Informação sobre a ocupação israelita, a resistência palestiniana e a solidariedade internacional *** email: comitepalestina@bdsportugal.org
02
Set 17
publicado por samizdat, às 12:30link do post | comentar

On World Photography Day, over 40 Portuguese photographers, teachers of photography and photography students have launched a pledge not to accept professional invitations or financing from the State of Israel and to refuse to collaborate with Israeli cultural institutions complicit in  Israel’s regime of occupation, colonialism and apartheid.

 

The pledge is the first of its kind and follows similar pledges to boycott Israel culturally by hundreds of high-profile artists in the US, UK, South Africa, Canada, Switzerland and France. The photographers pledge to boycott Israel until it“complies with international law and respects the human rights of Palestinians.”

 

Among the pledge supporters are João Pina, winner of the 2017 Prémio Estação Imagem Viana do Castelo, Portugal’s only photojournalism award and Nuno Lobito, TV personality and one of the most travelled Portuguese of all times (204 countries, 193 recognised).

 

The pledge comes in response to the 2004 call from Palestinian artists and cultural workers, including journalists and photographers, for a cultural boycott of Israel due to its use of culture to whitewash the oppression of Palestinians.

 

The cultural boycott of Israel is part of the global the Boycott, Divestment and Sanctions (BDS) movement, which is modeled after the South African anti-apartheid boycott campaign. The Palestinian-led BDS movement has seen impressive growth into the mainstream in the past few years.

 

Miguel Carriço, winner of the 2012 Concelho da Bienal de Vila Franca de Xira award, urged fellow photographers to join the call:

Having witnessed first-hand the crimes Israel is committing daily against Palestinians, signing up to this initiative has become a natural step. It is fundamental to promote this effort through all means possible.”  

 

Palestinian photography artists are not exempt from the brutality of Israel’s occupation. Artists have been denied visas by the Israeli military establishment, preventing them from participating in conferences and performances internationally. Artists have also been detained at checkpoints, arrested, had their equipment broken, and exposed to the same violence perpetrated by the Israeli army on all Palestinians.

 

In 2014, Israel was considered the second most lethal country for journalists. Israel continues to step up its attacks against journalists in 2017. Last April, Israeli police fractured the ribs of AFP photographer Ahmad Gharabli and smashed two of his cameras. He was among six photographers targeted by the Israeli authorities on the same day. In May, an Israeli settler shot Majdi Mohamed, photographer for the Associated Press, while he was covering an Israeli incursion in Nablus. Israel’s attacks against Palestinian and international photographers are part of a systematic policy and have been perpetrated with impunity.

 

Traveller-photographer Nuno Lobito said:

It is time for Israel’s brand of apartheid to enjoy the same treatment as South African apartheid and be target of a comprehensive internacional boycott until it respects human rights. Photographers can no longer be silent about the treatment of their Palestinian colleagues living under an indefensible occupation that has lasted for over half a century. Palestinians have called for solidarity through boycotts and this pledge is our practical contribution to their struggle.”

 

Signatory José Soudo, a veteran Photography teacher and Historian, commented:

The history of photography is full of examples, from the 19th century to today, of photographers who gave their sight to the service of the oppressed and destitute.”

 

For João Henriques, winner of the 2015 Fnac New Talents Award, “to participate in this solidarity initiative for Palestine is to believe in the power of photography to provide testimony, to create conscience and to have empathy for the Other.”

 

Support for the cultural boycott of Israel enjoys broad support internationally, among them  Roger Waters, Ken Loach, Mike Leigh, Lauryn Hill, Mark Rylance, Emma Thompson, Alice Walker, Naomi Klein, Elvis Costello, Brian Eno, Jean Luc Godard and Mira Nair.

 

In 2011, Queer Lisboa International LGBT Festival dropped its Israel sponsorship following a BDS campaign. This year, BDS activists called on the Almada Festival to cancel a collaboration with the Israeli government and its Brand Israel whitewash campaign.

Full text of the pledge:

 

We support the Palestinian struggle for freedom, justice and equality. In response to the call from Palestinian photographers,  journalists and cultural workers for a cultural boycott of Israel, we pledge to accept neither professional invitations to Israel, nor funding, from the Israeli state and to refuse to collaborate with Israeli cultural institutions linked to its government until Israel complies with international law and respects the human rights of Palestinians.”

 

The photographers’ pledge to boycott Israel is work-in-progress. Portuguese photographers wishing to add their name to this initiative should write a message to: comitepalestina@bdsportugal.

 

 


19
Ago 17
publicado por samizdat, às 00:16link do post | comentar

 

Por ocasião do Dia Mundial da Fotografia, assinalado a 19 de agosto, mais de 40 fotógrafos portugueses, professores de fotografia e estudantes de fotografia tornam público o seu compromisso de não aceitarem convites ou financiamentos profissionais do Estado de Israel e recusam-se a colaborar com instituições culturais israelitas cúmplices do regime de ocupação, colonialismo e apartheid.

O comprometimento é o primeiro deste tipo e segue iniciativas semelhantes de boicote cultural a Israel por centenas de artistas de relevo nos EUAReino UnidoÁfrica do SulCanadáSuíça e França. Os fotógrafos mantêm o boicote até Israel  "cumprir o direito internacional e respeitar os direitos humanos dos palestinianos".

Entre os apoiantes do comprometimento estão João Pina, vencedor da Prémio Estação Imagem Viana do Castelo 2017, o único prémio de fotojornalismo de Portugal e Nuno Lobito, personalidade de TV e um dos portugueses mais viajados de todos os tempos (204 países, 193 reconhecidos).

O comprometimento vem em resposta ao apelo de 2004 de artistas e trabalhadores culturais palestinianos, incluindo jornalistas e fotógrafos, para um boicote cultural a Israel, devido ao seu uso instrumental da cultura para branquear a opressão sobre os palestinianos.

O boicote cultural a Israel faz parte do movimento global de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), inspirado na campanha de boicote sul-africana contra o apartheid nos anos 80. O movimento BDS, com liderança palestiniana, viu um crescimento impressionante nos últimos anos.

Os artistas de fotografia palestinianos não escapam à brutalidade da ocupação israelita. Muitos tiveram os seus vistos recusados pelo exército de ocupação, impedindo-os de participar em conferências e apresentações internacionais. Artistas também foram detidos em postos de controlo, encarcerados, tendo o equipamento destruído e, no geral, são expostos à mesma violência perpetrada pelo exército israelita contra todos os palestinianos.

Em 2014, Israel foi considerado o segundo país mais letal para jornalistas. Israel continua a intensificar os seus ataques contra jornalistas em 2017. Em Abril passado, a polícia israelita fracturou as costelas do fotógrafo Ahmad Gharabli da AFP e quebrou duas das suas câmaras. Ele foi um dos seis fotógrafos alvo de violência pelas autoridades israelitas nesse dia. Em Maio, um colono israelita matou Majdi Mohamed, fotógrafo da Associated Press, enquanto ele estava a cobrir uma incursão israelita em Nablus. Os ataques de Israel contra fotógrafos palestinianos e internacionais fazem parte de uma política sistemática e foram perpetrados com impunidade.

Segundo Miguel Carriço, vencedor do prémio do Concelho da Bienal de Vila Franca de Xira 2012:

“Como fotógrafo, e como tendo testemunhado na primeira pessoa – durante uma viagem para lá – os crimes que se praticam (todos os dias) na Palestina por parte de Israel, subscrever esta causa é um ato natural, tão natural que se torna fundamental aderir e divulgar esta causa por todos os meios possíveis.”

O fotógrafo-viajante Nuno Lobito comenta:

"Chegou a altura para que o apartheid israelita receba o mesmo tratamento que o apartheid sul-africano e ser alvo de um boicote abrangente internacional até sejam respeitados os direitos humanos. Os fotógrafos não podem continuar em silêncio sobre o tratamento de seus colegas palestinianos sob uma ocupação indefensável que dura há mais de meio século. Os palestinianos pediram a nossa solidariedade através do boicote e este compromisso é a nossa contribuição prática para a sua luta."

O signatário José Soudo, veterano professor de fotografia e historiador, comentou:

“A História da actividade Fotográfica, está cheia de exemplos, que nos chegam desde o século XIX até aos dias de hoje, que nos comprovam que muitos e excelentes fotógrafos, colocaram o seu olhar ao serviço dos desfavorecidos e dos oprimidos.”

Para João Henriques, vencedor do Prémio Fnac New Talents de 2015, “participar desta solidária iniciativa Fotógrafos pela Palestina é também constituir uma prece pelos povos em sofrimento na região, ao mesmo tempo acreditando na fotografia enquanto potência, para testemunhar, para gerar consciência, para verter empaticamente em nós o tempo presente do Outro.”

O apoio ao boicote cultural de Israel goza de um amplo apoio internacional, do qual se destacam os nomes de Roger Waters, Ken Loach, Mike Leigh, Lauryn Hill, Mark Rylance, Emma Thompson, Alice Walker, Naomi Klein, Elvis Costello, Brian Eno, Jean Luc Godard e Mira Nair.

Em 2011, o Festival Internacional LGBT Queer Lisboa abandonou o patrocínio israelita na sequência de uma campanha BDS. Este ano, activistas do BDS pediram ao Festival de Almada para cancelar uma colaboração com o governo israelita e a sua campanha de marketing Brand Israel.


Nota aos editores:

O texto completo do comprometimento é:

"Apoiamos a luta palestiniana pela liberdade, justiça e igualdade. Em resposta ao apelo de fotógrafos, jornalistas e trabalhadores culturais palestinianos para um boicote cultural a Israel, comprometemo-nos a não aceitar convites profissionais ou financiamentos do Estado israelita ou cooperar com qualquer instituição ligada ao seu governo, até que Israel cumpra com a lei internacional e  os princípios universais de direitos humanos."

A promessa dos fotógrafos de boicotar Israel é um trabalho em andamento. Os fotógrafos portugueses ou residentes em Portugal que desejem juntar o seu nome a esta iniciativa devem escrever uma mensagem para: comitepalestina@bdsportugal.org


03
Ago 17
publicado por samizdat, às 21:48link do post | comentar
Reproduzimos abaixo a carta que Shlomo Sand escreveu ao presidente francês Emmanuel Macron, depois deste ter declarado que o anti-sionismo era uma forma de anti-semitismo, durante a visita a França de Netanyahu.
Esta tradução portuguesa da carta foi publicada na newsletter de Julho do MPPM.

 

Carta de Shlomo Sand:


Ao começar a ler o seu discurso sobre a comemoração da rusga do Vélodrome d'hiver
[1], senti por si gratidão. Com efeito, tendo em vista uma longa tradição de dirigentes políticos, tanto de direita como de esquerda, que no passado e no presente eludiram a participação e a responsabilidade da França na deportação das pessoas de origem judaica para os campos da morte, V. Exª tomou uma posição clara e isenta de ambiguidade: sim, a França é responsável pela deportação, sim, houve efectivamente um anti-semitismo em França, antes e após a Segunda Guerra Mundial. Sim, é necessário continuar a combater todas as formas de racismo. Vi estas posições como estando em continuidade com a sua corajosa declaração feita na Argélia, segundo a qual o colonialismo constitui um crime contra a humanidade.

 

Para ser completamente franco, fiquei um tanto aborrecido pelo facto de V. Exª ter convidado Benjamin Netanyahu, que inegavelmente tem de ser incluído na categoria dos opressores e por conseguinte não pode arvorar-se em representante das vítimas de ontem. É certo que conheço há muito a impossibilidade de separar a memória da política. Talvez esteja V. Exª a empregar uma estratégia sofisticada, ainda não revelada, visando contribuir para a realização de um compromisso justo no Médio Oriente?

 

Deixei de compreender V. Exª quando durante o seu discurso declarou que:

«O anti-sionismo… é a forma reinventada do anti-semitismo.»

 

Esta declaração tinha por objectivo agradar ao seu convidado, ou é pura e simplesmente uma marca de incultura política? O antigo estudante de filosofia, o assistente de Paul Ricœur leu assim tão poucos livros de história ao ponto de ignorar que muitos judeus, ou descendentes de filiação judaica, sempre se opuseram ao sionismo sem, no entanto, serem anti-semitas? Refiro-me aqui a quase todos os antigos grandes rabinos, mas também às tomadas de posição de uma parte do judaísmo ortodoxo contemporâneo. Tenho igualmente na memória personalidades como Marek Edelman, um dos dirigentes sobreviventes da insurreição do gueto de Varsóvia, ou ainda os comunistas de origem judaica, resistentes do grupo Manouchian, que pereceram. Penso também no meu amigo e professor, Pierre Vidal-Naquet, e em outros grandes historiadores ou sociólogos como Eric Hobsbawm e Maxime Rodinson, cujos escritos e lembrança me são caros, ou ainda em Edgar Morin. Por último, interrogo-me se, sinceramente, espera dos palestinos que não sejam anti-sionistas!

 

Suponho, contudo, que V. Exª não aprecia particularmente as pessoas de esquerda, nem, talvez, os palestinos; por isso, sabendo que trabalhou no banco Rothschild, apresento aqui uma citação de Nathan Rothschild, presidente da união das sinagogas da Grã-Bretanha e primeiro judeu a ser nomeado Lorde no Reino Unido, tendo-se tornado igualmente governador do seu banco. Numa carta dirigida em 1903 a Theodor Herzl, o talentoso banqueiro escreve: «Digo-lhe com toda a franqueza: tremo à ideia da fundação de uma colónia judaica no pleno sentido do termo. Tal colónia tornar-se-ia um gueto, com todos os preconceitos de um gueto. Um pequeno, muito pequeno, Estado judaico, devoto e não liberal, que rejeitará o Cristão e o estrangeiro.» Rothschild talvez se tenha enganado na sua profecia, mas, no entanto, uma coisa é certa: não era anti-semita!

 

Houve, e há, evidentemente, anti-sionistas que também são anti-semitas, mas estou igualmente certo de que há anti-semitas entre os apologistas do sionismo. Posso também assegurar-lhe que muitos sionistas são racistas cuja estrutura mental não difere da de perfeitos judeófobos: procuram sem descanso um ADN judaico (até na universidade onde eu ensino).

 

Para clarificar o que é um ponto de vista anti-sionista, importa, contudo, começar por assentar na definição, ou pelo menos numa série de características do conceito de «sionismo»; vou fazê-lo o mais resumidamente possível.

 

Em primeiro lugar, o sionismo não é o judaísmo, contra o qual constitui até uma revolta radical. Ao longo dos séculos, os judeus devotos alimentaram um profundo fervor em relação à sua terra santa, mais particularmente em relação a Jerusalém, mas ativeram-se ao preceito talmúdico que lhes prescrevia que não emigrassem colectivamente para aí antes da vinda do Messias. Com efeito, a terra não pertence aos judeus, mas sim a Deus. Deus deu e Deus retomou, e quando quiser enviará o Messias para restituir. Quando o sionismo apareceu, retirou do seu trono o «Todo Poderoso» para o substituir pelo sujeito humano activo.

 

Cada um de nós pode pronunciar-se sobre o ponto de saber se o projecto de criar um Estado judaico exclusivo num pedaço de território maioritariamente povoado de Árabes é uma ideia moral. Em 1917, a Palestina contava 700 000 muçulmanos e cristãos árabes e cerca de 60 000 judeus, metade dos quais se opunham ao sionismo. Até então as massas do povo yiddish, querendo fugir aos pogrons do Império Russo, tinham preferido emigrar para o continente americano, que dois milhões efectivamente alcançaram, escapando assim às perseguições nazis (e às do regime de Vichy).

 

Em 1948, havia na Palestina 650 000 judeus e 1,3 milhões de muçulmanos e cristãos árabes, 700 000 dos quais se tornaram refugiados: foi sobre estas bases demográficas que nasceu o Estado do Israel. Apesar disso, e no contexto do extermínio dos judeus da Europa, muitos anti-sionistas chegaram à conclusão de que, se não se quiser criar novas tragédias, convém considerar o Estado do Israel como um facto consumado irreversível. Uma criança nascida de uma violação tem claramente o direito de viver, mas que acontece se esta criança seguir os passos do pai?

 

E chegou o ano de 1967: desde então Israel reina sobre 5,5 milhões de Palestinos, privados de direitos cívicos, políticos e sociais. São sujeitos por Israel a um controlo militar: uma parte deles numa espécie de «reserva de índios» na Margem Ocidental, enquanto outros estão fechados numa «reserva de arame farpado» em Gaza (70% destes são refugiados ou descendentes de refugiados). Israel, que nunca pára de proclamar o seu desejo de paz, considera os territórios conquistados em 1967 como fazendo parte integrante da «terra de Israel», e comporta-se aí a seu bel-prazer: até este momento foram aí instalados 600 000 colonos israelitas judeus… e ainda não acabou!

 

É isso o sionismo de hoje? Não! — responderão os meus amigos da esquerda sionista, que não pára de encolher, e dirão que é necessário pôr fim à dinâmica da colonização sionista, que um pequeno e estreito Estado palestino deve ser constituído ao lado do Estado do Israel, que o objectivo do sionismo era fundar um Estado onde os judeus exercessem a soberania sobre si próprios e não conquistar na sua totalidade a «antiga pátria». E o mais perigoso de tudo isso, aos seus olhos: a anexação dos territórios ocupados constitui uma ameaça para Israel enquanto Estado judaico.

 

Eis chegado o momento de explicar a V. Exª porque lhe escrevo, e porque me defino como não sionista, ou anti-sionista, sem no entanto me tornar antijudeu. O seu partido político reclama-se da «República», e por isso presumo que seja um republicano fervente. Não sei se para sua surpresa, eu também sou. Por conseguinte, sendo democrata e republicano, eu não posso, como fazem todos os sionistas sem excepção, tanto de direita como de esquerda, apoiar um Estado judaico. O Ministério do Interior israelita recenseia 75% dos seus cidadãos como judeus, 21% como muçulmanos e cristãos árabes e 4% como «outros» (sic). Ora, segundo o espírito das suas leis, Israel não pertence ao conjunto dos Israelitas, mas sim aos judeus do mundo inteiro que não têm intenção de para aí ir viver. Assim, por exemplo, Israel pertence muito mais a Bernard Henry-Lévy e a Alain Finkielkraut do que aos meus estudantes palestino-israelitas que se exprimem em hebraico, às vezes melhor do que eu próprio! Israel também tem a esperança de que um dia virá em que todas as pessoas do CRIF2 e os seus «apoiantes» para aí emigrarão! Conheço até franceses anti-semitas encantados com essa perspectiva! Em contrapartida, já se ouviu dois ministros israelitas, próximos de Benjamin Netanyahu, emitir a ideia de que é necessário incentivar a «transferência» dos israelitas árabes, sem que ninguém tenha pedido que eles se demitam das suas funções.

 

É por isso, Sr. Presidente, que eu não posso ser sionista. Sou um cidadão que deseja que o Estado no qual vive seja uma República israelita e não um Estado comunitário judaico. Descendente de judeus que tantas discriminações sofreram, não quero viver num Estado que, pela sua autodefinição, faz de mim um cidadão dotado de privilégios. Em seu entender, Sr. Presidente, isso faz de mim um anti-semita?

 

Shlomo Sand, historiador israelita

(Traduzido da versão francesa de Michel Bilis)

 

1 Rusga do Velódromo de Inverno de Paris (Rafle du Vélodrome d'Hiver / Vel’ d'Hiv): maior detenção em massa de judeus em França durante a Segunda Guerra Mundial, realizada com a ajuda de 7000 polícias franceses por ordem do Governo francês de Vichy. Em 16 e 17 de Julho de 1942, mais de 13 000 pessoas foram presas em Paris e arredores para serem deportadas, a maior parte das quais ficaram encerradas no Velódromo de Inverno de Paris. Menos de cem sobreviveram à deportação.

 

2 Conseil Représentatif des Institutions Juives de France (Conselho Representativo das Instituições Judaicas de França), apoia incondicionalmente a política israelita, nunca reconheceu o direito do povo palestino a um Estado.


05
Jul 17
publicado por samizdat, às 17:54link do post | comentar
Caro Rodrigo, 
 
Agradecemos a sua resposta e o facto de ter aberto connosco uma via de diálogo que confirma o percurso e as características do Teatro de Almada. Queremos, no entanto, clarificar os seguintes pontos: 
 
- a campanha de boicote cultural lançada através do apelo de artistas palestinianos em 2004 é de cariz institucional e rege-se por directrizes que visam uma aplicação consistente e com base em princípios universais. Portanto, não é dirigida a indivíduos por eles mesmos, mas sim a instituições culturais cúmplices da política de apartheid do Estado de Israel, tanto pelos seus laços legais ou pelo seu silêncio, ou por serem embaixadores culturais de Israel. 
 
- Como referimos, em 2005 o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel lançou uma campanha de marketing - Brand Israel - que tem por objectivo enviar embaixadores culturais à volta do mundo para branquear as políticas de ocupação e colonização do Estado de Israel. É de salientar que uma das condições exigidas para o financiamento de artistas israelitas é que estes se tornem "embaixadores" representantes do Estado. Aliás, este aspeto é evidente no caso da Kamea, quer pela sua denominação de "embaixadores de Beersheva", quer pelo que ficou claro na carta que partilhou connosco, em que eles descrevem Israel como uma democracia, apesar da maior parte da população que Israel governa não ter o direito de voto ou mesmo direitos básicos.  
 
- Assim sendo, achamos cínica a resposta da Kamea e ingénuo tê-la partilhado connosco como sendo um argumento fidedigno a afirmação de que eles não estão envolvidos na política e são "independentes", quando eles se associam abertamente ao governo e aceitam o papel de embaixadores de uma cidade onde se vive diariamente crimes de guerra, sem tomarem qualquer posição de oposição a este racismo como parte deste papel (critico?) de "embaixadores". A Kamea fala na sua carta da "condição humana", mas não assume nenhuma posição contra a ocupação; ela é composta por bailarinos de várias nacionalidades, mas curiosamente nenhum palestiniano. A arte, como sabe, não existe num vácuo e está intimamente ligada à realidade. Acima de tudo, a arte usada politicamente torna-se propaganda ao serviço de um Estado opressor. 
 
- Relativamente à comparação da realidade em Israel com a da ditadura de Salazar, e a viabilidade da aplicação de um boicote cultural aos dois, queremos sublinhar que a diferença  está no facto de o boicote cultural contra Israel ter sido lançado como pedido de solidariedade pelo povo oprimido, neste caso os palestinianos, sendo a nossa resposta em Portugal uma mensagem clara a Israel que não pode haver "business as usual" com um Estado opressor e uma forma de solidariedade para com a luta do povo palestiniano pela liberdade, justiça e igualdade. Não houve no tempo da ditadura um apelo similar ou unificado vindo de Portugal para o mundo. A analogia mais correta será com o movimento anti-apartheid sul-africano que incluiu também um boicote cultural, mobilizando nos anos 80 figuras da cultura pelo mundo fora, que na altura se recusaram a atuar no apartheid sul-africano. 
 
- A visão que nos transmite de um mundo artístico ignorante à realidade e passivo face à opressão, contrasta com o enorme apoio que o boicote cultural a Israel tem vindo a receber a nível mundial, com nomes como Roger WatersKen LoachMike LeighLauryn HillMark RylanceEmma ThompsonAlice Walker, Naomi KleinElvis CostelloBrian EnoJean Luc GodardMira Nair, entre muitos outros. Um Festival de Almada que fecha os olhos ao apelo de solidariedade de um povo oprimido, escolhendo associar-se ao Estado opressor, torna-se cúmplice desta política. 
 

Lamentamos que o Festival de Almada tenha decidido seguir em frente com a sua associação à embaixada de um país conhecido pelos seus constantes crimes de guerra e, como vimos nesta troca de correspondência, com uma coordenação próxima entre as duas partes que não deixa de ser chocante para um festival conhecido como progressista. Apelamos a que reconsidere a vossa posição e continuamos abertos a uma reunião.


publicado por samizdat, às 17:49link do post | comentar

1ª Carta enviada pelo Comité de Solidariedade com a Palestina ao organizador do Festival de Almada, em 30 junho 2017

 

Exmo Senhor Rodrigo Francisco

 

O Comité de Solidariedade com a Palestina vem apelar à organização do 34º Festival de Almada para que cancele o espectáculo de dança do Kamea Dance Company, a realizar-se no dia 12 de Julho 2017, e recuse o apoio da Embaixada de Israel.

 

A actuação do Kamea Dance Company no prestigiado 34º Festival de Almada vem com o patrocínio da Embaixada de Israel. Esta companhia tem o estatuto oficial de embaixador da cidade de Beer Sheva, onde hoje Israel continua a expulsar comunidades palestinianas com o objectivo de limpeza étnica. Um exemplo disso é a demolição contínua das casas da comunidade palestiniana de Al-Araqib que, em Maio de 2017, foi demolida pela 117ª vez pelas autoridades israelitas. Israel está a ameaçar expulsar mais de 70 000 palestinianos da região do Negev através do plano Prawer, para que sejam instaladas no seu lugar comunidades exclusivamente judias. Israel não faz segredo dos seus planos, como mostra o exemplo da aldeia palestiniana de Um el Hiran, que está hoje em risco de demolição, para ser construído no seu lugar o colonato judio de Hiran.

 

Aliás, de Beer Sheva, cidade da qual a Kamea Dance Company é embaixadora, tiveram de partir milhares de refugiados que hoje se encontram sob bloqueio em Gaza, e a quem o Estado de Israel nega o seu direito de retorno às suas casas.

 

A Kamea Dance Company é portanto um órgão central da campanha de marketing chamada Brand Israel instituída pelo governo israelita, que tem como objectivo explícito apresentar Israel como um "país normal" e desviar a atenção da opinião pública em todo o mundo das contínuas violações dos direitos humanos e do direito internacional pelo governo israelita. Para isso, o governo israelita promove o uso propagandístico da cultura e das artes, e a Kamea Dance Company aceita voluntariamente o papel de embaixador oficial em troca do financiamento que recebe do Estado.

 

Eventos como o Festival de Almada são ocasiões importantes para apresentar o melhor da música, da dança e do teatro, e neles não pode haver espaço para o uso da cultura ou das artes como propaganda. Os laços directos com o governo israelita tornam impossível descrever o papel da Kamea Dance Company como "apolítico". Quando os artistas são cúmplices da opressão de um povo, devem ser boicotados.

 

A solidariedade sincera inclui não só as palavras, mas também o ouvir e responder aos apelos do povo oprimido, que neste caso pedem ao mundo um boicote cultural a Israel e às instituições culturais cúmplices com a sua política, como é o caso da Kamea Dance Company.

 

Inspiradas pela experiência da luta contra o apartheid na África do Sul, mais de 170 organizações da sociedade civil palestiniana lançaram em 2005 o movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra Israel [como meio eficaz e não violento de luta para apoiar a resistência do povo palestiniano, reivindicando o direito de viver em liberdade nas suas próprias terras]. Neste contexto, a Campanha Palestiniana para o Boicote Académico e Cultural de Israel (PACBI) convida a comunidade internacional a boicotar todos os órgãos culturais que mantenham relações institucionais com o governo israelita.

 

A campanha de boicote cultural contra Israel, com base nas directrizes do PACBI, não é dirigida contra os artistas israelitas individuais, mas contra instituições israelitas e os mecanismos através dos quais os artistas se tornam instrumentos da propaganda do regime.

 

O arcebispo e Nobel da Paz sul-africano Desmond Tutu, que esteve com Mandela entre os campeões da luta contra o regime racista na África do Sul, dirigindo-se a quem se declarou neutro perante o conflito entre a minoria branca e a maioria negra nesse país, disse: "Se você é neutro em situações de injustiça, você escolheu o lado do opressor ". Hoje, Desmond Tutu, um forte defensor do BDS, reafirma os mesmos argumentos em relação à situação na Palestina.

 

Pedimos aos organizadores do Festival de Almada para não serem neutros e assumirem publicamente a responsabilidade política e intelectual que diz respeito a todos os assuntos que operam na esfera da cultura, pedimo-vos que cancelem o espectáculo e não aceitem o apoio da embaixada de Israel, seguindo o exemplo do Festival de Cinema Queer de Lisboa, que largou o apoio da embaixada de Israel desde 2011.

 

Gostaríamos de poder reunir-nos convosco, para termos a oportunidade de fornecer mais informações, esclarecer dúvidas e ouvir a vossa opinião.

 

Agradecemos desde já a vossa atenção e aguardamos uma resposta com a maior urgência.


28
Mai 17
publicado por samizdat, às 22:40link do post | comentar
Um artigo de Diana Buttu, advogada e ex-conselheira da equipa de
negociação da OLP.

Traduzido pelo CSP do artigo publicado no New York Times em 26/5/2017:
https://www.nytimes.com/2017/05/26/opinion/palestinian-authority-mahmoud-abbas.html?_r=0


RAMALLAH, CISJORDÂNIA — A reunião, esta semana, do presidente Trump com
o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, foi apresentada
como um esforço do autor de "A arte do negócio" para reiniciar o
processo de paz patrocinado pelos Estados Unidos, há muito tempo parado.
Mas enquanto o 50º aniversário da ocupação israelita ocorre já no
próximo mês, o que é certo é que o processo está pior que estagnado.
Perante um governo intransigente de direita em Israel, que não acredita
que os palestinianos devam ter plenos direitos, as negociações são
fúteis. 

Em que ponto isso deixa o sr. Trump e a política americana de sustentar
a Autoridade Palestiniana e o sr. Abbas? Dado o miserável fracasso das
conversações construído num quadro de falência que favorece fortemente
Israel, cada vez mais palestinianos debatem a necessidade de uma nova
liderança e uma nova estratégia.

Muitos questionam actualmente se a Autoridade Palestiniana desempenha
algum papel positivo ou se é simplesmente um instrumento de controlo
para Israel e a comunidade internacional. A lógica inevitável é que está
na hora de a Autoridade ir-se.

Criada em 1994 sob os Acordos de Oslo, a Autoridade Palestiniana
destinava-se a ser um órgão temporário que se transformaria num governo
com plenas funções, logo que estivesse garantido o Estado, o que foi
prometido para 1999. A jurisdição da Autoridade foi portanto sempre
limitada. Ela é responsável por apenas 18 por cento da Cisjordânia
(dividida em oito áreas). Comparados com o total do controlo de Israel
sobre a Cisjordânia ocupada e a faixa de Gaza, os poderes da Autoridade
Palestiniana são insignificantes.

Para muitos palestinianos, no entanto, o estabelecimento de seu governo
era um sonho realizado. Finalmente, aqueles que viviam sob a ocupação
desde 1967 seriam libertados do regime repressivo militar de Israel para
se governarem eles próprios. Os palestinianos reivindicavam postos na
nova entidade e tinham orgulho em criar instituições apesar dos
obstáculos impostos pelo governo israelita. Como as negociações se
arrastaram em Oslo, essas instituições só se tornaram ainda mais
entrincheiradas.

Mais de duas décadas depois, as negociações não produziram nenhum
progresso. Passei vários anos envolvida no lado palestiniano das
negociações e posso atestar a sua futilidade. Delegados palestinianos,
que precisavam de autorização para entrar em Israel a fim de participar
nas conversações, ficavam rotineiramente retidos nos checkpoints
israelitas. Quando falávamos de direito internacional e da ilegalidade
dos colonatos, os negociadores israelitas riam-se na nossa cara.
O poder é tudo, pareciam eles dizer, e vocês não têm nenhum.

Com o tempo, ficou claro que o orçamento e as prioridades da Autoridade
eram principalmente destinadas a assegurar que os palestinianos
permanecessem um dos povos mais vigiados e controlados do planeta. Com
efeito, a Autoridade Palestiniana serviu como subempreiteiro das forças
armadas israelitas de ocupação. A pesada centralização na segurança,
disseram-nos, era necessária para a continuação duradora das
conversações de paz. Hoje, um terço inteiro do orçamento da Autoridade,
aproximadamente 4 bilhões de dólares, vai para o policiamento, mais do
que para a saúde e a educação juntas.

Estas forças de segurança não fornecem um serviço de polícia normal aos
palestinianos, e em vez disso, ajudam o exército israelita na manutenção
da ocupação e dos colonatos de Israel em permanente expansão. A
internacionalmente elogiada "cooperação de segurança" entre Israel e a
Autoridade Palestiniana só resultou na detenção e prisão de
palestinianos, incluindo activistas não-violentos dos direitos humanos,
enquanto é permitido aos colonos israelitas armados e violentos
aterrorizar os palestinianos com total impunidade. A Autoridade
Palestiniana não tem jurisdição sobre os colonos, e o exército israelita
quase sempre olha para o lado.

A razão de ser da Autoridade Palestiniana hoje não é a de libertar a
Palestina; é de manter os palestinianos silenciosos e abafar as
divergências enquanto Israel rouba terras, destrói casas palestinianas e
constrói e expande colonatos. Em vez de se tornar um Estado soberano, a
Autoridade Palestiniana tornou-se um Estado proto-policial, uma ditadura
virtual, apoiada e financiada pela comunidade internacional.

Olhem para o seu líder. Com oitenta e dois anos, o sr. Abbas vem
controlando a Autoridade há mais de 12 anos, governando por decreto
presidencial durante a maioria desse tempo, sem nenhum mandato
eleitoral. Ele presidiu a alguns dos piores dias da história da
Palestina, incluindo a desastrosa cisão, que já dura há uma década,
entre o seu partido Fatah e o Hamas, o outro jogador importante na
política palestiniana, e a três ataques militares israelitas a Gaza
devastadores.

Sob a sua presidência, o parlamento palestiniano tornou-se moribundo e
irrelevante. Muitos palestinianos nunca votaram em eleições
presidenciais ou parlamentares porque o sr. Abbas não conseguiu
conservá-los, muito embora eles sejam chamados na lei básica que rege a
Autoridade Palestiniana. As últimas sondagens de opinião mostram que a
sua popularidade está no nível mais baixo de sempre, com dois terços dos
palestinianos tão descontentes que querem a sua demissão.

Um número igualmente alto já não acredita que as negociações irão
garantir a sua liberdade. A Autoridade Palestiniana institucionaliza a
dependência perante os doadores internacionais, que amarra as mãos da
Autoridade com condições políticas. Em consequência, até o uso do
Tribunal Penal Internacional para responsabilizar Israel pela construção
ilegal de colonatos tem de ser pesado contra as eventuais repercussões
financeiras de um acto tão simples.

Para eliminar este laço que tem sufocado os palestinianos, a Autoridade
deve ser substituída pelo tipo de tomada de decisão baseada na
comunidade que antecedeu a sua criação. E temos de reformar o nosso
principal órgão político, a Organização de Libertação da Palestina, que
o Sr. Abbas também lidera, para torná-lo mais representativo do povo
palestiniano e dos seus partidos políticos, incluindo o Hamas. Há muito
que o Hamas indicou que quer ser parte da OLP, e a sua carta revista,
recentemente lançada em Doha, no Qatar, afirma esta aspiração.

Com o processo de negociação morto, por que devem os palestinos ser
forçados a agarrarem-se à Autoridade Palestiniana, que só tem
prejudicado a sua luta de décadas pela justiça e ajudado a dividi-los?

Dado que existem cerca de 150.000 funcionários que dependem da
Autoridade para receber o seu salário, não tenho nenhuma ilusão de que
fechá-la será fácil ou sem sofrimento. Mas este é o único caminho para
restaurar a nossa dignidade e uma tomada de decisão palestiniana
independente. Uma OLP reformada, com a sua credibilidade renovada, será
capaz de aumentar os fundos de palestinianos e nações amigas para apoiar
aqueles que vivem sob a ocupação, como fazia antes do processo de Oslo.

Para alguns, isto pode soar à desistência do sonho nacional de
autodeterminação. Não é. Ao desmantelar a Autoridade, os palestinianos
podem de novo confrontar a ocupação israelita de forma estratégica,
oposta às propostas de um Estado meramente simbólicas do sr. Abbas. Isso
significa apoiar as iniciativas baseadas na comunidade que organizam
protestos de massa não-violentos e pressionam para haver boicotes,
desinvestimento e sanções contra Israel, como aqueles que ajudaram a
acabar com o apartheid na África do Sul.

Esta nova estratégia pode significar reivindicar direitos iguais dentro
de um único Estado, um resultado infinitamente mais justo e atingível
que o processo apoiado pelos americanos que pretendia que a paz poderia
vir ignorando os direitos dos refugiados palestinianos e dos cidadãos
palestinianos de Israel. Já mais de um terço dos palestinianos dos
territórios ocupados defende a solução de um Estado único, sem que
nenhum grande partido defenda essa política.

Ao desmantelar a Autoridade Palestiniana e reformar a OLP, a verdadeira
vontade dos palestinianos será ouvida. Se o desfecho é dois Estados ou
um Estado, cabe a esta geração de palestinianos decidir.

23
Mar 17
publicado por samizdat, às 21:21link do post | comentar

Publicamos aqui a carta de demissão de Rima Khalaf, secretária executiva da ESCWA (Comissão Económica e Social para a Ásia ocidental), em resposta ao pedido formal de António Guterres, secretário-geral da ONU, para que a ESCWA retirasse a publicação de um relatório que acusa Israel de ser um Estado de apartheid.



Caro Senhor Secretário Geral,

Considerei com atenção a sua mensagem transmitida pelo Chefe de gabinete e asseguro-lhe que em nenhum momento pus em questão o seu direito de retirar a publicação do relatório do nosso site internet ou o facto de que todos nós que trabalhamos para o secretariado estejamos submetidos à autoridade do secretário-geral. Assim como não tenho nenhuma dúvida com respeito ao seu empenho perante os direitos humanos em geral, e a sua posição firme relativa aos direitos do povo palestiniano. Também compreendo as suas preocupações, em particular nestes tempos difíceis que lhe deixam pouca escolha.

Não sou insensível aos ataques viciosos e às ameaças que pesam sobre as Nações Unidas e sobre si pessoalmente por parte de importantes Estados-membros como resposta à publicação do relatório da ESCWA intitulado "As práticas de Israel para com os palestinianos e a questão do apartheid". Não me parece surpreendente que tais Estados-membros, actualmente com governos que se preocupam pouco com as normas e os valores internacionais relativos aos direitos humanos, recorram à intimidação quando lhes parece difícil defender as suas políticas e práticas ilícitas. É normal que os criminosos pressionem e ataquem aqueles que defendem as suas vítimas. Eu não posso submeter-me a uma tal pressão.

Não é em virtude do meu estatuto de oficial internacional, mas em virtude do meu estatuto de ser humano honesto, que acredito, como o senhor, nos valores e princípios universais que sempre foram as linhas de conduta do bem na história humana, e sobre os quais uma organização como a nossa, as Nações Unidas, é fundada. Como o senhor, considero que a discriminação contra qualquer pessoa por motivos da sua religião, da cor da sua pele, do seu sexo ou da sua origem étnica é inaceitável, e que tais discriminações não podem tornar-se aceitáveis por via dos cálculos do oportunismo ou do poder político. Considero ainda que os povos não só deveriam ter o direito de dizer a verdade ao poder, mas que eles têm o dever de o fazer.

No espaço de dois meses, o senhor pediu-me que retirasse dois relatórios produzidos pela ESCWA, não por causa de erros que tivessem sido cometidos nesses relatórios, e provavelmente não porque o senhor estivesse em desacordo com o seu conteúdo, mais por causa da pressão política exercida pelos Estados-membros que violam gravemente o direito dos povos da região.

O senhor viu que os povos dessa região vivem um período de sofrimento nunca visto na história moderna, e que o número considerável de catástrofes hoje resulta do fluxo de injustiças que foram ignoradas, escondidas ou abertamente aprovadas por governos poderosos dentro e fora da região. Esses mesmos governos são os que estão a pressioná-lo para fazer calar a voz da verdade e o apelo à justiça apresentados nesses relatórios.

Considerando o que precede, eu não posso senão manter as conclusões do relatório da ESCAW, segundo as quais o Estado de Israel estabeleceu um regime de apartheid que procura o domínio de um grupo racial sobre outro. As provas trazidas neste relatório redigido por peritos de renome são numerosas. Todos os que atacaram esse relatório não disseram uma palavra sobre o seu conteúdo. Considero como um dever meu, em vez de eliminar as provas, divulgar o facto legalmente e moralmente indefensável de que no século XXI ainda existe um Estado de apartheid. Ao dizer isto, não estou a afirmar nenhuma superioridade moral ou visão superior. A minha posição é influenciada por uma vida de experiências onde vi as consequências desastrosas para a paz quando se bloqueia as queixas dos povos da nossa região.

Percebo que tenho pouca escolha. Não posso agora retirar mais outro dossier das Nações Unidas bem documentado e resultado de investigações aprofundadas sobre graves violações dos direitos humanos, embora saiba que instruções claras do secretário-geral devam ser aplicadas rapidamente. É um dilema que só posso resolver pela minha demissão para permitir que outra pessoa faça aquilo que eu não posso fazer em boa consciência. Sei que já só tenho duas semanas no meu posto; a minha demissão não se destina portanto a exercer qualquer pressão política. É simplesmente porque penso que é meu dever para com os povos que servimos, para com as Nações Unidas e para comigo mesma, não retirar um testemunho honesto sobre um crime em curso que está na origem de tanto sofrimento humano. Por consequência, venho entregar-lhe a minha demissão das Nações Unidas.

Respeitosamente,

Rima Khalaf


Traduzido pelo CSP da versão francesa publicada em 21 mars 2017 em http://www.france-palestine.org/Lettre-de-demission-de-Rima-Khalaf-secretaire-executive-de-l-ESCWA-commission


10
Mar 17
publicado por samizdat, às 23:22link do post | comentar

Este apelo foi lançado hoje em Portugal no âmbito da campanha internacional de BDS / Boicote-Desinvestimento-Sanções

 

Caro/a fotógrafo/a,

 

Na Palestina, não fosse o trabalho dos fotógrafos, nunca conseguiríamos capturar a verdadeira imagem da ocupação e da violação dos direitos humanos.

 

Por isso mesmo, Israel pressiona cada vez mais os fotógrafos palestinianos e internacionais que tentam transmitir uma imagem mais próxima da realidade.

 

Aqui damos apenas alguns exemplos dos muitos abusos contra fotógrafos. A muitos deles foi negada a liberdade de movimento para poder realizar o seu trabalho. Outros foram humilhados, obrigados a tirarem a roupa para poderem passar as barreiras de segurança com vista a realizar o seu trabalho.

 

Em Abril de 2016, o fotógrafo Hazem Naser foi detido pelas forças israelitas. Em Setembro, o fotógrafo Nidal Shatayyah foi ferido perto de Jerusalém. Nesse mesmo mês, o fotógrafo Ashraf Amra, que já foi várias vezes ferido ao longo da sua carreira, foi impedido de sair de Gaza – que está sob o bloqueio – para receber um prémio numa competição internacional.

 

Em plena violação da lei internacional, foram assassinados vários fotógrafos palestinianos pelo exército israelita, entre os quais Rami Rayan e Muhamad Nur-alDin al-Diari, e outros internacionais como o italiano Simone Camille e o inglês Tom Hurndall.

 

Em solidariedade com os fotógrafos palestinianos e internacionais que arriscam a vida todos os dias para transmitir uma imagem verdadeira da situação na Palestina, em memória dos que morreram com uma câmara na mão, e respondendo ao apelo palestiniano para uma campanha internacional de boicote, desinvestimento e sanções (BDS), convidamo-lo/la a não ficar indiferente e a assinar este compromisso como forma de solidariedade com o povo palestiniano e de contributo para que todos os seres humanos tenham direito à igualdade, liberdade e justiça.

 

 

O compromisso resume-se nesta declaração:      

 

"Apoiamos a luta palestiniana pela liberdade, justiça e igualdade. Em resposta ao apelo de fotógrafos, jornalistas e trabalhadores culturais palestinianos para um boicote cultural a Israel, comprometemo-nos a não aceitar convites profissionais ou financiamentos do Estado israelita ou de qualquer instituição ligada ao seu governo, até que Israel cumpra com a lei internacional e  os princípios universais de direitos humanos."

 

Por favor, considere adicionar o seu nome a este compromisso. Os nomes dos apoiantes não serão publicados até ser atingida uma massa crítica e os apoiantes serem notificados.

 

Se quiser assinar, por favor utilize este formulário, onde o texto do compromisso está integral. Os organizadores da campanha estão disponíveis para responder a qualquer questão ou comentário através do email comitepalestina@bdsportugal.org

 

Cumprimentos,

Plataforma BDS-Portugal

 ---------------------

 

 

Para mais informação/enquadramento:

Preparámos esta folha que responde a questões sobre o compromisso e sobre o boicote cultural a Israel e os seus objectivos.

 

O apelo da Campanha Palestiniana para o Boicote Cultural e Académico pode ser consultado aqui: http://pacbi.org/etemplate.php?id=869


26
Jan 17
publicado por samizdat, às 21:57link do post | comentar
Nakba é a palavra árabe para designar a cataśtrofe que foi a fundação do Estado de Israel no território da Palestina. A "catástrofe" deveu-se ao facto de existir um povo de carne e osso nessas terras supostamente desabitadas que iriam abrigar a invenção de um "povo judeu". A catástrofe foram os massacres de 1947-48 pelas milícias sionistas, a destruição de aldeias palestinianas e a expulsão dos seus habitantes.

 

A grande tragédia desta catástrofe é a voracidade insaciável do Estado de Israel, que até hoje omite desenhar as suas fronteiras nacionais em qualquer atlas geográfico, na certeza de que elas serão sempre e sempre alargadas. O projecto sionista desde o seu início é o de estender os limites do Estado judeu sobre todo o território da Palestina histórica. Como já dizia Himmler a propósito da Polónia, "não é possível germanizar o povo, é preciso germanizar o território". E, como na verdade, a Palestina não era nem é "uma terra sem povo", a limpeza étnica sempre foi tarefa essencial do projecto sionista. Assim, temos assistido desde há quase 70 anos, sob a fiel cumplicidade da maioria dos governos democráticos, ao lento mas progressivo genocídio do povo palestiniano.

 

Logo após a tomada de posse de Trump, Israel anunciava a construção de mais 566 alojamentos em Jerusalém-oriental e 2.500 na Cisjordânia, dois territórios palestinianos ocupados ilegalmente segundo o direito internacional. (Porque a ocupação e usurpação de terras que teve lugar entre 1948 e 1967 é considerada ainda hoje dentro da legalidade internacional).

 

O genocídio segue o seu curso, não só pela extensão de cada vez mais colonatos judeus em cima de casas, terras agrícolas e aldeias palestinianas destruídas pelas forças militares e policiais israelitas, mas também pelo bloqueio à Faixa de Gaza, onde uma população de quase dois milhões de palestinianos vive cercada, sem acesso a água potável, a medicamentos e cuidados médicos, mal nutrida e regularmente bombardeada pelo exército israelita.

 

O intuito do genocídio está presente na política colonial quotidiana de Israel. Vemo-lo no recente anúncio da construção de mais colonatos, e vemo-lo nos esforços para privar os palestinianos de qualquer meio de subsistência. Um despacho de 25 de Janeiro da agência noticiosa Ma'an News reportava, por exemplo, que aviões israelitas estavam a pulverizar com químicos herbicidas as culturas agrícolas ao longo da fronteira de Gaza, numa zona onde se concentra toda a reserva de alimentos da Faixa de Gaza. O pretexto evocado para esta acção é o de manter uma zona de segurança com a visibilidade necessária para impedir a "infiltração" de palestinianos. Os estragos provocados por esses produtos químicos não se limitam à zona fronteiriça e penetram até mais de um quilómetro no interior da Faixa, destruindo os poucos meios de subsistência que ainda restam a uma população encurralada neste imenso campo de concentração em que se tornou Gaza.

 

Perante a impunidade de que goza o Estado de Israel, a cumplicidade descarada de Trump ou a cumplicidade dissimulada dos governos da União Europeia, se nos sobra ainda algum optimismo quanto à sobrevivência do povo palestiniano, é porque vemos que não foi possível quebrar a sua capacidade de resistência ao fim destas sete décadas de martírio. Ainda na semana passada, e segundo o jornal  L'humanité, uma greve geral foi massivamente seguida em várias localidades árabes de Israel, sobretudo no Neguev e em Nazaré, para protestar contra mais uma destruição de casas no deserto do Neguev, que levou à morte de dois beduínos alvejados por polícias israelitas.

 

Resta-nos também uma ponta de optimismo por sabermos que podemos, também nós aqui na Europa, apoiar e fortalecer essa resistência respondendo ao apelo dos sindicatos, associações e outros agrupamentos da Palestina para pressionar Israel através da campanha BDS - Boicote, Desinvestimento e Sanções - a cessar a sua política de ocupação, apartheid e opressão na Palestina.

17
Jan 17
publicado por samizdat, às 15:55link do post | comentar

A conferência de paz de Paris foi mais que inútil - todos sabem que uma solução de dois Estados em Israel e Palestina é impossível agora

 

Mesmo para o que as conferências de paz costumam ser, esta foi a mais miserável de todas. Patética, sem esperança, infeliz, abatida, morta antes do seu tempo. Trump não enviou ninguém, Netanyahu chamou-lhe “as últimas contorções do mundo de ontem”, o autocrático Mahmoud Abbas não se deu ao trabalho de aparecer e o secretário de Estado de Theresa May apenas enviou uma mão-cheia de subordinados para a palhaçada. John Kerry, que disse há dois anos que a paz entre israelitas e palestinianos tinha no máximo 18 meses para acontecer “ou acabava”, anunciou debilmente que a reunião de 70 nações em Paris tinha “lançado a bola para a frente” – seja o que for que isto queira dizer. Então, para que foi tudo isto?

Sem dúvida, François Hollande – se alguma vez houve um imperador sem roupas, foi ele – quis restaurar o lugar da França entre as nações, enquanto as nações da UE e os árabes quiseram "contorcer-se" uma última vez – mesmo se foi apenas para se prepararem para o fracasso e alijarem qualquer responsabilidade. Solução de dois Estados? Jerusalém como capital? Ocupação? Roubo de terras? Refugiados? Nós fizemos uma última tentativa. Não podem dizer que não vos avisámos. Não nos culpem, pá. Até mesmo os russos só enviaram o seu embaixador em Paris para a conferência de "paz". Mas o que esperavam eles todos?

Que a nova marioneta de Trump para a embaixada em Israel escolheria ficar em Telavive? Que Benjamin Netanyahu, o colonizador e colono-mor, não faria mais exigências territoriais? Que os palestinianos, a perderem todos os dias hectares de terras roubadas pelos israelitas, mas agarrados a um líder cuja legitimidade depende de Israel e não deles, reiniciariam as negociações com os seus ocupantes? E foi assim que falaram em Paris os grandes e os bons: não deverás prejudicar o resultado das negociações dando passos unilaterais. E isto, anunciou um porta-voz francês, foi uma "mensagem subliminar" para Trump.

Oh deuses! Trump não recebe “mensagens subliminares”. Ele envia tweetts: “Mantém-te forte, Israel”. Como se responde a isso? Mas talvez os moços e as moças em Paris tenham entendido a mensagem. Nem uma vez eles proferiram a palavra "ocupação", muito menos "apartheid". Eles não mencionaram sequer a pequena questão de mudar a embaixada dos Estados Unidos para Jerusalém. Isso seria "inadequado", disse o poderoso Kerry. E isso é que era suposto ser uma "mensagem forte" ao primeiro-ministro de Israel (claramente Trump) e ao presidente dos Estados Unidos (obviamente Netanyahu): que a solução de dois Estados era realmente a única que estava sobre a mesa.

E assim a tragédia palestiniana continua a deslizar nas agendas nacionais de notícias – para deleite de Israel – ensanduichada algures entre mortes em acidentes e prémios académicos, mas muito atrás de Trump e Putin, Rússia no Médio Oriente, ISIS, Brexit, imigrantes europeus e o aquecimento global. O maior vulcão do mundo está a borbulhar lá na Palestina, mas um dos maiores icebergues do mundo está prestes a descolar-se do Antárctico. Adivinha-se qual deles conseguirá a maior manchete.

O que é que deu aos nossos líderes? Os charlatães de Theresa May estão preocupados em que a conferência de Paris possa "endurecer" as posições palestinianas – possa "endurecer" os palestinianos, por amor de deus – enquanto a Austrália continua a ver o primeiro veto de Obama a uma resolução da ONU contra a expansão dos colonatos como "profundamente inquietante". Parece que Malcolm Turnbull acha inquietante discutir os colonatos israelitas, quando toda a gente considera inquietante os colonatos. Então o que será pior: a pusilanimidade de Turnbull, ou May a dar graxa ao principal espião do Kremlin em vias de entrar na Casa Branca? Para ela, não existe mandato britânico na Palestina.

Qualquer pessoa que tenha visitado a Cisjordânia nestes últimos anos viu os colonatos judeus construídos em terras árabes roubadas, testemunhou a ocupação e a imundície em Gaza e observou os brutais dirigentes das milícias do Hamas – e percebeu que Netanyahu será em breve o membro mais à esquerda do seu governo cada vez mais racista – sabe muito bem que a “solução dos dois Estados” desapareceu há muito tempo. Por que teremos realmente pensado que ela iria sobreviver à cirurgia política do nosso querido antigo manda-chuva no Médio Oriente, Tony Blair? Como ele diria se fosse sincero, toda essa farsa acabou "absolutamente e completamente".

E o resto dos árabes? Oh Senhor, Senhor. Nós aceitamos os decapitadores do Golfo, o ditador do Egipto e os "rebeldes" da Síria. Nós vendemos armas aos sauditas para eles bombardearem os iemenitas – o que pode "endurecer" bastante a posição do Iémen – e enviamos dinheiro para o Líbano para manter os refugiados sírios no local, porque a sua presença massiva entre nós seria "profundamente inquietante". Nós adorámos os rebeldes de Aleppo e odiamos os rebeldes de Mossul e qualquer comparação entre eles seria sem dúvida "altamente inadequada". Agora há uma "mensagem subliminar" se alguma vez houve uma. Chama-se "lançando a bola para a frente".


Este artigo foi publicado no Independent, de 16.1.2017:

http://www.independent.co.uk/voices/paris-peace-conference-israel-palestine-settlements-two-state-solution-middle-east-impossible-a7529141.html

A tradução portuguesa é do Comité de Solidariedade com a Palestina


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