliz, abatida, morta antes do seu tempo. Trump não enviou ninguém, Netanyahu chamou-lhe “as últimas contorções do mundo de ontem”, o autocrático Mahmoud Abbas não se deu ao trabalho de aparecer e o secretário de Estado de Theresa May apenas enviou uma mão-cheia de subordinados para a palhaçada. John Kerry, que disse há dois anos que a paz entre israelitas e palestinianos tinha no máximo 18 meses para acontecer “ou acabava”, anunciou debilmente que a reunião de 70 nações em Paris tinha “lançado a bola para a frente” – seja o que for que isto queira dizer. Então, para que foi tudo isto?

Sem dúvida, François Hollande – se alguma vez houve um imperador sem roupas, foi ele – quis restaurar o lugar da França entre as nações, enquanto as nações da UE e os árabes quiseram "contorcer-se" uma última vez – mesmo se foi apenas para se prepararem para o fracasso e alijarem qualquer responsabilidade. Solução de dois Estados? Jerusalém como capital? Ocupação? Roubo de terras? Refugiados? Nós fizemos uma última tentativa. Não podem dizer que não vos avisámos. Não nos culpem, pá. Até mesmo os russos só enviaram o seu embaixador em Paris para a conferência de "paz". Mas o que esperavam eles todos?

Que a nova marioneta de Trump para a embaixada em Israel escolheria ficar em Telavive? Que Benjamin Netanyahu, o colonizador e colono-mor, não faria mais exigências territoriais? Que os palestinianos, a perderem todos os dias hectares de terras roubadas pelos israelitas, mas agarrados a um líder cuja legitimidade depende de Israel e não deles, reiniciariam as negociações com os seus ocupantes? E foi assim que falaram em Paris os grandes e os bons: não deverás prejudicar o resultado das negociações dando passos unilaterais. E isto, anunciou um porta-voz francês, foi uma "mensagem subliminar" para Trump.

Oh deuses! Trump não recebe “mensagens subliminares”. Ele envia tweetts: “Mantém-te forte, Israel”. Como se responde a isso? Mas talvez os moços e as moças em Paris tenham entendido a mensagem. Nem uma vez eles proferiram a palavra "ocupação", muito menos "apartheid". Eles não mencionaram sequer a pequena questão de mudar a embaixada dos Estados Unidos para Jerusalém. Isso seria "inadequado", disse o poderoso Kerry. E isso é que era suposto ser uma "mensagem forte" ao primeiro-ministro de Israel (claramente Trump) e ao presidente dos Estados Unidos (obviamente Netanyahu): que a solução de dois Estados era realmente a única que estava sobre a mesa.

E assim a tragédia palestiniana continua a deslizar nas agendas nacionais de notícias – para deleite de Israel – ensanduichada algures entre mortes em acidentes e prémios académicos, mas muito atrás de Trump e Putin, Rússia no Médio Oriente, ISIS, Brexit, imigrantes europeus e o aquecimento global. O maior vulcão do mundo está a borbulhar lá na Palestina, mas um dos maiores icebergues do mundo está prestes a descolar-se do Antárctico. Adivinha-se qual deles conseguirá a maior manchete.

O que é que deu aos nossos líderes? Os charlatães de Theresa May estão preocupados em que a conferência de Paris possa "endurecer" as posições palestinianas – possa "endurecer" os palestinianos, por amor de deus – enquanto a Austrália continua a ver o primeiro veto de Obama a uma resolução da ONU contra a expansão dos colonatos como "profundamente inquietante". Parece que Malcolm Turnbull acha inquietante discutir os colonatos israelitas, quando toda a gente considera inquietante os colonatos. Então o que será pior: a pusilanimidade de Turnbull, ou May a dar graxa ao principal espião do Kremlin em vias de entrar na Casa Branca? Para ela, não existe mandato britânico na Palestina.

Qualquer pessoa que tenha visitado a Cisjordânia nestes últimos anos viu os colonatos judeus construídos em terras árabes roubadas, testemunhou a ocupação e a imundície em Gaza e observou os brutais dirigentes das milícias do Hamas – e percebeu que Netanyahu será em breve o membro mais à esquerda do seu governo cada vez mais racista – sabe muito bem que a “solução dos dois Estados” desapareceu há muito tempo. Por que teremos realmente pensado que ela iria sobreviver à cirurgia política do nosso querido antigo manda-chuva no Médio Oriente, Tony Blair? Como ele diria se fosse sincero, toda essa farsa acabou "absolutamente e completamente".

E o resto dos árabes? Oh Senhor, Senhor. Nós aceitamos os decapitadores do Golfo, o ditador do Egipto e os "rebeldes" da Síria. Nós vendemos armas aos sauditas para eles bombardearem os iemenitas – o que pode "endurecer" bastante a posição do Iémen – e enviamos dinheiro para o Líbano para manter os refugiados sírios no local, porque a sua presença massiva entre nós seria "profundamente inquietante". Nós adorámos os rebeldes de Aleppo e odiamos os rebeldes de Mossul e qualquer comparação entre eles seria sem dúvida "altamente inadequada". Agora há uma "mensagem subliminar" se alguma vez houve uma. Chama-se "lançando a bola para a frente".


Este artigo foi publicado no Independent, de 16.1.2017:

http://www.independent.co.uk/voices/paris-peace-conference-israel-palestine-settlements-two-state-solution-middle-east-impossible-a7529141.html

A tradução portuguesa é do Comité de Solidariedade com a Palestina


10
Jan 17
publicado por samizdat, às 20:23link do post | comentar

A caminho de um desastre em Gaza

 

 

Mulher palestiniana a cozer pão numa tenda, no sul de Gaza, dezembro 2016. Foto de Ibraheem Abu Mustafa (Reuters)

 

 

Israel alega que desde a sua retirada em 2005, já não controla a faixa de Gaza e não tem qualquer responsabilidade para com os cerca de 2 milhões de residentes. Tanto o governo do Hamas em Gaza como a Autoridade Palestiniana na Cisjordânia insistem em que Israel é responsável, ao mesmo tempo que se lançam culpas uns aos outros. A população de Gaza culpa as três partes, assim como a comunidade internacional. Mas o ministério da Defesa, os serviços de segurança do Shin Bet e o Coordenador das Actividades Governamentais nos Territórios [COGAT] estão formados por pessoas cujo trabalho requer um conhecimento sobre a situação catastrófica em Gaza, que está cada vez pior.

 

A discussão sobre se Israel tem o controlo efectivo sobre Gaza não altera os factos: cerca de 95 por cento da água no aquífero de Gaza não é boa para beber, e a água tratada é distribuída às famílias em condições anti-higiénicas; há electricidade durante oito horas por dia ou menos; cerca de 100 milhões litros de esgoto fluem para o mar todos os dias, tanto por causa da falta de energia como por causa dos atrasos em fazer-se chegar peças subselentes e novas bombas até Gaza; os resíduos de munições israelitas usadas afectam o meio ambiente e a saúde das pessoas de formas que ainda estão por investigar; o desemprego aumentou para cerca de 40 por cento, porque as restrições de movimento israelitas têm estrangulado a produção; e centenas de milhares de jovens que nunca saíram deste enclave sobrelotado não conhecem outra realidade.

 

Cada problema afecta e intensifica os outros, e é impossível separá-los. Se eles estão a aumentar a incidência de doenças em Gaza ou não cabe aos investigadores determinar. Mas de qualquer forma, milhares de pacientes não conseguem obter cuidados adequados.

 

Os comentadores na internet têm o direito de se mostrar indiferentes à existência de pacientes com cancro aos quais Israel – num processo desprovido de transparência e de supervisão externa – não permite de sairem de Gaza para obterem tratamento médico, ou aos quais vai atrasando a concessão de autorizações até que a doença piore ("Pacientes de Gaza com cancro: a recusa de Israel de deixar-nos entrar para obter tratamento é uma 'sentença de morte'", Jack Khoury, Haaretz, 6 de Janeiro).

 

Mas o COGAT, que sabia exactamente como colher benefícios de relações públicas ao deixar familiares de Ismail Haniyeh, o primeiro-ministro de Gaza, obter tratamento médico em Israel, também sabe muito bem que, quando organizações como Médicos pelos Direitos Humanos e Gisha intervêm, as restrições de segurança são frequentemente levantadas.

 

Os refilões da comunicação social podem dizer que não é da nossa conta o que acontece a 10 quilómetros de Sderot e a três do kibbutz Zikim. Os tomadores de decisões, pelo contrário, sabem muito bem que os esgotos ligados ao mar e as doenças infecciosas não têm fronteiras.

 

Que Israel seja responsável ou não, é ele que tem a chave. O seu hábito de brincar com as vidas dos pacientes, que se aproxima do sadismo, tem de parar. Israel deve criar um processo supervisionado, transparente e humano para os pacientes saírem de Gaza, como um primeiro passo para uma renovação fundamental da sua táctica falhada de bloqueio da faixa de Gaza. Ele tem de enviar água para Gaza em quantidade suficiente para salvar o aquífero e instalar linhas de electricidade adicionais para Gaza de maneira a deter a devastação ambiental. Israel tem a capacidade e a responsabilidade de evitar que o aviso da ONU se realize: o de que, em 2020, Gaza já não terá condições para a habitação humana.

 

 

O texto que segue é o editorial do jornal israelita Haaretz, de 10 de janeiro 2017

O texto original está publicado em:

http://www.haaretz.com/opinion/editorial/1.764055

A tradução portuguesa é do Comité de Solidariedade com a Palestina


21
Dez 16
publicado por samizdat, às 15:08link do post | comentar

A respeito da reportagem de Alexandra Prado Coelho no Fugas

 

Após a publicação da reportagem assinada por Alexandra Prado Coelho nosuplemento Fugas, intitulada “Terra do leite e do mel ou do húmus e falafel”, o Comité de Solidariedade com a Palestina não pode deixar de vir manifestar a sua indignação perante o facto de um jornal de referência como é o Público se colocar ao serviço de um governo, aceitando um patrocínio para divulgar a sua propaganda.
 
Se alguém tivesse dúvidas sobre o carácter propagandístico da reportagem, elas logo seriam dissipadas com a leitura da última frase do artigo principal: “A Fugas viajou a convite do Ministério do Turismo de Israel”. Esta situação, aliás, não é nova no Público; já em Agosto de 2006, José Manuel Fernandes, director do jornal na altura, viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel, para voltar da sua viagem publicando vários artigos de flagrante apoio à política de Israel.
 
É sabido, público e assumido pelo governo israelita, que este consagra grande parte do seu orçamento e dos seus recursos humanos a um esforço diplomático para combater a má imagem que tem no mundo. O branqueamento da sua política de limpeza étnica e dos seus crimes de guerra, constantemente condenados pelas Nações Unidas, passa também por pagar viagens a jornalistas.
 
Conhecendo a origem da reportagem de Alexandra Prado Coelho, não é de admirar que a autora fale com a maior das naturalidades da existência dos colonatos ilegais, chegando a fazer publicidade à Adega dos Montes Golã e a outros produtos deste território considerado nas instâncias internacionais como ilegalmente anexado por Israel, mas para o qual a jornalista utiliza uma expressão exclusivamente israelita, a de“território disputado”.
 
Assim como não é de admirar a sua despreocupação com a ignorância histórica e cultural, uma vez que, aqui, o seu papel não é o de pesquisar, informar-se e informar os leitores do jornal, mas apenas o de transmitir a mensagem do Estado anfitrião e financiador.
 
Queremos dar apenas alguns exemplos do que acabámos de afirmar e que nos indigna:
 
O que Alexandra P. Coelho nos apresenta como comida israelita, o húmus, msabbaha, freekeh ou foul, são na realidade comidas palestinianas. O nome árabe desses pratos, assim como dos temperos referidos, daria uma pista a qualquer jornalista crítico e independente.
 
Esta apropriação culinária, e cultural de uma forma geral, é parte do colonialismo israelita. Ela vai de par com a expropriação das terras e da água e serve o mesmo objectivo de construção de um Estado expurgado de palestinianos sobre todo o território da Palestina.
 
Também a tentativa da autora de separar "árabes" de "cristãos" quando fala de Nazaré, mostra não só a sua ignorância como a força da propaganda israelita que, desde 1948, tudo tenta para separar palestinianos árabes cristãos – ou ateus – dos palestinianos árabes muçulmanos. Ela não sabe que os palestinianos cristãos também são árabes?
 
Alexandra P. Coelho fala de "Tiberíades", na Galileia, como sendo uma cidade "sem população árabe", esquecendo-se de mencionar que, em 1948, os israelitas invadiram esta cidade maioritariamente árabe e expulsaram dela toda a população, hoje refugiada no Líbano e a quem se recusa o direito de retorno para manter Israel "maioritariamente judeu".
 
Não consideramos que seja aceitável, do ponto de vista ético e profissional, os jornalistas aceitarem financiamento de partes interessadas. O aviso aos leitores de que a jornalista foi convidada pelo governo israelita não é uma garantia de honestidade, como se vê pelo conteúdo da reportagem.
 
Agradecemos a sua atenção e, desde já, um comentário seu à nossa carta.
 
Com os melhores cumprimentos.
O Comité de Solidariedade com a Palestina

10
Nov 16
publicado por samizdat, às 20:57link do post | comentar | ver comentários (1)


 
Activistas contra o regime israelita de ocupação e apartheid lançaram um apelo ao chef de cozinha português José Avillez, dono do restaurante Belcanto em Lisboa, para que este cancelasse a sua participação no evento de culinária em Telavive intitulado Round Tables.

Este apelo insere-se num protesto internacional que juntou mais de 140 organizações de direitos humanos contra a participação no evento de restaurantes gourmet, entre os quais L'Ami Jean em Paris e o Musket Room em Nova Iorque.

Round Tables, a ocorrer este ano entre 6 e 26 de Novembro, é um evento integrante da campanha israelita “Brand Israel”, que tem por objectivo branquear a violenta opressão do povo palestiniano. Descrito pelos seus organizadores como uma ofensiva de “gastro-diplomacia”, ele trouxe chefs de 13 restaurantes internacionais para um cook-in em Telavive patrocinado pelo governo israelita.

Inventado pela American Express, o evento vem branquear entre outros a produção de vinho nos Montes Golã com refeições gourmet preparadas pelos chefs internacionais. Estes ficam hospedados nos Dan Hotels, entre os quais um construído em terra palestiniana roubada na Jerusalém oriental ocupada. A chamada “bolha liberal” de Telavive, onde os chefs estão a cozinhar as suas refeições requintadas, só é possível graças ao muro do apartheid construído por Israel, aos checkpoints e à guetização dos palestinianos, incluindo o cerco medieval de mais de dois milhões de palestinianos em Gaza, que mantém a brutalidade quotidiana da ocupação sem fim à vista.

Os activistas da campanha BDS - Boicote, Desinvestimento e Sanções - denunciam o evento como uma iniciativa que promove a negação dos direitos humanos dos palestinianos pela sua associação com os ministérios israelitas “que usam a cultura e as artes como um meio para desviar a atenção das suas graves violações dos direitos humanos e criar uma imagem positiva da ocupação”.

Os signatários apontam para o “uso da velha tradição de partilhar experiências culinárias como um meio de branquear a violação sistemática dos direitos fundamentais dos palestinianos” e apelam aos chefs para cancelarem a sua participação no evento.

A carta enviada pelas organizações portuguesas* ao chef Avillez apelando para que este “cancele a sua participação na Round Tables patrocinada por colonatos ilegais israelitas que violam os direitos humanos do povo palestiniano" ficou até hoje sem resposta.

Alguns gerentes dos outros restaurantes participantes alegaram não terem tido conhecimento do envolvimento do governo israelita na organização do evento e já ser tarde demais para cancelarem a sua participação. Alguns restaurantes asseguraram que não participarão em futuros Round Table Tours.
O Grupo Gustu da chef Kamilla Seidler retirou o seu restaurante boliviano do evento depois de ter sido contacto pela campanha.

* Os signatários são: Associação Abril, Colectivo Mumia Abu Jamal, Comité de Solidariedade com a Palestina, Conselho Português para a Paz e Cooperação, Grupo Acção Palestina, MPPM - Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente, Panteras Rosa - Frente de Combate à Lesbigaytransfobia, SOS Racismo.


02
Out 16
publicado por samizdat, às 22:17link do post | comentar | ver comentários (1)

Um manipulador incansável

O mundo inteiro canta louvores, fala-se dele como um santo ou, pelo menos, um Nelson Mandela. No entanto, ao longo de meio século, Peres foi o mal-amado da política de Israel. “Como é que o percevejo chegou ao topo?”, dizia-se já nos anos sessenta, exprimindo assim o desprezo das elites israelitas por aquele que não fazia parte do aparelho: não cresceu no kibutz, não participou nas aventuras guerreiras dos comandos de Palmach.

 

Até aos dias de hoje, o seu sotaque denunciava a sua exterioridade em relação àqueles que moldaram o Estado hebreu à sua imagem suja. Digamo-lo claramente, Peres fez por merecer a imagem negativa que o acompanhou ao longo da sua carreira: nenhum político israelita soube ser tão oportunista como ele, e fazer da traição uma arte.

 

“Manipulador incansável”, é assim que o descreve nas suas memórias Yitzhak Rabin, que com ele conviveu muitos anos ao leme do Partido Trabalhista. Ele até traiu o seu mentor David Ben Gurion, quando decidiu abandonar o partido Rafi, apercebendo-se que, apesar da aura do seu chefe, este grupo de que foi o impulsionador se mostrava incapaz de pôr fim à hegemonia trabalhista. Tendo retomado o seu lugar na direção trabalhista, sai de novo deste partido, trocando-o pelo Kadima de Ariel Sharon, que também abandona ao pressentir o naufrágio que se aproximava.

 

Mas a sua maior traição foi sem dúvida a traição a Yasser Arafat, que tinha convencido a empenhar-se a fundo no processo de Oslo… que Peres sabota após o assassinato de Yitzak Rabin, não tendo coragem para confrontar aqueles que, ao matarem o primeiro-ministro, puseram um ponto final ao dito processo de paz. Shimon Peres é o único político israelita de primeiro plano que nunca foi eleito pelo povo, ganhando os seus galões (ministro dos Negócios Estrangeiros, ministro da Defesa, primeiro-ministro e finalmente presidente do Estado) nas batalhas de aparelho.

 

Os media locais e internacionais já fazem o balanço da ação política de Shimon Peres: como diretor geral do ministro da Defesa, nos anos sessenta, ele está não só na origem do nuclear israelita, mas também da transformação do Tsahal num exército moderno e eficiente.

 

É aliás graças aos seus estreitos laços com o Partido Socialista de Guy Mollet que ele conseguiu fazer de Israel uma potência militar, simbolizada pelos caças Mirage das empresas de Dassault e as suas performances em junho de 1967. Mas poucos elogios fúnebres falam do massacre de Kana, no Líbano em 1996, preferindo alongar-se sobre o Prémio Nobel da Paz, recebido pelo seu papel nos acordos de Oslo… que sabotará três anos depois.

 

Em seu abono, devemos reconhecer que a biografia de Peres não está contaminada com casos de corrupção, de violações ou assédios sexuais, o que contrasta claramente com a classe política israelita dos dias de hoje.

 

Dito isto, e apesar das coroas de louros que hoje lhe colocam nos quatro cantos do mundo, o antigo presidente do Estado de Israel não terá sido um grande político, mas um politiqueiro manipulador que se tornou um dos grandes mestres do nosso tempo na arte da mentira e da traição.

 

Michel Warschawski é um escritor e jornalista israelita, fundador da Alternative Information Center, uma ONG que junta activistas israelitas e palestinianos contra a ocupação.
Este artigo foi publicado em 29/9/2016 no 
Siné Mensuel
e traduzido do francês por Luís Branco para o esquerda.net: http://www.esquerda.net/artigo/um-manipulador-incansavel/44681


11
Set 16
publicado por samizdat, às 13:06link do post | comentar
Traduzido do original:
 

Palestinian BDS National Committee -- September 8, 2016
 
 
Cadiz, capital provincial da comunidade autónoma da Andaluzia no Estado espanhol, tornou-se o mais recente município a aprovar a moção de apoio ao movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) pelos direitos dos palestinianos e a declarar-se "Zona Livre de Apartheid Israelita".

Com uma população de 120 mil habitantes, Cadiz juntou-se às mais de 50 cidades e vilas espanholas que votaram para declarar-se espaços livres de apartheid israelita. Outros célebres municípios Livres de Apartheid incluem Gran Canaria, Santiago de Compostela, Gijón, Sevilha, Córdoba e Santa Eulália em Ibiza.
 
Inspirada em parte na campanha semelhante realizada durante a luta contra o apartheid na África do Sul, nos anos 1980, a campanha Zona Livre de Apartheid, liderada pela Rede de Solidariedade contra a Ocupação da Palestina (RESCOP), tem por objectivo criar "ilhas de consciência política" e romper laços locais com o regime de ocupação, de colonização e apartheid de Israel, assim como com empresas e instituições internacionais cúmplices das violações do direito internacional por Israel.
 
A campanha, que é apoiada por movimentos sociais, grupos comerciais, escolas, órgãos de comunicação social e instituições públicas do Estado espanhol, criou um mapara indicativo dos espaços livres de apartheid israelita.
 
Ao declararem-se Zonas Livres de Apartheid, as autoridades municipais concordam em boicotar empresas cúmplices das violações do direito internacional e dos direitos dos palestinianos, assim como em romper os laços com o regime israelita e as suas instituições cúmplices. Também apoiam os esforços de consciencialização locais e comprometem-se com políticas conscientes baseadas nos direitos humanos do povo palestiniano.
 
Riya Hassan, coordenador europeu do Comité Nacional de BDS palestiniano (BNC), declarou:
"A campanha Zonas Livres de Apartheid Israelita por todo o Estado espanhol está a inspirar esforços semelhantes noutros países. O facto de essas declarações terem sido votadas por municípios democraticamente eleitos reflecte o apoio crescente ao movimento BDS pelos direitos dos palestinianos, não apenas ao nível das organizações de base, mas também no seio dos governos. Isto acabará por levar a opinião pública a defender as sanções contra Israel até que este país ponha fim à opressão sistemática dos palestinianos".
 
"Os governos locais do Estado espanhol estão a mostrar o caminho com um poderoso modelo de solidariedade para com o povo palestiniano e a sua luta pela auto-determinação. Saudamos todos os autarcas e activistas envolvidos em propor e defender as moções e todos os envolvidos em implementar as zonas livres de apartheid israelita."
 
"Numa altura de crescente déficit democrático no continente europeu, é encorajador vermos como cidadãos estão a integrar a solidariedade com os palestinianos com acções locais para promover a justiça social, económica e ambiental".
 
 
Ataques a um movimento pela liberdade, justiça e igualdade
 
O crescente apoio público ao movimento BDS pelos direitos humanos dos palestinianos levou Israel e os seus aliados a lançarem um ataque inédito, consistente e anti-democrático contra todos os que aspiram a que Israel tenha de prestar contas perante o direito internacional e as resoluções da ONU, em particular através da divulgação da BDS.

Os ataques patrocinados por Israel contra o movimento BDS têm como objectivo pressionar os governos e parlamentos a travar as acções cívicas e a adoptar medidas repressivas que a longo prazo espezinham as liberdades cívicas e políticas dos seus próprios cidadãos.

No Estado espanhol, tentativas de silenciar o movimento BDS, em particular a um nível institucional, têm sido lideradas pelo ACOM, um grupo de lobby pró-israelita sediado em Madrid.
 
A ACOM lançou uma quantidade de acções legais contra os municípios que se declararam Zonas Livres de Apartheid.
 
No entanto, a estratégia de intimidação da ACOM não tem tido êxito. Os municípios visados têm defendido o resultado democrático dos votos, e tribunais informados, como o Tribunal Administrativo de Gijon, recusaram aceitar as queixas da ACOM.
 
Acções legais semelhantes foram interpostas contra municípios do Reino Unido pelo chamado Observatório Judeu dos Direitos Humanos (Jewish Human Rights Watch), um grupo de lobby sediado em Londres. Também aí, o Tribunal Supremo do RU rejeitou as queixas e pronunciou-se a favor das três autarquias que aprovaram resoluções de apoio a boicotes contra a ocupação israelita.
 
A RESCOP comentou numa declaração:

"É intolerável que uma entidade estrangeira que defende um sistema de apartheid, como a ACOM, interfira na soberania democrática dos nossos municípios, ditando-nos o que devemos votar a favor ou contra e impedindo as nossas instituições de se comprometerem com os direitos humanos."
 
Esta última decisão da cidade de Cadiz de se juntar à vaga inspiradora de outras cidades e vilas espanholas declarando-se zonas livres de apartheid israelita é um sinal de que cidadãos e representantes eleitos não estão intimidados pelas ameaças judiciais da ACOM.
 
"Ao apoiarem o movimento BDS pelos direitos dos palestinianos e ao escolherem não se envolverem com instituições e empresas directamente envolvidas nos monstruosos crimes de Israel contra o povo palestiniano, as pessoas de consciência e as autarquias pela Espanha fora estão a dar um passo concreto para fazer com que Israel seja responsabilizado pelos seus crimes contra o povo palestiniano", concluiu Riya Hassan.
 
 
 
LISTA DAS ADMINISTRAÇÕES PÚBLICAS DECLARADAS ELAI E / OU ADERENTES À BDS NO ESTADO ESPANHOL (até 11 de agosto 2016)
 
Andaluzia
Diputación de Sevilla
Ayuntamiento de La Roda
Ayuntamiento Castro del Río
Ayunamiento de Montoro
Ayuntamiento de Mairena del Aljarafe
Ayuntamiento Los Corrales
Ayuntamiento Alhaurín de la Torre
Ayuntamiento de Campillos
Ayuntamiento de Casares
Diputación de Córdoba
Ayuntamiento de Velvez-Málaga
Ayuntamiento de San Roque
Ayuntamiento de San Fernando

Catalunha
Ajuntament de Artés
Ajuntament de Sant Pere de Ruidebitlles
Ajuntament de Molins de Rei
Ajuntament de Sant Cebriá de Vallalta
Ajuntamnet de Badalona
Ajuntament de Sant Celoni
Ajuntament de Ripollet
Ajuntament de Sant Feliu de Llobregat
Ajuntament de Abrera
Ajuntament de Sant Boi de Llobregat
Ajuntament de Terrasa
Ajuntament de Olesa de Montserrat
Ajuntament de Sant Adrià de Besòs
Ajuntament de Sant Quirze del Vallès
Ajuntament de Barberá del Vallès
Ajuntament de Viladamat

Madrid
Ayuntamiento de Navalafuente
Ayuntamiento de Rivas-Vaciamadrid

Astúrias
Ayuntamiento de Corvera
Ayuntamiento de Castrillón
Ayuntamiento de Gijón
Ayuntamieno de Llangreu
 
Galiza
O Concello de Compostela
Concello de Oleiros
Islas Canarias
Cabildo de Gran Canaria
Ayuntamiento de Telde

Aragão
Ayuntamiento de Sabiñánigo

Valencia
Ajuntament de Alcoi
Ajuntament de Muro
Ajuntament de Onda
Ajuntament de Concentaina
Ajuntament de Catarroja
Ajuntament de Xeraco
Ajuntament de Benlloch
Ajuntament de Petrer

Castilha e Leão
Ayuntamiento de Viloria del Henar

Baleares
Ajuntament de Santa Eulàlia

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