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Nov 08
publicado por samizdat, às 22:05link do post | comentar

A ruina da economia palestiniana

Um artigo de Jonathan Cook

 

O sol esconde-se por trás das árvores de um olival, na periferia de Nilin, uma aldeia da Cisjordânia. Após um dia de confrontos entre o exército israelita e os aldeões palestinianos em torno da construção do muro de separação nas terras de Nilin, os soldados parecem ter-se finalmente retirado.

 

Visto das casas do colonato judaico de Hashmonaim, um punhado de adolescentes corajosos sai finalmente para trabalhar.

 

Djamal e Abed estão exaustos depois dos seus esforços para vencer tanto a chegada da noite como o regresso do exército. Orgulhosos, escondem nas blusas levantadas uma quantidade de bombas lacrimogéneas e de granadas. Cada uma delas vale 1 shekel (25 cts) no ferro-velho e entre os dois conseguiram pelo menos 50 bombas.

 

Em Nilin, a meio caminho entre Jerusalém e Tel Aviv, vivem  cerca de 5.000 palestinianos. Conhecida como «aldeia de empresários», tem mais do que a sua dose de milionários. Mas isto parece estar a mudar.

 

Tradicionalmente, Nilin tem usufruido das vantagens não só de uma agricultura próspera nos seus extensos campos circundantes, mas também de quatro fábricas que fornecem bens, desde a cola ao combustível, aos palestinianos na região de Ramallah.

 

Mas Djamal e Abed, que riem nervosamente e recusam responder quando lhes é perguntado o nome completo, parecem ser a face das perspectivas de futuros negócios.

 

Cercada por meia dúzia de colonatos judeus como o de Hashmonaim - todos eles ilegais à luz da lei internacional -, a aldeia está a ser lentamente cercada de uma forma que poderá em breve tornar o seu isolamento tão completo como o de Gaza.

 

Desde Maio, Israel começou a construir a sua barreira de separação ao longo de um dos lados da aldeia, cortando-a de 250 hectares, ou seja, 40%, da sua terra agrícola. A terra será efectivamente anexada aos colonatos vizinhos.

 

Seguindo a estratégia das aldeias palestinianas próximas, os habitantes de Nilin iniciaram uma campanha de protestos essencialmente não-violentos com vista a atrasar as obras, na esperança de conseguir através da opinião pública internacional ou dos tribunais israelitas a sua suspensão.

 

Entretanto, uma série de incidentes violentos perpetrados pelo exército já custaram a vida a várias pessoas da aldeia. O exército também usou várias técnicas novas para dispersar as manifestações, entre as quais um líquido nauseabundo chamado Skunk que é pulverizado sobre os manifestantes.

 

Após confrontos deste tipo, Djamal e Abed conseguem ganhar dinheiro - levando a cabo o equivalente palestiniano das buscas de crianças pobres entre os sacos de lixos na procura de latas de bebidas usadas. Os dois adolescentes escapam-se por entre as árvores todas as noites, ao abrigo da escuridão, para recolherem as bombas vazias deixadas pelo exército.

 

Se os agricultores de Nilin se confrontam com o fim do seu ganha-pão devido à confiscação das suas terras, os empresários de Nilin não devem tardar a seguir o mesmo destino.

 

B'Tselem, um grupo israelita de direitos humanos, tem conhecimento de planos estabelecidos pelo exército israelita para fechar os cruzamentos à entrada da aldeia, os únicos acessos que permitem entrar e sair de Nilin. Actualmente, a entrada é controlada por um checkpoint do exército, onde um palestiniano atado recebeu de um soldado israelita um tiro no pé em Julho - um momento captado pela câmara vídeo de Salam Amira, uma aluna palestiniana.

 

«Israel diz que quer evitar que os habitantes de Nilin utilizem a estrada, a fim de a manter segura», afirmou Sarit Michaeli do B'Tselem. «Na prática, isso significa que a estrada ficará reservada aos colonos para que possam chegar a cada vez mais colonatos, cada vez mais no interior da Cisjordânia. A estrada será unicamente para os judeus».

 

Israel propõe, para substituir o checkpoint, que Nilin se transforme num enclave, ligado a outras aldeias palestinianas da região através de um túnel que desenboca noutra estrada. Os aldeões receiam tornar-se deste modo inteiramente dependentes da boa vontade do exército israelita para se deslocarem.

 

Outras comunidades da Cisjordânia sofreram no passado destinos semelhantes. A Qalqilya, onde vivem 50.000 palestinianos, foi estreitamente cercada pelo muro há poucos anos. Muitos agricultores, que dependem da vontade do exército de os deixar passar através de várias passagens para chegar às suas terras, queixam-se amargamente das restrições que lhes tornaram a vida impossível. Dizem que muitas vezes os soldados não aparecem ou abrem as passagens apenas durante uns minutos por dia. Relatórios afirmam que Qalqilya conheceu um êxodo de cerca de um décimo da sua população desde a conclusão do muro.

 

Assim como Qalqilya, Nilin está perto da Linha Verde, a fronteira da Cisjordânia com Israel de antes de 1967. Foi nessas zonas que o muro de Israel fez as maiores incursões em terra palestiniana.

 

Os planos para Nilin e planos semelhantes noutros lugares da Cisjordânia significam que qualquer esperança de um Estado palestiniano com contiguidade - o objectivo do "road map" patrocinado pelos EUA - está a ser destruída por Israel.

 

«O exército pode abrir e fechar o túnel como entender», diz Michaeli. «E já vimos de que forma irresponsável o exército usa este tipo de poder noutros lugares da Cisjordânia. Se eles querem castigar a aldeia ou pressionar, bloqueiam simplesmente o túnel».

 

Segundo um relatório do Banco Mundial publicado no mês passado, restrições de deslocação cada vez mais duras através da Cisjordânia estão a abafar as perspectivas de negócios. O produto interno bruto da Palestina caiu 40% durante a Intifada e o investimento atingiu «níveis precariamente baixos». O relatório nota que a terra deixada às comunidades palestinianas tem sido «fragmentada numa quantidade de enclaves, com um regime de restrições de deslocação entre elas».

 

 Salah Hawaja, que dirige a campanha não-violenta contra o muro, diz que os aldeões querem evitar esse destino para Nilin. «O muro é a primeira etapa para nos fechar num ghetto», diz ele. «O túnel e o controlo do exército sobre ele tornarão inviáveis as fábricas das quais tantas pessoas em Nilin dependem para a sua sobrevivência. Ninguém pode fazer funcionar um negócio sem saber de dia para dia se será capaz de enviar camiões para fora ou de trazer fornecimentos. Não temos outra escolha senão resistir, porque a outra opção é a de ver a nossa economia ser lentamente sufocada até à morte. Israel quer que deixemos esta terra para os colonos, mas nós não vamos para lado nenhum. Vamos continuar a lutar pelo nosso direito a ficar aqui».

 

13 de Novembro de 2008

 

Este artigo foi publicado pela primeira vez em The National (www.thenational.ae)

 

 

 

 


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