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Jan 09
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Um artigo de António Louçã

publicado no jornal Mudar de Vida, 14 de Janeiro de 2009

 

A invasão de Gaza pelo exército israelita reproduz uma série de padrões de procedimento bem conhecidos noutros genocídios do passado. Acusa-se o Hamas de ter provocado a invasão ao lançar morteiros sobre as antigas povoações palestinianas, hoje colonizadas por Israel. O nazismo afirmava também que tinham sido os judeus a provocar a nação alemã, através duma conspiração mundial contra ela. A Alemanha nazi nunca proclamou a sua intenção de exterminar os judeus e sim a necessidade de se “defender”.

Insinua-se que os palestinianos são um povo selvagem, como se prova pelo fracasso da administração palestiniana em Gaza desde a retirada israelita. Primeiro fecham-lhes as fronteiras marítimas, aéreas e terrestres, cortam-lhes o combustível, destroem-lhes as centrais eléctricas, paralisam-lhes a rede de saneamento básico, privam-nos de medicamentos e comida, obrigam-nos a viver com uma ração mínima de água, ainda por cima salobra. Depois apontam-lhes o dedo acusador. O nazismo procedera de forma idêntica ao preparar o extermínio dos Judeus. Expropriara-lhes casas e empresas, expulsara-os dos empregos. A partir de certa altura começara a ghettoização.

Em Gaza vive cerca de um milhão e meio de pessoas, quase todas sem nenhuma possibilidade de conseguir emprego e quase todas dependentes da ajuda alimentar da ONU, quando essa ajuda é autorizada a entrar. O território, que o sociólogo israelita Baruch Kimmerling descreveu como a maior prisão existente a céu aberto, está cercado por todo o tipo de muros.
No ghetto de Varsóvia chegou a viver meio milhão de pessoas, também elas cercadas por um muro com 18 km de comprimento. Várias famílias foram empilhadas na mesma casa, em espaços limitados, com alimentação deficiente e condições de higiene indescritíveis. O resultado só podia ser o descalabro físico e psicológico da população ali concentrada, com milhares de pessoas a morrerem de fome ou de doenças curáveis. Depois de tornarem inevitável o descalabro, os nazis usaram o ghetto de Varsóvia como objecto de reportagens fotográficas e mesmo de um filme de propaganda, para mostrar como os judeus eram “sujos” e constituíam um risco de epidemias.

Durante um certo período, os palestinianos dos territórios ocupados eram vistos pelo Estado israelita como uma reserva de mão-de-obra barata e sem direitos. A economia israelita ganhava com essa massa de trabalhadores, até se perceber que com eles vinha também a resistência, nas suas mais variadas formas, desde as mais subtis às mais desesperadas. Aí passou-se a levantar cada vez mais dificuldades à contratação de trabalhadores palestinianos em Israel e a importar cada vez mais imigrantes doutros países. Do mesmo modo, os responsáveis nazis no Governo Geral da Polónia utilizaram até certa altura a mão-de-obra barata dos ghettos. É famosa a discussão entre os nazis “produtivistas”, que pretendiam continuar a explorar essa mão-de-obra, e os “atricionistas”, que pretendiam liquidar os ghettos e deportar os seus habitantes. Finalmente foram eles a prevalecer.

Diz-se que o Hamas deu “um golpe de Estado”, esquecendo que antes disso ganhara as eleições e fora afastado do governo pela potência sitiante. A verdade é que o Hamas era visto como um símbolo da resistência e a Fatah era identificada com a capitulação. Em consequência, o Hamas ganhou cada vez mais apoio popular e a Fatah passou a receber armamento ligeiro e facilidades logísticas de Israel. As tensões entre ambos foram artificialmente estimuladas a partir de fora. No ghetto de Varsóvia, havia organizações de resistência, principalmente socialistas e sionistas de esquerda, e havia polícias judeus armados pelos nazis. O confronto entre ambos era constante. A resistência cobrava um imposto revolucionário aos proprietários e, sempre que podia, castigava duramente os colaboracionistas judeus.

Atribui-se ao Hamas a intenção maquiavélica que fazer morrer as crianças palestinianas para ter muitos trunfos na sua agitprop internacional. Pouca atenção se dá à preocupação dos adultos palestinianos em evitar que as crianças corram riscos a apedrejar as forças ocupantes. Mas a população judia do ghetto constantemente enviava as suas crianças ao lado cristão de Varsóvia, com risco de vida, para levar mensagens ou fazer contrabando, porque as crianças tinham mais facilidade em passar por brechas do muro.

Acusa-se os palestinianos de criarem uma rede de túneis destinados ao contrabando de armas a partir do Egipto. O constante trabalho de escavação realizado pelos palestinianos seria uma prova da sua conspiração contra a paz. Por esses túneis passa algum armamento, mas passam essencialmente abastecimentos em comida e medicamentos. Ao prepararem-se para a insurreição do ghetto, as organizações de resistência judia escavaram milhares de bunkers subterrâneos. Após a derrota, a via de fuga foi mais uma vez subterrânea: os insurrectos utilizaram a rede de esgotos para escaparem.

O “sofisticado” armamento palestiniano viria, alegadamente, da Rússia, da China ou do Irão; o seu financiamento viria dos emiratos árabes. A verdade é que os palestinianos fabricam morteiros artesanais a partir de adubos, misturados em suas casas com colheres de pau e outros instrumentos de alta tecnologia, como mostrou uma recente reportagem de Henrique Cymermann. Os governos árabes mais uma vez os abandonaram à sua sorte, quando não os apunhalaram cinicamente pelas costas, como fazem o Egipto e a Arábia Saudita. Os combatentes judeus do ghetto de Varsóvia foram também quase totalmente abandonados pela resistência nacionalista polaca e viram-se obrigados a fabricar em suas casas cocktails Molotov e bombas artesanais.

Afirma-se que o Hamas (como em 2006 o Hezbollah) se mistura com a população para a utilizar como “escudo humano”. Mas os insurrectos do ghetto de Varsóvia viveram e combateram até ao fim no meio da população que queriam defender.
A demolição dos edifícios é a táctica israelita que denuncia a sua estratégia de limpeza étnica. Os sobreviventes, privados de um tecto, deverão ser tentados a emigrar. No ghetto de Varsóvia, os bombardeamentos aéreos e a utilização dos lança-chamas revelavam as intenções nazis de liquidação do ghetto.

Não é por acaso que em 2002 o exército israelita distribuiu aos seus quadros, como verdadeiro breviário para a acção contra os palestinianos, o relatório do general das SS Jürgen Stroop, que comandou a destruição do ghetto. Perante o escândalo público causado por essa revelação, o porta-voz do governo de Sharon, Rahanan Gissen, explicou que a escolha se justificava simplesmente por serem muito semelhantes as condições de combate aos palestinianos e as condições de combate aos insurrectos do ghetto. Em Fevereiro de 2008, o vice-ministro da Defesa israelita Matan Vilnai avisou que Israel iria fazer cair sobre Gaza um verdadeiro “Holocausto”. E está a cumprir a ameaça.


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Quinta-feira, 29 Janeiro, 2009

O embaixador israelita na Grécia enviou em Dezembro a Theodoros Pangalos, deputado grego, três garrafas de vinho de boas-festas. Pangalos devolveu-as dizendo: “Reparei que o vinho que me enviou foi produzido nos Montes Golã. Desde criança ensinaram-me a não roubar e a não aceitar coisas roubadas. Não posso, pois, aceitar o presente e tenho de devolvê-lo. O seu país ocupa ilegalmente os Montes Golã que pertencem à Síria, de acordo com a lei internacional. Espero que Israel encontre segurança dentro das suas fronteiras internacionalmente reconhecidas, mas também espero que o seu governo cesse de praticar a política de punição colectiva aplicada em escala maciça por Hitler e os seus exércitos”.

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