Informação sobre a ocupação israelita, a resistência palestiniana e a solidariedade internacional *** email: comitepalestina@bdsportugal.org
31
Jan 18
publicado por samizdat, às 23:50link do post | comentar

O ciclismo português deverá ter um representante no Giro d'Italia, que este ano - e coincidindo com a provocação de Trump - terá início em Jerusalém. A esse respeito, enviámos no dia 18 deste mês uma carta dirigida ao presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo e ao representante de Portugal na UCI-União Internacional de Ciclismo. Até à data não recebemos resposta destes dois organismos, pelo que tornamos pública a carta abaixo.

 

Exmo Sr. Delmino Albano Magalhães Pereira 
Presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo

Exmo Sr. Artur Lopes 
Representante de Portugal na União Internacional de Ciclismo 

Neste momento em que surgem vários apelos de organizações da sociedade civil internacional e palestiniana para que o 
Giro d’Italia 2018 não tenha início em Israel, o Comité de Solidariedade com a Palestina vem dirigir-se à Federação Portuguesa 
de Ciclismo e ao Representante de Portugal na UCI para que escutem este apelo. 

O código ético da União Internacional de Ciclismo afirma que a UCI “reconhece a sua responsabilidade de salvaguardar 
a integridade e a reputação do ciclismo em todo o mundo”. Ora, o Giro d’Italia é um evento mundial da UCI, pelo que esta tem 
o dever e a autoridade para agir. 

Antes de o presidente Trump reivindicar ilegalmente a soberania de Israel sobre Jerusalém, contra todo o consenso da comunidade
internacional e do direito internacional, o Giro d'Italia já estava a reforçar esta reivindicação, usando em materiais oficiais imagens 
de Jerusalém Oriental como se ela fosse parte de Israel e removendo a palavra "ocidental" da descrição da etapa de Jerusalém, 
após o governo de Israel ameaçar retirar o seu patrocínio. 

O reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel, um acto ilegal contra os direitos dos palestinianos, é a forma mais grave 
até à data de cumplicidade da administração americana por reforçar e legitimar o regime de apartheid em Jerusalém e acelerar 
a limpeza étnica levada a cabo por Israel contra os palestinianos originários desta cidade. 

A Federação Israelita de Ciclismo, membro da UCI, patrocina e organiza eventos de competição nos territórios palestinianos 
ocupados, assim como nos Golãs ocupados, em descarada violação do direito internacional.

Da mesma maneira, a Academia Israelita de Ciclismo (ICA), uma equipa Pro Continental da UCI, participará numa corrida 
em Jerusalém-oriental ocupada através do colonato ilegal de Pisgat Ze'ev uns dias antes do início do Giro d'Italia, evento no qual 
ela também participará. 

Tanto o acto de Trump como a decisão do Giro d’Italia encorajam o governo israelita e os colonatos ilegais a roubarem e destruírem
mais casas palestinianas, a expropriarem mais terras palestinianas e a negarem os direitos de residência a mais palestinianos de 
Jerusalém. Encoraja-se igualmente Israel a impedir mais palestinianos dos territórios ocupados a entrarem na Jerusalém ocupada.

Apelamos para que a UCI honre a sua responsabilidade de defender o desporto do ciclismo e a sua separação da propaganda 
política, que não se envolva em actos ilícitos, negando aos palestinianos os seus direitos reconhecidos pelas Nações Unidas.

Apelamos para que a UCI retire o “Big Start” do Giro d’Italia 2018 de Israel e imponha sanções à Federação Israelita de Ciclismo e 
à Academia Israelita de Ciclismo por participarem em corridas nos territórios ocupados, incluindo a sua eventual suspensão de 
membros. 

Contamos com o contributo do ciclismo português para que se cumpra o código ético da União Internacional de Ciclismo e 
se respeite os direitos humanos na Palestina.

Agradecemos desde já a vossa atenção e aguardamos uma resposta com a maior urgência.

O Comité de Solidariedade com a Palestina,



09
Jan 18
publicado por samizdat, às 09:38link do post | comentar

LIBERDADE PARA AHED TAMIMI

 

E TODAS AS CRIANÇAS PALESTINIANAS PRESAS

 

 

 

Uma menina desarmada de 16 anos faz tremer o “poderoso” Estado de Israel.

 

Chamam-lhe “agressora” porque, juntamente com a sua prima Nour, esbofeteou dois soldados no pátio da sua casa, em frente de uma câmara de vídeo. O exército invadiu-lhe a casa pela calada da noite e levou-a presa, a ela, à mãe e à prima.

No tribunal militar, juntaram várias acusações sobre os últimos cinco anos. Dizem que ela uma vez alvejou soldados com uma fisga e noutra mordeu a mão de um que queria levar preso o seu irmão mais novo. Apontam-lhe “crimes” cometidos desde os 11 anos de idade.

 

Mas o que fazem na aldeia de Ahed os soldados mordidos, apedrejados, esbofeteados? São soldados ocupantes, armados até aos dentes, que todos os dias demolem casas e escolas, roubam poços e expropriam terras. Na manhã do esbofeteamento, tinham ferido na cabeça um outro menino, primo de Ahed, que ficou em coma induzido.

Muitas terras na aldeia da Ahed, situada na Cisjordânia, foram colonizadas, os habitantes nunca desistiram de protestar contra esse roubo e, por isso, foram sempre reprimidos. Ahed testemunhou a morte de membros da sua família e viu muitos serem presos.

 

Ela é um símbolo da resistência, porque levanta o mundo contra o ministro da Educação, que reclama para ela a prisão perpétua. Ahed Tamimi é uma ativista destemida, como muitas que vieram antes dela e outras muitas que ainda virão enquanto não houver liberdade para o povo palestiniano.

 

Liberdade imediata para Ahed Tamimi e todas as outras crianças detidas nas prisões israelitas!

 

Vigília no sábado 13 de janeiro, às 15 horas,

 

no Largo de Camões

 

 

Acompanhe todas as acções na página de facebook “Pela libertação imediata de Ahed Tamimi”, partilhe esta informação com familiares e amigos. UTILIZE AS #FreeAhed #FreeAhedTamimi #FreePALESTINE


publicado por samizdat, às 09:07link do post | comentar

Um artigo de Bradley Burston


Existe um axioma na política israelita que defende que apenas a direita pode deitar abaixo a direita.

Não devia ser surpresa, assim sendo, que os passos, desajeitados e precipitados, tomados pelo governo de Benjamin Netanyahu – sem dúvida o mais flagrantemente à direita da história nacional - estão involuntariamente a compor um manual de como lutar contra a jóia da coroa da direita, a eterna ocupação militar de Israel nos territórios palestinianos.

 

Lição 1: Boicote aos colonatos

Israel passou anos a promover legislação anti-boicote e a gastar grandes esforços na asserção de que não existe diferença entre boicotar os colonatos e boicotar Israel como um todo.

A menos, claro, que seja o governo de Israel a apoiar o boicote.

Esta semana, sem qualquer lamento dos agressivos ministros pró-colonatos do gabinete, Israel aprovou um acordo de cooperação e ajuda com a União Europeia. Este pacto estabelece que empresas e organizações para além das fronteiras de Israel estabelecidas antes de 1967 - isto é, em colonatos na Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Montes Golan - não são elegíveis para fazer parte da iniciativa ou receber financiamentos.

Em português simples, Israel concordou oficialmente com um boicote aos colonatos.

Moral: Agora temos luz verde sobre a Linha Verde. Todos os que se opõem à expansão dos colonatos como obstáculo para a paz e como a principal força motriz que desgasta a democracia israelita, devem sentir-se livres - de facto, devem tomar a iniciativa - de boicotar os produtos dos colonatos.

 

Lição 2: Prova de que o objetivo de Israel é o domínio permanente de toda a Cisjordânia e Jerusalém Oriental

Com uma velocidade alucinante - que num universo trumpiano pode ser totalmente intencional - o partido que governa Israel passou a primeira semana do novo ano a confirmar as alegações de alguns dos seus críticos mais estridentes.

Para aqueles que há muito alegam que a Israel de Netanyahu nunca vai permitir um Estado palestiniano, certamente nunca com capital em Jerusalém, e que o objetivo de Israel é o domínio permanente e abrangente de toda a Cisjordânia e Jerusalém Oriental sem nenhuma negociação com palestinianos sobre igualdade de direitos ou auto-determinação, a resposta veio esta semana. A resposta foi: "Estiveram sempre certos."

Na véspera de Ano Novo, numa votação espantosamente unânime, o orgão governante do partido Likud, o todo-importante Comité Central, aprovou a resolução de anexar um arquipélago dominante de área de terreno da Cisjordânia, englobando todas as áreas reclamadas pelos colonatos, legalmente ou não. Embora a resolução não seja vinculativa, ela mapeia a eventual anexação pelo governo, que teria declarado a lei de Israel vinculativa para todos os israelitas da região, enquanto os palestinianos continuariam desprovidos de direitos e sob ocupação militar.

Em português simples, ou melhor, em africânder: Apartheid.

E não foi só. Mais tarde na noite de Ano Novo, o Knesset aprovou uma lei que parecia ter como intenção tornar impossível fazer negociações ou compromissos sobre as fronteiras de Israel. No final, acabou por ser pior. A lei aparentemente torna impossível lidar com o grande número de palestinianos na cidade, livrando-se de dois terços destes para um bantustão extra-municipal sombrio mas ainda sob controlo israelita. Apartheid dentro de Apartheid.

Moral: Quando a direita fala do seu desejo de paz, pergunte-lhe se está disposta a comprometer-se ou abdicar de alguma coisa. Se disserem que mudar a embaixada dos EUA para Jerusalém é um passo para a paz, ver a Lição 6 abaixo.

 

Lição 3: Promoção de ícones da resistência palestiniana

Na Cisjordânia, uma adolescente palestiniana esbofeteia um soldado das IDF. A menção no The New York Times e até o advogado da rapariga reconhecem que os soldados que ela enfrentou agiram com uma contenção admirável.

Israel podia ter deixado isto passar. Mas, não. Os ultra-falcões das redes sociais e ministros do gabinete de direita, esfomeados por publicidade, tropeçaram uns nos outros para uivar "sangue!", com o Ministro da Educação a pedir até prisão perpétua para Ahed Tamimi, de 16 anos. Todos os movimentos subsequentes do governo embaraçado agiram para a confirmação da adolescente como uma Joana de Arc contemporânea ou uma David feminina na história do Golias - em suma, um poderoso ícone da resistência palestiniana a uma ocupação militar colossalmente injusta, tão à deriva quanto permanente.

Após hesitar durante dias, os militares invadiram a casa de Tamimi na aldeia de Nebi Saleh, pela calada da noite. Prenderam a rapariga, a sua mãe e a sua prima. Foram as três sujeitas a uma série de humilhações. Entre as muitas acusações apresentadas contra a rapariga, uma remonta a quase dois anos. E sim, tal como David, Ahed Tamimi foi acusada de usar uma fisga. Em Abril de 2016 alegam ter utilizado a fisga contra forças de segurança israelitas, que passaram anos a tentar reprimir os protestos da aldeia em vão, muitas vezes com consequências fatais para os habitantes da aldeia.

 

Lição 4: Cavar um buraco mais fundo

Enquanto Ahed Tamimi e a sua mãe continuam detidas, a direita tem sido rápida a aprofundar os danos a Israel é à ocupação, adicionando à mistura um novo toque de racismo, xenofobia, e não pouco ódio interno.

"Quando o The New York Times nos elogiou, eu soube que estávamos em apuros," disse no mês passado, o conhecido comentador e advogado de direita Nadav Haetzni. "Isto demonstra a falta de entendimento do parolo Ashkenazi do The New York Times, e dos apoiantes de Obama e Hillary, que não entendem - tal como Obama não entendia - o mundo árabe."

Ao dizer ao Channel 10 de Israel que os Tamimi todos eram uma "família que há muito devia estar presa, ou deportada daqui," Haetzni, filho do pioneiro do movimento dos colonatos Elyakim Haetzni, teve palavras amargas para os palestinianos como um todo:

"Eu também sou Askenazi, mas tento entender o que me rodeia. No cenário em que nos encontramos, se não reagirmos a coisas como esta, o outro lado, que é selvagem, incivilizado, recebe a imagem de uma vitória, e isto apenas o encoraja a cometer actos de terrorismo e a caçar-nos."

 

Lição 5: Confirmar a injustiça judicial

Caso de Estudo: No final de 2015, um adolescente colono mascarado ataca um rabino líder de uma organização judia de direitos humanos. O adolescente espanca o rabino Arik Ascherman, que é na altura líder dos Rabinos Pelos Direitos Humanos, atirando-lhe uma pedra e brandando uma faca contra ele. O ataque foi registado em vídeo.

No mês passado, após o ministro do Interior, Aryeh Deri, ter escrito uma carta de apoio ao réu, dizendo que conhece pessoalmente o adolescente, que acredita que ele tem um grande coração e é caracterizado por ajudar os outros, um tribunal decretou que o atacante, agora com 19 anos, não seria condenado por nenhum crime. Em vez disso, fará 150 horas de serviço comunitário.

A juíza Sharon Halevy escreveu que optou pelo serviço comunitário, em parte porque uma condenação poderia prejudicar as hipóteses do jovem de se alistar no exército israelita.

Moral: Os colonos podem fazer o que querem. Assaltar quem quiserem. Roubar e ocupar e vandalizar o que querem. Justiça? No que toca a colonos, É realmente cega.

 

Lição 6: Trump

A semana passada, o ministro dos Transportes de Netanyahu, Yisrael Katz, anunciou que Israel irá baptizar uma estação ferroviária em nome de Donald Trump, na Cidade Velha em Jerusalém Oriental, e espera-se que a estação seja localizada - se chegar a ser construída - na Porta do Esterco da cidade santa.

Não é possível inventar qualquer parte da frase acima.

 

Lição 7: Estigmatizar a Fundo Nacional Judeu (JNF) como ocupante

Dos muitos, muitos exemplos, o mais recente é este: Uma subsidiária do JNF está a ajudar um esforço que dura há uma geração para despejar uma família palestiniana da sua casa num bairro de Jerusalém Oriental de Silwan, onde o colonato NGO/conglomerado Elad espera por ocupar a casa.

Moral: Não dê ao Fundo Nacional Judeu.

 

Lição 8: A perspetiva iraniana

Na segunda-feira, Netanyahu publicou no Twitter que desejava "ao povo iraniano sucesso na sua nobre demanda pela liberdade." Acrescentou que "Bravos iranianos saem às ruas. Procuram liberdade. Procuram justiça. Procuram as liberdades fundamentais que lhes foram negadas durante décadas."

Hmm. Não há liberdade para os palestinianos? Não há problema. Nenhuma perspectiva de direitos ou privilégios? Não há problema.

Moral: Deseje ao povo palestiniano sucesso na sua nobre demanda pela liberdade. Se por mais nenhuma razão, porque são seres humanos. E porque procuram as liberdades fundamentais que lhes foram negadas durante décadas. “E a liberdade para os palestinianos pode também finalmente libertar os israelitas de... bem, deles próprios.


Traduzido de:

https://www.haaretz.com/israel-news/1.83265




27
Dez 17
publicado por samizdat, às 19:09link do post | comentar
Artigo de Yousef Munayyer
 
Quando soube que a internacionalmente aclamada cantora, compositora e produtora musical Lorde estava a reconsiderar a decisão de actuar em Israel... tive o bom pressentimento de que ela iria cancelar o concerto. Este fim-de-semana, foi  o que ela fez. "Recebi um número impressionante de mensagens e cartas e tive muitas discussões com pessoas defendendo vários pontos de vista, e acho que a decisão correcta neste momento é a de cancelar o concerto," disse ela num comunicado.
 
Acredito que a história recorderá a sua decisão como um passo importante no caminho para a liberdade, a justiça e a igualdade na Palestina/Israel.
 
Os activistas pelos direitos dos palestinianos foram rápidos a mostrarem-lhe o seu apoio. Mas nem toda a gente concorda com a decisão de Lorde, e uma olhada sobre meios de comunicação social revela o início da reacção que já começou por parte de apoiantes de Israel. Roseanne Barr chamou Lorde de "fanática", enquanto que outros a acusam de ter cedido à "pressão" da BDS — uma linguagem curiosa dado que ela respondeu a uma carta de fãs e decidiu renunciar ao que certamente teria sido um concerto lucrativo.
 
Os incentivos eram muito fortes para que ela actuasse em Telavive, como o são para todos os artistas que enfrentam a decisão de renunciar a uma oportunidade lucrativa. Qualquer pressão que tenha havido veio apenas da sua própria consciência depois de ter tomado conhecimento, pesado e discutido a questão com cuidado. Lorde também parece ter tomado em consideração os pedidos dos fãs, como a carta aberta de admiradores seus judeus e palestinianos neozelandêses pedindo-lhe que cancelasse o seu concerto, uma carta que vale a pena ler.
 
Ainda assim, muitos questionaram a sua decisão. Um dos produtores israelitas do seu concerto ainda encontrou maneira de insultá-la quando ela explicava a sua decisão, dizendo que tinha sido "ingénuo de pensar que uma cantora da sua idade consegueria lidar com a pressão". É bom lembrar que Lorde tem 21 anos e que na sociedade israelita é-se recrutado aos 18 anos  e considerado perfeitamente capaz de lidar com a responsabilidade de tomar decisões sobre a vida e a morte, armado com metralhadoras pesadas frequentemente apontadas para crianças palestinianas. Não só Lorde é uma adulta plenamente capaz de tomar as suas próprias decisões como tomou a decisão correcta e muito mais sensata do que alguns outros artistas que infelizmente não conseguiram responder ao apelo ao boicote.
 
Penso que todos os artistas deviam tomar a mesma decisão que Lorde. E nunca foi mais urgente para eles fazê-lo do que neste momento. Tomemos um tempo para rever o contexto em que teve lugar a decisão de Lorde. Nos dias e semanas antes desta decisão, o presidente Trump fez a sua declaração sobre Jerusalém. A resposta israelita que se seguiu aos protestos dos palestinianos foi típica da sua brutal ocupação militar.
 
Vale a pena reflectir sobre alguns casos em particular. Tomemos por exemplo o assassinato de Ibrahim Abu Thuraya. Duplamente amputado, Abu Thuraya perdeu as duas  pernas num ataque aéreo israelita há dez anos. Na semana passada, foi baleado por um atirador israelita na cabeça enquanto protestava no interior da faixa de Gaza cercada.
 
Não deveria ser preciso dizer que não há razão alguma para o uso de força letal contra um amputado desarmado. Não deveria ser preciso dizer que o seu assassinato deveria chocar a consciência pública. Mas isso não aconteceu. Como é hábito, a investigação militar israelita não encontrou nenhum delito e a sociedade israelita nem sequer piscou. Alguns até afirmaram que Abu Thuraya era um terrorista; um homem em cadeira de rodas que sustenta a sua família lavando carros e era conhecido por ter subido a uma torre eléctrica para amarrar no alto uma bandeira da Palestina durante uns protestos.
 
Agora, tomemos o caso de Ahed Tamimi, também a acontecer enquanto Lorde ponderava a sua decisão. Ahed, uma rapariga de 16 anos da aldeia de Nabi Saleh, pertence a uma família que tem estado na vanguarda dos protestos contra a ocupação israelita. Durante anos, a sua aldeia protestou contra a construção de um colonato israelita ilegal em expansão nas suas terras. Os soldados israelitas, os capangas da ocupação, têm a rotina de usar semanalmente a violência para reprimir os moradores da aldeia. Ahed já viu vários membros da sua família morrerem às mãos desta violenta repressão israelita ao longo dos anos e viu outros serem arrastados para prisões israelitas.
 
Na semana passada, um vídeo de Ahed esbofateando um soldado israelita em frente da sua casa tornou-se viral. Pouco antes desse momento filmado, soldados israelitas tinham disparado uma bala revestida de borracha  na cara de um dos seus primos mais novos, Mohamed, de 14 anos. A bala foi disparada a uma distância suficiente para partir o maxilar de Mohamed, fazendo o sangue escorrer do seu rosto e resultando numa cirurgia de urgência para a reconstrução do maxilar e coma induzido. Depois de o  vídeo de Ahed a bater nos soldados se ter tornado viral, Ahed, a prima e a mãe foram presas e estão detidas, já há dias, sem acusação.
 
Perante isso, qual foi a resposta na sociedade israelita ao vídeo de uma rapariga que perdeu tanto e colocou a vida à frente de um soldado que podia tê-la tomado num instante? Não foi a de perguntar "Como nos atrevemos?" mas sim "Como se atreve ela!"
 
O ministro da Defesa de Israel, ele próprio um colono, declarou que "todos os envolvidos, não só a rapariga, mas também os pais e aqueles que os rodeiam não vão escapar ao que merecem." O ministro da Educação israelita, Naftali Bennett, a pessoa responsável pela educação das crianças em Israel, disse que essa criança palestiniana deveria passar o resto dos seus dias na prisão. Esse é o mesmo ministro que disse que o soldado israelita Elor Azaria, que cometeu um assassinato a sangue frio filmado em vídeo, não deveria permanecer "um único dia na prisão". Mas isto não foi o pior de tudo. Michael Oren, um membro do Knesset [parlamento], americano de origem e ex-embaixador  nos EUA, questionou se os Tamimis seriam mesmo uma família e focou as roupas americanas suspeitas de Ahed. Aparentemente, os palestinianos que não encaixam claramente nos estereótipos racistas na mente de Oren só podem ser míticos.
 
A julgar pelas palavras dos seus líderes e da imprensa, os israelitas em geral foram incapazes de ver este momento em Nabi Salehcomo o que ele era: um episódio de uma brutal ocupação militar. Em vez disso, viram uma rapariga desarmada de 16 anos como sendo a agressora e o agente da ocupação fortemente armado, cujo exército mata e prende os membros da sua família e facilita o roubo das suas terras, como, de alguma forma, a vítima. "Quando assisti àquilo, senti-me humilhada, senti-me esmagada," disse Miri Regev, ministra israelita e antiga porta-voz militar, que tratou o episódio de "prejudicial à honra do exército e do Estado de Israel." Pensemos nisso por um momento. Os israelitas, que têm o maior arsenal nuclear per capita do mundo e um dos exércitos mais capazes e poderosos do mundo, que dirigem os seus modernos aviões, tanques e navios contra palestinianos apátridas, foram desonrados, esmagados e humilhados, não por outro exército mas pelas mãos vazias de uma garota de 16 anos.
 
Coisas como as reações dos israelitas perante Ahed Tamimi ou a sua falta de resposta à morte de Abu Thuraya demonstram como a consciência israelita, quando se trata dos palestinianos que eles controlam, definhou, apodreceu e morreu.
 
E são momentos como este que demonstram exactamente por que a decisão de Lorde é tão importante e justificada.
Os líderes israelitas afirmam ao seu povo que as suas políticas e o seu comportamento para com os palestinianos são justificados. Eles são ajudados e incitados nesse empreendimento por uma comunidade internacional que, em vez de sancionar Israel, tem com ele relações comerciais e pelos Estados Unidos que, em vez de responsabilizar Israel pelas suas violações, continua a enviar-lhe uma ajuda de 3,8 bilhões de dólares ano após ano.
 
Por outras palavras, é dito à sociedade israelita, tanto internamente como externamente, que a sua brutal opressão dos palestinianos está correcta. Para os israelitas acabarem com a opressão dos palestinianos, será preciso começar com um apelo dramático à tomada de consciência da sociedade israelita, que leve à percepção de que há custos a pagar pela negação da liberdade e igualdade a milhões de seres humanos palestinianos. A sociedade civil palestiniana abraçou uma acção económica não-violenta sob a forma de BDS [boicote-desinvestimento-sanções] como táctica para transmitir esta mensagem e apelar à solidariedade internacional ao fazê-lo.
 
A escolha do Lorde de responder a este apelo contribui para enviar a Israel a mensagem de que esta situação não é normal e não pode ser normalizada, e que Israel não pode continuar a ignorar as injustiças que são cometidas contra os palestinianos. Ela junta-se a uma lista crescente de artistas e performers que tomaram a mesma decisão, e muitos mais seguirão os seus passos.
 
Tal como no caso da África do Sul, os artistas têm um papel importante a desempenhar na busca da paz e da justiça. E, tal como no caso da África do Sul, alguns dos mesmos argumentos que os defensores do apartheid na África do Sul do usaram sem sucesso contra os esforços BDS na altura estão a ser reciclados hoje para defender as políticas de apartheid de Israel na Cisjordânia. Também esses esforços não terão êxito.
 
Um desses argumentos usados contra a decisão de Lorde chegou do campo "whataboutista". No Twitter, os adversários foram rápidos em apontar que a cantora está a cancelar o concerto em Israel, mas não na Rússia, também culpada de violações dos direitos humanos, e, portanto, os seus esforços de boicote e os do BDS mais geralmente são hipócritas. Isto também é reciclado da propaganda do regime de apartheid sul-africano. Naquela altura, os defensores antiboicote  apontariam para outros países na África e na Ásia com fracos registros de direitos humanos, tal como os defensores de Israel se envolvem em acusar outros hoje a fim de desviar a responsabilidade pela negação dos direitos dos palestinianos. A verdade é que a África do Sul do apartheid não tinha o pior registo de direitos humanos da história, mas foi o pior violador dos direitos humanos dos negros sul-africanos nativos. Da mesma forma, Israel pode não ser o pior ou o único violador dos direitos humanos no mundo de hoje, mas é o pior violador dos direitos humanos dos palestinianos.
 
Tácticas como boicotes são específicas do contexto e são implementadas pela sua utilidade. Estas táticas foram desenvolvidas  pela sociedade civil palestiniana e cada vez mais pela sociedade civil internacional, porque a superestrutura internacional falhou em responsabilizar Israel pelas suas violações. Ao contrário da Rússia ou de outros Estados como a Coreia do Norte, Myanmar ou outros, onde os EUA e outros países implementaram sanções económicas, Israel recebe bilhões de dólares em armas de Washington e recebe protecção incondicional nas Nações Unidas. Dito isto, sempre que um povo oprimido em qualquer lugar do mundo organizar um apelo à solidariedade internacional contra os seus opressores que desprezam o direito internacional e encontram no entanto uma maneira de fugir a qualquer responsabilização, como sanções ou embargos de armas, personalidades da cultura devem mostrar-se atentas ao seu apelo como fizeram pelos sul-africanos e como deveriam fazer pelos palestinianos.
 
Um dia, liberdade, justiça e igualdade reinarão finalmente para israelitas e palestinianos da mesma maneira. Então poderemos todos cantar e dançar sem um pano de fundo de racismo, discriminação e brutalidade. Sonho com o primeiro concerto na minha terra natal depois da liberdade, quando todos os artistas que boicotaram puderem finalmente voltar e actuar. Estou ansioso por ver lá a Lorde  como parte de uma linha histórica ao lado de Roger Waters, Lauryn Hill e muitos, muitos mais.
 
Valerá a pena esperar por esse concerto da liberdade precisamente porque a liberdade é algo por que vale a pena lutar.
 
 
Yousef Munayyer, analista político e escritor, é director executivo da Campanha pelos Direitos dos Palestinianos nos Estados Unidos.

Traduzido da versão inglesa publicada em 26.12.2017 em:
https://forward.com/opinion/390845/thank-you-lorde-for-standing-up-for-palestinian-human-rights/

03
Out 17
publicado por samizdat, às 13:39link do post | comentar

Damien Gayle, The Guardian, 29-9-2017


A Universidade de Manchester censurou o título crítico a Israel de uma sobrevivente do Holocausto e insistiu para que a sua palestra no campus fosse gravada, depois de diplomatas israelitas terem dito que o seu discurso era de ódio anti-semita.

Marika Sherwood, uma judia sobrevivente do gueto de Budapeste, devia dar uma palestra em março sobre a forma como Israel trata os palestinianos intitulada: "Vocês fazem aos palestinianos o que os nazis me fizeram a mim."

Mas após uma visita de Mark Regev, o embaixador de Israel, e seu adido dos  assuntos civis, os funcionários da Universidade proibiram os organizadores de usar o título "indevidamente provocador" e definiram um conjunto de condições para que a palestra pudesse realizar-se.

Os estudantes tinham convidado Sherwood para falar no âmbito da Semana do Apartheid Israelita e de uma série de eventos organizados pela comissão de estudantes da universidade para a campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções.

Os diplomatas israelitas visitaram Manchester no dia 22 de fevereiro e reuniram com o dirigente da iniciativa estudante, Tim Westlake. Mais tarde naquele dia, Michael Freeman, conselheiro da embaixada para os assuntos da sociedade civil, escreveu um email a Westlake agradecendo-o por discutir as "questões difíceis que enfrentamos", incluindo a "ofensivamente intitulada" Semana do Apartheid Israelita.

Mencionando o título da palestra de Sherwood, Freeman disse que ele viola a definição de anti-semitismo da Aliança Internacional para a Lembrança do Holocausto. Fez também acusações de anti-semitismo contra dois oradores previstos para um evento separado, citando tweets e a sua recusa em condenar o comportamento anti-semita.

"Estes dois eventos irão aos [sic] levar os alunos judeus a sentirem-se desconfortáveis no campus e a sentirem que são alvo de assédio devido à sua identidade enquanto povo e à sua ligação ao Estado judeu de Israel," disse Freeman a Westlake. "Eu agradecia que pudesse debruçar-se sobre esses eventos e tomar a medida apropriada."

A correspondência surgiu depois de o Gabinete do Comissário para a Informação ter obrigado Manchester a revelar a um aluno "toda a correspondência entre a Universidade de Manchester e o lobby israelita" entre 1 de fevereiro e 3 de março. A divulgação  incluía o email de Freeman.

Nesse email, Freeman escrevia: "Saudamos o debate e a discussão e vemo-los como uma parte essencial de uma democracia saudável e de uma sociedade aberta. No caso destes dois eventos específicos, sentimos que não se trata de críticas legítimas mas sim de pisar a linha entrando no discurso do ódio”.

No dia seguinte, um funcionário da Universidade enviou um email a Huda Ammori, organizador do evento, com as condições: os académicos escolhidos para presidir aos eventos foram substituídos por outros nomeados pela Universidade, a publicidade foi limitada a estudantes e professores, e os organizadores foram informados de que as palestras seriam gravadas.

Foi dito a Ammori: "Para «A história de uma sobrevivente do Holocausto e a declaração de Balfour» o uso do título ou subtítulo, 'Vocês fazem aos palestinianos o que os nazis me fizeram a mim' não é permitido, devido à sua natureza excessivamente provocadora."

Ao que Ammori respondeu: "Nas instituições de ensino não deveria haver nenhum tipo de pressão de governos estrangeiros. Não os imaginamos a negociarem com a embaixada da Arábia Saudita um evento sobre o que está a passar-se no Iémen."

O palestra de Sherwood foi para a frente com um cartaz revisto, onde o subtítulo foi retirado. Ela negou que o título da sua palestra pudesse ser caracterizado como antisemita.

"Eu estava apenas a falar da minha experiência daquilo que os nazis me fizeram por ser uma criança judia," disse ela. "Tive que mudar-me para longe do lugar onde estava a viver, porque os judeus não podia viver lá. Não podia ir à escola. Eu teria morrido se não fossem os cristãos que nos baptizaram e nos deram documentos para nos salvar".

“Não posso dizer que sou palestiniana, mas as minhas experiências de criança não são diferentes das que as crianças palestinianas estão a viver actualmente”.

Um porta-voz da embaixada israelita disse que não considerava a reunião como lobbying, pois os encontros entre embaixadas e universidades são comuns. Sublinhou que o email de Freeman saudava o debate e a discussão.

Sobre a palestra de Sherwood disse: "Comparar Israel ao regime nazi poderia razoavelmente ser considerado como anti-semita, dado o contexto, de acordo com a definição de base de anti-semitismo do IHRA, que é aceite pelo governo britânico, o Partido Trabalhista, a NUS [União Nacional dos estudantes] e a maioria das universidades britânicas."

 A Universidade de Manchester fez um discurso livre sobre a prática aplicada a todos os eventos do campus envolvendo oradores externos e questões controversas, e os funcionários verificaram as leis relevantes, incluindo a Lei da igualdade de 2010, antes de os aprovar.

"Neste caso, a Universidade permitiu que os eventos se realizassem em conformidade com os requisitos da lei e com o nosso compromisso com os princípios da liberdade de expressão", disse o seu porta-voz, sem abordar a reunião com os diplomatas.

Traduzido do original: https://www.theguardian.com/education/2017/sep/29/manchester-university-censors-title-holocaust-survivor-speech-criticising-israel

 

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Ali Abunimah,  25 setembro 2017
https://electronicintifada.net/blogs/ali-abunimah/germanys-new-nazis-see-israel-role-model
 


"Infelizmente, os nossos piores receios tornam-se realidade," disse Josef Schuster, presidente do Conselho Central dos Judeus na Alemanha, a propósito do sucesso eleitoral de Alternativa para a Alemanha nas eleições de domingo.

Conhecido pela sua sigla alemã AfD, o partido nacionalista extremista ganhou quase 100 assentos no parlamento da Alemanha.

"Um partido que tolera posições de extrema-direita nas suas fileiras e incita ao ódio contra as minorias no nosso país está hoje não apenas em quase todos os parlamentos regionais mas também representado no Bundestag", disse Schuster.

O partido é conhecido por abrigar toda a espécie de racistas e extremistas, incluindo apologistas da memória da guerra da Alemanha e revisionistas do Holocausto.

Foi um desastre previsto pelos políticos tradicionais da Alemanha.

Sigmar Gabriel, ministro dos Negócios Estrangeiros do país, advertiu no início deste mês que se a AfD tivesse um bom resultado nas urnas, "teremos verdadeiros nazis no Reichstag alemão pela primeira vez desde o fim da segunda guerra mundial."

Os financiadores pro-Israel apoiam os neo-nazis

Se é verdade que a Alemanha não precisa de lições de como ser racista, esta catástrofe pode ser atribuída em parte aos líderes israelitas e seus apoiantes fanáticos: durante anos eles fizeram causa comum com a extrema-direita na Europa, demonizando os muçulmanos como invasores externos que devem ser rejeitados e até expulsos de maneira a manter uma pureza mítica europeia.

Também pode ser atribuída aos líderes alemães que, durante décadas, reforçaram este Israel racista através do financiamento da ocupação militar israelita e da opressão dos palestinianos.

O que aconteceu na Alemanha é mais uma faceta da aliança da supremacia branca-sionista que encontrou um lar na Casa Branca de Donald Trump.

Nas últimas semanas, os emblemáticos liberais The New York Times e The Washington Post têm andado à caça das sombras inexistentes da interferência russa nas eleições alemãs.

Entretanto, como Lee Fang escreveu no The Intercept, o Gatestone Institute, o grupo de reflexão da maior financiadora da indústria islamofóbica Nina Rosenwald, inundava a comunicação social alemã com "um fluxo constante de conteúdo inflamatório sobre as eleições alemãs, focado em alimentar medos sobre os imigrantes e muçulmanos".

O Gatestone Institute é dirigido por John Bolton, o antigo diplomata americano neo-conservador conhecido pelo seu apoio belicista à invasão do Iraque.

Os artigos do Gatestone afirmando que o cristianismo se está a "extinguir" e avisando contra a construção de mesquitas na Alemanha foram regularmente traduzidos para o alemão e publicados por políticos e simpatizantes da AfD.

História após história eles alegaram que os migrantes e os refugiados violavam mulheres alemãs e traziam doenças perigosas para o país, temas clássicos da propaganda nazi usados outrora para incitar ao ódio exterminador dos judeus.

Numa trágica ironia, o pai de Rosenwald, um herdeiro da fortuna das lojas Sears, usou a sua riqueza para ajudar refugiados judeus a fugirem da perseguição na Europa.

A sua filha tomou um caminho diferente. O jornalista Max Blumenthal chamou Nina Rosenwald de "mãe doce do ódio anti-muçulmano."

Blumenthal relatou em 2012 que Rosenwald “usou os seus milhões para consolidar a aliança entre o lobby pro-Israel e os extremistas islamofóbicos.”

Para além de financiar uma série dos mais notórios demagogos anti-muçulmanos, segundo Blumenthal, Rosenwald "serviu o Conselho da AIPAC, o braço central do lobby de Israel na América, e exerceu funções de direcção numa série de organizações pró-Israel."

O partido de Anders Breivik

Numa coluna no dia após a eleição, The Jerusalem Report, publicado pelo direitista Jerusalem Post, ofereceu à líder parlamentar da AfD Beatrix von Storch uma plataforma para difundir a ideologia anti-muçulmana do partido.

The Jerusalem Report também cita o politólogo alemão Marcel Lewandowsky explicando que " os membros da AfD vêem a União Europeia como um traidor à herança cristã da Europa por terem deixado entrar os muçulmanos. A ideia é que a islamização da Europa foi causada pela UE."

"Substituição" pelos muçulmanos, explicou Lewandowsky, "é o cerne do medo dos eleitores da AfD."

Isto significa que a ideologia central do partido é indistinguível da de Anders Breivik, o norueguês que assassinou dezenas dos seus concidadãos, principalmente adolescentes, num acampamento de jovens do Partido Trabalhista, em julho de 2011, em nome da barreira à "islamização" da Europa.

Um dos maiores benfeitores da generosidade de Rosenwald, segundo Blumenthal, foi Daniel Pipes, o influente demagogo pró-Israel, anti-muçulmano que Breivik citou 18 vezes no seu famoso manifesto.

Admiração por Israel

O líder parlamentar da AfD von Storch, deputado no Parlamento Europeu, também usa a entrevista do The Jerusalem Report para esquematizar a postura pro-Israel do seu partido, comparando o seu nacionalismo alemão à ideologia sionista de Israel.

Segundo o The Jerusalem Report, von Storch é um fundador de "Amigos da Judeia e Samaria," um grupo de extrema-direita no Parlamento Europeu que apoia a colonização ilegal de Israel em território palestiniano ocupado.

Estranhamente, esse grupo lista como uma das suas pessoas de contacto o dirigente do " Conselho Regional Shomron," uma organização de colonos na Cisjordânia ocupada.

"Israel poderia ser um modelo para a Alemanha," disse von Storch ao The Jerusalem Report. Israel é uma democracia que tem uma sociedade livre e pluralista. Israel também faz esforços para preservar a sua cultura e tradições únicas. O mesmo deveria ser possível para a Alemanha e qualquer outra nação."

A identificação de von Storch com Israel faz eco à do demagogo nazi Richard Spencer, que descreveu a sua visão de um "etno-estado" ariano como "sionismo branco."

A presidente da AfD Frauke Petry também manifestou o seu apoio aos colonatos israelitas na Cisjordânia ocupada. Em fevereiro, ela disse ao jornal de direita Tablet que a sua única visita a Israel lhe tinha dado uma visão positiva do país.

"De repente a imagem que se tem é um pouco diferente da que se tem quando se vive longe," ela disse.

Estes pontos de vista fazem eco aos de Anders Breivik. Ele era um grande admirador do sionismo e defendia uma aliança com Israel para lutar contra os muçulmanos e os seus apoiantes "marxistas culturais/multiculturalistas".

Os líderes dos colonos israelitas tomaram nota. Enquanto o mundo estava sob o choque do êxito eleitoral da AfD, Yehuda Glick, um legislador do Likud, partido do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, twitou que todos aqueles que estavam "em pânico" com a AfD deviam estar confiantes de que Petry estava a trabalhar "intensamente" para expulsar todos os elementos anti-semitas.

Glick, um líder do movimento apocalíptico que visa destruir a Mesquita de al-Aqsa de Jerusalém e substituí-la por um templo judeu, também recomenda um artigo que descreve a postura pro-Israel da AfD.

Segundo o Tablet, a visita de Petry também a levou a acreditar "que a Europa deveria aprender mais com Israel na sua luta contra o terrorismo."

De acordo com uma sondagem recente, este forte apoio a Israel é sentido nas fileiras da direcção da AfD.

Aliança com o sionismo

Há uma lógica clara para os dirigentes da AfD aderirem à aliança recentemente revigorada entre forças de extrema-direita tradicionalmente anti-semitas, por um lado, e Israel e sionistas por outro.

A presidente do partido Petry tem argumentado que os judeus devem estar dispostos a conversar com a AfD sobre interesses supostamente comuns, explicando, segundo o Tablet, que "é a esquerda na Alemanha e os novos imigrantes muçulmanos que dirigem o movimento anti-Israel do seu país ".

"Tanto o anti-semitismo como o anti-sionismo são mais fortes na comunidade islâmica e na esquerda", disse von Storch. "Eles rejeitam o facto de que as bases judaico-cristãs da civilização europeia são fundamentais para o seu sucesso. Reconhecemos a ameaça que representam para a comunidade judaica de Israel e da Alemanha e a sua segurança é uma grande prioridade para nós."

Isto é, naturalmente, o mais descarado revisionismo: durante séculos as autoridades cristãs da Europa não só não consideraram os judeus como uma parte fundamental da sua "civilização", mas perseguiram-nos impiedosamente, por vezes tentando o genocídio.

Mas tais factos são ocultados no interesse de uma aliança anti-muçulmana actual que está preparada para deitar fogo ao tecido social cada vez mais desgastado das sociedades pluralistas, para bem da purificação nacional de Israel e da Alemanha.

O apoio de Israel aos fascistas

Olhando criticamente, como indicam os tweets de Glick, isto não foi um caso apenas de sentido único. Ele foi incentivado por Israel e os seus grupos de lobby.

A noção de que Israel é a ponta de lança de uma frente de batalha civilizacional ocidental contra o Islão tem sido uma reivindicação-chave de Netanyahu.

Ele e outros dirigentes israelitas têm explorado todos os ataques terroristas na Europa para avançar com a mensagem venenosa de que Israel está "a combater na mesma luta."

E os poderosos grupos de lobby de Israel, tais como a Liga Anti-difamação, que agora se mostram alarmados com o sucesso eleitoral da AfD, estão longe de ser inocentes.

Durante anos, a Liga Anti-difamação – que se apresenta como um grupo de "anti-ódio" – cortejou e branqueou influentes pregadores do ódio anti-muçulmano porque eles apoiavam a sua agenda pro-Israel.

Esse enlace entre sionistas e seus supostos opositores continua a desenvolver-se no bom acolhimento que os antigos conselheiros de Trump Steve Bannon e Sebastian Gorka encontraram em Israel e nos seus grupos de lobby.

Bannon falará na próxima gala da Organização Sionista da América, enquanto Gorka, que tem ligações aos nazis e às milícias anti-semitas violentas, foi recentemente recebido em Israel.

Isto pode ser visto no longo e visível silêncio do governo israelita quando o resto do mundo condenava a fúria dos neo-nazis em agosto em Charlottesville, na Virgínia.

Também pode ser visto na aproximação de Netanyahu aos dirigentes de extrema-direita europeus, incluindo o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, que tentou reabilitar a aliança com Hitler no seu país durante a guerra.

Se o descaramento desta aliança pode ser chocante, ela remonta aos anos iniciais dos movimentos sionista e nazi. Como o professor Joseph Massad da Columbia University salientou, sionistas e europeus anti-semitas historicamente compartilharam a mesma análise: que os judeus eram estranhos à Europa e tinham de ser deslocados para outro lugar.

E isto continua: comentadores israelitas estão a notar que Israel não tem tido pressa em condenar a AfD.

Netanyahu – sempre rápido para atacar o alegado anti-semitismo dos críticos de Israel – veio ao Twitter para felicitar a chanceler Angela Merkel pela sua vitória, mas até agora manteve-se calado sobre o assunto de que todo o mundo fala.

Na corrente dominante

Apesar do seu sucesso eleitoral, a AfD é afectada por divisões: a sua presidente Frauke Petry anunciou de surpresa na segunda-feira que não iria juntar-se à bancada parlamentar do seu partido.

Uma estratégia que os dirigentes do partido estão a desenvolver para tornar a AfD mais aceitável é a de tentar mitigar os receios da comunidade judaica.

Sem dúvida, eles continuarão a tentar fazê-lo expressando admiração e apoio a Israel – a mesma abordagem da Frente Nacional francesa historicamente anti-semita.

Podemos contar ver a AfD reforçar o seu apoio a Israel, incluindo os seus colonatos na "Judeia e Samaria".

Mas isso é na verdade uma marca da sua integração. Historicamente, o estabelecimento da Alemanha no pós-guerra, incluindo os governos liderados por Merkel, tem "expiado" o genocídio dos judeus no país, apoiando Israel a cometer crimes contra os palestinianos.

Biliões de dólares de "reparações" alemãs não foram para ajudar sobreviventes do Holocausto, mas para armar Israel na ocupação militar e na colonização.

Para os palestinianos, portanto, o centrismo "moderado" de Merkel e a intolerância e racismo evidentes da AfD, são pouco diferentes na verdade.

Tal como Donald Trump apresenta a face nua e crua do militarismo e imperialismo americano que tem vitimado povos em todo o mundo durante décadas, a AfD é de certa forma uma voz mais honesta de uma Alemanha que fala dos "direitos humanos", enquanto apoia incondicionalmente um Israel cuja exportação principal é o extremismo e a islamofobia.

O racismo da Europa aliado a este mau vento de Israel produz uma mistura tóxica.


02
Set 17
publicado por samizdat, às 12:30link do post | comentar

On World Photography Day, over 40 Portuguese photographers, teachers of photography and photography students have launched a pledge not to accept professional invitations or financing from the State of Israel and to refuse to collaborate with Israeli cultural institutions complicit in  Israel’s regime of occupation, colonialism and apartheid.

 

The pledge is the first of its kind and follows similar pledges to boycott Israel culturally by hundreds of high-profile artists in the US, UK, South Africa, Canada, Switzerland and France. The photographers pledge to boycott Israel until it“complies with international law and respects the human rights of Palestinians.”

 

Among the pledge supporters are João Pina, winner of the 2017 Prémio Estação Imagem Viana do Castelo, Portugal’s only photojournalism award and Nuno Lobito, TV personality and one of the most travelled Portuguese of all times (204 countries, 193 recognised).

 

The pledge comes in response to the 2004 call from Palestinian artists and cultural workers, including journalists and photographers, for a cultural boycott of Israel due to its use of culture to whitewash the oppression of Palestinians.

 

The cultural boycott of Israel is part of the global the Boycott, Divestment and Sanctions (BDS) movement, which is modeled after the South African anti-apartheid boycott campaign. The Palestinian-led BDS movement has seen impressive growth into the mainstream in the past few years.

 

Miguel Carriço, winner of the 2012 Concelho da Bienal de Vila Franca de Xira award, urged fellow photographers to join the call:

Having witnessed first-hand the crimes Israel is committing daily against Palestinians, signing up to this initiative has become a natural step. It is fundamental to promote this effort through all means possible.”  

 

Palestinian photography artists are not exempt from the brutality of Israel’s occupation. Artists have been denied visas by the Israeli military establishment, preventing them from participating in conferences and performances internationally. Artists have also been detained at checkpoints, arrested, had their equipment broken, and exposed to the same violence perpetrated by the Israeli army on all Palestinians.

 

In 2014, Israel was considered the second most lethal country for journalists. Israel continues to step up its attacks against journalists in 2017. Last April, Israeli police fractured the ribs of AFP photographer Ahmad Gharabli and smashed two of his cameras. He was among six photographers targeted by the Israeli authorities on the same day. In May, an Israeli settler shot Majdi Mohamed, photographer for the Associated Press, while he was covering an Israeli incursion in Nablus. Israel’s attacks against Palestinian and international photographers are part of a systematic policy and have been perpetrated with impunity.

 

Traveller-photographer Nuno Lobito said:

It is time for Israel’s brand of apartheid to enjoy the same treatment as South African apartheid and be target of a comprehensive internacional boycott until it respects human rights. Photographers can no longer be silent about the treatment of their Palestinian colleagues living under an indefensible occupation that has lasted for over half a century. Palestinians have called for solidarity through boycotts and this pledge is our practical contribution to their struggle.”

 

Signatory José Soudo, a veteran Photography teacher and Historian, commented:

The history of photography is full of examples, from the 19th century to today, of photographers who gave their sight to the service of the oppressed and destitute.”

 

For João Henriques, winner of the 2015 Fnac New Talents Award, “to participate in this solidarity initiative for Palestine is to believe in the power of photography to provide testimony, to create conscience and to have empathy for the Other.”

 

Support for the cultural boycott of Israel enjoys broad support internationally, among them  Roger Waters, Ken Loach, Mike Leigh, Lauryn Hill, Mark Rylance, Emma Thompson, Alice Walker, Naomi Klein, Elvis Costello, Brian Eno, Jean Luc Godard and Mira Nair.

 

In 2011, Queer Lisboa International LGBT Festival dropped its Israel sponsorship following a BDS campaign. This year, BDS activists called on the Almada Festival to cancel a collaboration with the Israeli government and its Brand Israel whitewash campaign.

Full text of the pledge:

 

We support the Palestinian struggle for freedom, justice and equality. In response to the call from Palestinian photographers,  journalists and cultural workers for a cultural boycott of Israel, we pledge to accept neither professional invitations to Israel, nor funding, from the Israeli state and to refuse to collaborate with Israeli cultural institutions linked to its government until Israel complies with international law and respects the human rights of Palestinians.”

 

The photographers’ pledge to boycott Israel is work-in-progress. Portuguese photographers wishing to add their name to this initiative should write a message to: comitepalestina@bdsportugal.

 

 


19
Ago 17
publicado por samizdat, às 00:16link do post | comentar

 

Por ocasião do Dia Mundial da Fotografia, assinalado a 19 de agosto, mais de 40 fotógrafos portugueses, professores de fotografia e estudantes de fotografia tornam público o seu compromisso de não aceitarem convites ou financiamentos profissionais do Estado de Israel e recusam-se a colaborar com instituições culturais israelitas cúmplices do regime de ocupação, colonialismo e apartheid.

O comprometimento é o primeiro deste tipo e segue iniciativas semelhantes de boicote cultural a Israel por centenas de artistas de relevo nos EUAReino UnidoÁfrica do SulCanadáSuíça e França. Os fotógrafos mantêm o boicote até Israel  "cumprir o direito internacional e respeitar os direitos humanos dos palestinianos".

Entre os apoiantes do comprometimento estão João Pina, vencedor da Prémio Estação Imagem Viana do Castelo 2017, o único prémio de fotojornalismo de Portugal e Nuno Lobito, personalidade de TV e um dos portugueses mais viajados de todos os tempos (204 países, 193 reconhecidos).

O comprometimento vem em resposta ao apelo de 2004 de artistas e trabalhadores culturais palestinianos, incluindo jornalistas e fotógrafos, para um boicote cultural a Israel, devido ao seu uso instrumental da cultura para branquear a opressão sobre os palestinianos.

O boicote cultural a Israel faz parte do movimento global de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), inspirado na campanha de boicote sul-africana contra o apartheid nos anos 80. O movimento BDS, com liderança palestiniana, viu um crescimento impressionante nos últimos anos.

Os artistas de fotografia palestinianos não escapam à brutalidade da ocupação israelita. Muitos tiveram os seus vistos recusados pelo exército de ocupação, impedindo-os de participar em conferências e apresentações internacionais. Artistas também foram detidos em postos de controlo, encarcerados, tendo o equipamento destruído e, no geral, são expostos à mesma violência perpetrada pelo exército israelita contra todos os palestinianos.

Em 2014, Israel foi considerado o segundo país mais letal para jornalistas. Israel continua a intensificar os seus ataques contra jornalistas em 2017. Em Abril passado, a polícia israelita fracturou as costelas do fotógrafo Ahmad Gharabli da AFP e quebrou duas das suas câmaras. Ele foi um dos seis fotógrafos alvo de violência pelas autoridades israelitas nesse dia. Em Maio, um colono israelita matou Majdi Mohamed, fotógrafo da Associated Press, enquanto ele estava a cobrir uma incursão israelita em Nablus. Os ataques de Israel contra fotógrafos palestinianos e internacionais fazem parte de uma política sistemática e foram perpetrados com impunidade.

Segundo Miguel Carriço, vencedor do prémio do Concelho da Bienal de Vila Franca de Xira 2012:

“Como fotógrafo, e como tendo testemunhado na primeira pessoa – durante uma viagem para lá – os crimes que se praticam (todos os dias) na Palestina por parte de Israel, subscrever esta causa é um ato natural, tão natural que se torna fundamental aderir e divulgar esta causa por todos os meios possíveis.”

O fotógrafo-viajante Nuno Lobito comenta:

"Chegou a altura para que o apartheid israelita receba o mesmo tratamento que o apartheid sul-africano e ser alvo de um boicote abrangente internacional até sejam respeitados os direitos humanos. Os fotógrafos não podem continuar em silêncio sobre o tratamento de seus colegas palestinianos sob uma ocupação indefensável que dura há mais de meio século. Os palestinianos pediram a nossa solidariedade através do boicote e este compromisso é a nossa contribuição prática para a sua luta."

O signatário José Soudo, veterano professor de fotografia e historiador, comentou:

“A História da actividade Fotográfica, está cheia de exemplos, que nos chegam desde o século XIX até aos dias de hoje, que nos comprovam que muitos e excelentes fotógrafos, colocaram o seu olhar ao serviço dos desfavorecidos e dos oprimidos.”

Para João Henriques, vencedor do Prémio Fnac New Talents de 2015, “participar desta solidária iniciativa Fotógrafos pela Palestina é também constituir uma prece pelos povos em sofrimento na região, ao mesmo tempo acreditando na fotografia enquanto potência, para testemunhar, para gerar consciência, para verter empaticamente em nós o tempo presente do Outro.”

O apoio ao boicote cultural de Israel goza de um amplo apoio internacional, do qual se destacam os nomes de Roger Waters, Ken Loach, Mike Leigh, Lauryn Hill, Mark Rylance, Emma Thompson, Alice Walker, Naomi Klein, Elvis Costello, Brian Eno, Jean Luc Godard e Mira Nair.

Em 2011, o Festival Internacional LGBT Queer Lisboa abandonou o patrocínio israelita na sequência de uma campanha BDS. Este ano, activistas do BDS pediram ao Festival de Almada para cancelar uma colaboração com o governo israelita e a sua campanha de marketing Brand Israel.


Nota aos editores:

O texto completo do comprometimento é:

"Apoiamos a luta palestiniana pela liberdade, justiça e igualdade. Em resposta ao apelo de fotógrafos, jornalistas e trabalhadores culturais palestinianos para um boicote cultural a Israel, comprometemo-nos a não aceitar convites profissionais ou financiamentos do Estado israelita ou cooperar com qualquer instituição ligada ao seu governo, até que Israel cumpra com a lei internacional e  os princípios universais de direitos humanos."

A promessa dos fotógrafos de boicotar Israel é um trabalho em andamento. Os fotógrafos portugueses ou residentes em Portugal que desejem juntar o seu nome a esta iniciativa devem escrever uma mensagem para: comitepalestina@bdsportugal.org


03
Ago 17
publicado por samizdat, às 21:48link do post | comentar
Reproduzimos abaixo a carta que Shlomo Sand escreveu ao presidente francês Emmanuel Macron, depois deste ter declarado que o anti-sionismo era uma forma de anti-semitismo, durante a visita a França de Netanyahu.
Esta tradução portuguesa da carta foi publicada na newsletter de Julho do MPPM.

 

Carta de Shlomo Sand:


Ao começar a ler o seu discurso sobre a comemoração da rusga do Vélodrome d'hiver
[1], senti por si gratidão. Com efeito, tendo em vista uma longa tradição de dirigentes políticos, tanto de direita como de esquerda, que no passado e no presente eludiram a participação e a responsabilidade da França na deportação das pessoas de origem judaica para os campos da morte, V. Exª tomou uma posição clara e isenta de ambiguidade: sim, a França é responsável pela deportação, sim, houve efectivamente um anti-semitismo em França, antes e após a Segunda Guerra Mundial. Sim, é necessário continuar a combater todas as formas de racismo. Vi estas posições como estando em continuidade com a sua corajosa declaração feita na Argélia, segundo a qual o colonialismo constitui um crime contra a humanidade.

 

Para ser completamente franco, fiquei um tanto aborrecido pelo facto de V. Exª ter convidado Benjamin Netanyahu, que inegavelmente tem de ser incluído na categoria dos opressores e por conseguinte não pode arvorar-se em representante das vítimas de ontem. É certo que conheço há muito a impossibilidade de separar a memória da política. Talvez esteja V. Exª a empregar uma estratégia sofisticada, ainda não revelada, visando contribuir para a realização de um compromisso justo no Médio Oriente?

 

Deixei de compreender V. Exª quando durante o seu discurso declarou que:

«O anti-sionismo… é a forma reinventada do anti-semitismo.»

 

Esta declaração tinha por objectivo agradar ao seu convidado, ou é pura e simplesmente uma marca de incultura política? O antigo estudante de filosofia, o assistente de Paul Ricœur leu assim tão poucos livros de história ao ponto de ignorar que muitos judeus, ou descendentes de filiação judaica, sempre se opuseram ao sionismo sem, no entanto, serem anti-semitas? Refiro-me aqui a quase todos os antigos grandes rabinos, mas também às tomadas de posição de uma parte do judaísmo ortodoxo contemporâneo. Tenho igualmente na memória personalidades como Marek Edelman, um dos dirigentes sobreviventes da insurreição do gueto de Varsóvia, ou ainda os comunistas de origem judaica, resistentes do grupo Manouchian, que pereceram. Penso também no meu amigo e professor, Pierre Vidal-Naquet, e em outros grandes historiadores ou sociólogos como Eric Hobsbawm e Maxime Rodinson, cujos escritos e lembrança me são caros, ou ainda em Edgar Morin. Por último, interrogo-me se, sinceramente, espera dos palestinos que não sejam anti-sionistas!

 

Suponho, contudo, que V. Exª não aprecia particularmente as pessoas de esquerda, nem, talvez, os palestinos; por isso, sabendo que trabalhou no banco Rothschild, apresento aqui uma citação de Nathan Rothschild, presidente da união das sinagogas da Grã-Bretanha e primeiro judeu a ser nomeado Lorde no Reino Unido, tendo-se tornado igualmente governador do seu banco. Numa carta dirigida em 1903 a Theodor Herzl, o talentoso banqueiro escreve: «Digo-lhe com toda a franqueza: tremo à ideia da fundação de uma colónia judaica no pleno sentido do termo. Tal colónia tornar-se-ia um gueto, com todos os preconceitos de um gueto. Um pequeno, muito pequeno, Estado judaico, devoto e não liberal, que rejeitará o Cristão e o estrangeiro.» Rothschild talvez se tenha enganado na sua profecia, mas, no entanto, uma coisa é certa: não era anti-semita!

 

Houve, e há, evidentemente, anti-sionistas que também são anti-semitas, mas estou igualmente certo de que há anti-semitas entre os apologistas do sionismo. Posso também assegurar-lhe que muitos sionistas são racistas cuja estrutura mental não difere da de perfeitos judeófobos: procuram sem descanso um ADN judaico (até na universidade onde eu ensino).

 

Para clarificar o que é um ponto de vista anti-sionista, importa, contudo, começar por assentar na definição, ou pelo menos numa série de características do conceito de «sionismo»; vou fazê-lo o mais resumidamente possível.

 

Em primeiro lugar, o sionismo não é o judaísmo, contra o qual constitui até uma revolta radical. Ao longo dos séculos, os judeus devotos alimentaram um profundo fervor em relação à sua terra santa, mais particularmente em relação a Jerusalém, mas ativeram-se ao preceito talmúdico que lhes prescrevia que não emigrassem colectivamente para aí antes da vinda do Messias. Com efeito, a terra não pertence aos judeus, mas sim a Deus. Deus deu e Deus retomou, e quando quiser enviará o Messias para restituir. Quando o sionismo apareceu, retirou do seu trono o «Todo Poderoso» para o substituir pelo sujeito humano activo.

 

Cada um de nós pode pronunciar-se sobre o ponto de saber se o projecto de criar um Estado judaico exclusivo num pedaço de território maioritariamente povoado de Árabes é uma ideia moral. Em 1917, a Palestina contava 700 000 muçulmanos e cristãos árabes e cerca de 60 000 judeus, metade dos quais se opunham ao sionismo. Até então as massas do povo yiddish, querendo fugir aos pogrons do Império Russo, tinham preferido emigrar para o continente americano, que dois milhões efectivamente alcançaram, escapando assim às perseguições nazis (e às do regime de Vichy).

 

Em 1948, havia na Palestina 650 000 judeus e 1,3 milhões de muçulmanos e cristãos árabes, 700 000 dos quais se tornaram refugiados: foi sobre estas bases demográficas que nasceu o Estado do Israel. Apesar disso, e no contexto do extermínio dos judeus da Europa, muitos anti-sionistas chegaram à conclusão de que, se não se quiser criar novas tragédias, convém considerar o Estado do Israel como um facto consumado irreversível. Uma criança nascida de uma violação tem claramente o direito de viver, mas que acontece se esta criança seguir os passos do pai?

 

E chegou o ano de 1967: desde então Israel reina sobre 5,5 milhões de Palestinos, privados de direitos cívicos, políticos e sociais. São sujeitos por Israel a um controlo militar: uma parte deles numa espécie de «reserva de índios» na Margem Ocidental, enquanto outros estão fechados numa «reserva de arame farpado» em Gaza (70% destes são refugiados ou descendentes de refugiados). Israel, que nunca pára de proclamar o seu desejo de paz, considera os territórios conquistados em 1967 como fazendo parte integrante da «terra de Israel», e comporta-se aí a seu bel-prazer: até este momento foram aí instalados 600 000 colonos israelitas judeus… e ainda não acabou!

 

É isso o sionismo de hoje? Não! — responderão os meus amigos da esquerda sionista, que não pára de encolher, e dirão que é necessário pôr fim à dinâmica da colonização sionista, que um pequeno e estreito Estado palestino deve ser constituído ao lado do Estado do Israel, que o objectivo do sionismo era fundar um Estado onde os judeus exercessem a soberania sobre si próprios e não conquistar na sua totalidade a «antiga pátria». E o mais perigoso de tudo isso, aos seus olhos: a anexação dos territórios ocupados constitui uma ameaça para Israel enquanto Estado judaico.

 

Eis chegado o momento de explicar a V. Exª porque lhe escrevo, e porque me defino como não sionista, ou anti-sionista, sem no entanto me tornar antijudeu. O seu partido político reclama-se da «República», e por isso presumo que seja um republicano fervente. Não sei se para sua surpresa, eu também sou. Por conseguinte, sendo democrata e republicano, eu não posso, como fazem todos os sionistas sem excepção, tanto de direita como de esquerda, apoiar um Estado judaico. O Ministério do Interior israelita recenseia 75% dos seus cidadãos como judeus, 21% como muçulmanos e cristãos árabes e 4% como «outros» (sic). Ora, segundo o espírito das suas leis, Israel não pertence ao conjunto dos Israelitas, mas sim aos judeus do mundo inteiro que não têm intenção de para aí ir viver. Assim, por exemplo, Israel pertence muito mais a Bernard Henry-Lévy e a Alain Finkielkraut do que aos meus estudantes palestino-israelitas que se exprimem em hebraico, às vezes melhor do que eu próprio! Israel também tem a esperança de que um dia virá em que todas as pessoas do CRIF2 e os seus «apoiantes» para aí emigrarão! Conheço até franceses anti-semitas encantados com essa perspectiva! Em contrapartida, já se ouviu dois ministros israelitas, próximos de Benjamin Netanyahu, emitir a ideia de que é necessário incentivar a «transferência» dos israelitas árabes, sem que ninguém tenha pedido que eles se demitam das suas funções.

 

É por isso, Sr. Presidente, que eu não posso ser sionista. Sou um cidadão que deseja que o Estado no qual vive seja uma República israelita e não um Estado comunitário judaico. Descendente de judeus que tantas discriminações sofreram, não quero viver num Estado que, pela sua autodefinição, faz de mim um cidadão dotado de privilégios. Em seu entender, Sr. Presidente, isso faz de mim um anti-semita?

 

Shlomo Sand, historiador israelita

(Traduzido da versão francesa de Michel Bilis)

 

1 Rusga do Velódromo de Inverno de Paris (Rafle du Vélodrome d'Hiver / Vel’ d'Hiv): maior detenção em massa de judeus em França durante a Segunda Guerra Mundial, realizada com a ajuda de 7000 polícias franceses por ordem do Governo francês de Vichy. Em 16 e 17 de Julho de 1942, mais de 13 000 pessoas foram presas em Paris e arredores para serem deportadas, a maior parte das quais ficaram encerradas no Velódromo de Inverno de Paris. Menos de cem sobreviveram à deportação.

 

2 Conseil Représentatif des Institutions Juives de France (Conselho Representativo das Instituições Judaicas de França), apoia incondicionalmente a política israelita, nunca reconheceu o direito do povo palestino a um Estado.


05
Jul 17
publicado por samizdat, às 17:54link do post | comentar
Caro Rodrigo, 
 
Agradecemos a sua resposta e o facto de ter aberto connosco uma via de diálogo que confirma o percurso e as características do Teatro de Almada. Queremos, no entanto, clarificar os seguintes pontos: 
 
- a campanha de boicote cultural lançada através do apelo de artistas palestinianos em 2004 é de cariz institucional e rege-se por directrizes que visam uma aplicação consistente e com base em princípios universais. Portanto, não é dirigida a indivíduos por eles mesmos, mas sim a instituições culturais cúmplices da política de apartheid do Estado de Israel, tanto pelos seus laços legais ou pelo seu silêncio, ou por serem embaixadores culturais de Israel. 
 
- Como referimos, em 2005 o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel lançou uma campanha de marketing - Brand Israel - que tem por objectivo enviar embaixadores culturais à volta do mundo para branquear as políticas de ocupação e colonização do Estado de Israel. É de salientar que uma das condições exigidas para o financiamento de artistas israelitas é que estes se tornem "embaixadores" representantes do Estado. Aliás, este aspeto é evidente no caso da Kamea, quer pela sua denominação de "embaixadores de Beersheva", quer pelo que ficou claro na carta que partilhou connosco, em que eles descrevem Israel como uma democracia, apesar da maior parte da população que Israel governa não ter o direito de voto ou mesmo direitos básicos.  
 
- Assim sendo, achamos cínica a resposta da Kamea e ingénuo tê-la partilhado connosco como sendo um argumento fidedigno a afirmação de que eles não estão envolvidos na política e são "independentes", quando eles se associam abertamente ao governo e aceitam o papel de embaixadores de uma cidade onde se vive diariamente crimes de guerra, sem tomarem qualquer posição de oposição a este racismo como parte deste papel (critico?) de "embaixadores". A Kamea fala na sua carta da "condição humana", mas não assume nenhuma posição contra a ocupação; ela é composta por bailarinos de várias nacionalidades, mas curiosamente nenhum palestiniano. A arte, como sabe, não existe num vácuo e está intimamente ligada à realidade. Acima de tudo, a arte usada politicamente torna-se propaganda ao serviço de um Estado opressor. 
 
- Relativamente à comparação da realidade em Israel com a da ditadura de Salazar, e a viabilidade da aplicação de um boicote cultural aos dois, queremos sublinhar que a diferença  está no facto de o boicote cultural contra Israel ter sido lançado como pedido de solidariedade pelo povo oprimido, neste caso os palestinianos, sendo a nossa resposta em Portugal uma mensagem clara a Israel que não pode haver "business as usual" com um Estado opressor e uma forma de solidariedade para com a luta do povo palestiniano pela liberdade, justiça e igualdade. Não houve no tempo da ditadura um apelo similar ou unificado vindo de Portugal para o mundo. A analogia mais correta será com o movimento anti-apartheid sul-africano que incluiu também um boicote cultural, mobilizando nos anos 80 figuras da cultura pelo mundo fora, que na altura se recusaram a atuar no apartheid sul-africano. 
 
- A visão que nos transmite de um mundo artístico ignorante à realidade e passivo face à opressão, contrasta com o enorme apoio que o boicote cultural a Israel tem vindo a receber a nível mundial, com nomes como Roger WatersKen LoachMike LeighLauryn HillMark RylanceEmma ThompsonAlice Walker, Naomi KleinElvis CostelloBrian EnoJean Luc GodardMira Nair, entre muitos outros. Um Festival de Almada que fecha os olhos ao apelo de solidariedade de um povo oprimido, escolhendo associar-se ao Estado opressor, torna-se cúmplice desta política. 
 

Lamentamos que o Festival de Almada tenha decidido seguir em frente com a sua associação à embaixada de um país conhecido pelos seus constantes crimes de guerra e, como vimos nesta troca de correspondência, com uma coordenação próxima entre as duas partes que não deixa de ser chocante para um festival conhecido como progressista. Apelamos a que reconsidere a vossa posição e continuamos abertos a uma reunião.


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