Informação sobre a ocupação israelita, a resistência palestiniana e a solidariedade internacional *** email: comitepalestina@bdsportugal.org
29
Set 15
publicado por samizdat, às 13:45link do post | comentar

Jeff Halper, conhecido activista israelita pelos direitos dos palestinianos, acaba de publicar um livro sobre a indústria de armamento israelita, que é aqui comentado pelo jornalista Jonathan Cook



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O novo livro de Jeff Halper faz luz sobre a indústria de armamento, afirmando que Israel é actualmente o país de referência para exércitos e forças de polícia pelo mundo fora.

Desde há 18 anos, Jeff Halper tem estado na linha da frente do conflito israelo-palestiniano, ajudando a reconstruir casas palestinianas demolidas por Israel nos territórios ocupados. Enquanto se prepara para se retirar da direcção do Comité Israelita contra a Demolição de Casas (ICAHD), está a publicar um novo livro sobre Israel.

A principal conclusão de Halper é inquietante. Israel, diz ele, está a globalizar a Palestina.

A investigação considerável do antigo professor de antropologia obrigou-o a especializar-se num tema em que não se sente inteiramente à vontade: a indústria mundial de armamento.

Halper afirma que Israel está a lucrar – tanto financeiramente como diplomaticamente – com os sistemas de controlo que desenvolveu nos territórios ocupados. Está a exportar o seu saber para as elites mundiais preocupadas em proteger os seus privilégios contra opositores externos e internos.

Num mundo supostamente mergulhado numa guerra sem fim contra o terrorismo, bem podemos estar todos face a um futuro como o dos palestinianos.

O livro de Halper, intitulado War Against the People (Guerra contra o povo), que sairá no próximo mês, sugere que Israel fornece uma janela única sobre alguns dos desenvolvimentos recentes mais importantes que ele chama de “guerra segurocrática”.

A tese central do livro surgiu quando ele tentava compreender porquê o minúsculo Israel tem um impacto muito maior que o seu peso económico, político e militar. Como é que Israel tem tanta influência – não apenas nos EUA e na Europa mas, mais surpreendente, em países tão diversos como a Índia, o Brasil e a China?

Nenhuma das explicações habituais – a culpa do Holocausto, o poder dos lobbies, e até o crescimento do fundamentalismo cristão – parecia fornecer uma resposta completa.


Pacificação global

Zeev Maoz, professor israelita de ciências políticas a viver na Califórnia, colocou Halper numa pista diferente. “Ele observou que um dos princípios fundamentais do movimento sionista era de atar a sua carruagem a uma potência e servi-la”, diz Halper.

Os sionistas fizeram isso desde o início ao apoiarem os britânicos na Palestina. Quando se estabeleceu como Estado, Israel ajudou os franceses e os britânicos em Suez em 1956 e, depois de 1967, Israel actuou como substituto dos EUA no Médio Oriente durante a guerra fria.

Hoje, a influência crescente de Israel, defende Halper, reflecte o seu posicionamento no coração da florescente indústria de “pacificação global”, aconselhando e assistindo as forças armadas, as polícias e as agências de segurança nacionais no mundo inteiro.

No mundo pós-11 de setembro, Israel é o rei da segurança – ou o “securityland”, tal como descreveu recentemente um destacado analista israelita.

E, significativamente, Israel começa a usar essa utilidade para transformá-la em apoio político e diplomático, diz Halper, mesmo quando na comunidade internacional cresce a exasperação pelos quase 50 anos de ocupação. Esse apoio, inclusive de muitos dos países árabes, passa com frequência despercebido.

O sombrio aviso do presidente americano Dwight Eisenhower, nos anos 50, de que um “complexo militar-industrial” galopante ameaçava tornar-se no poder real por trás da fachada de uma democracia popular tem de ser actualizado, diz Halper.

Ele descreve a emergência do que chama o complexo do MISSIL: a dominação de espectro completo pelos Estados Unidos e seus aliados, através da actividade conjunta das forças militares, da segurança interna, da vigilância, dos serviços secretos e da legislação.

Depois de décadas a controlar os palestinianos sob ocupação, Israel actua sem rival em todas essas esferas. Ele usa os territórios ocupados como um laboratório gigante para desenvolver e testar novas ideias, tecnologia, tácticas e armamento.


Uma superpotência do armamento

Quando me encontrei com ele na sua casa em Jerusalém Ocidental, Halper quis sublinhar que ele apenas está a esboçar o sistema da nova indústria de pacificação mundial liderada pelos Estados Unidos. Ao fazê-lo, entrou em águas em grande parte desconhecidas. Jornalistas, analistas e académicos afastaram-se das investigações necessárias, queixa-se, e preferem manter-se dentro das suas estreitas especializações.

Halper está interessado numa análise de “grande imagem” que una os pontos, o que o obrigou a explorar um território desconhecido, lendo textos-chave dos estudos de segurança, estudando os trabalhos de peritos em terrorismo e encontrando-se com generais condecorados.

Halper destaca que Israel gasta cerca de 8% do seu PIB anual no orçamento militar, cerca do dobro da despesa per capita dos Estados Unidos. Apesar do seu tamanho, Israel tem mais meios aéreos militares do que qualquer país europeu.

Israel tem quatro das cem maiores fábricas de armamento no mundo e posiciona-se entre os dez primeiros países que comercializam armas, estando em 4º lugar em alguns estudos. O Índice Global de Militarização tem coroado anualmente Israel como a nação mais militarizada do planeta desde 2007.

Em maio, Israel ganhou uma nova distinção, tornando-se uma “ciber-superpotência”; as suas empresas vendem um décimo da tecnologia de segurança informática e de redes no mundo.

Esta concentração nos sistemas militar e de armamento levou Israel a estabelecer relações militares oficiais com 130 países, muitos deles ditaduras conhecidas pelas suas violações dos direitos humanos. Há relatórios que indicam que Israel está comprometido em mais negócios duvidosos e secretos com outros regimes.

Este mês, as Nações Unidas revelaram que Israel estava a quebrar um embargo militar dos países ocidentais, vendendo armas ao Sudão do Sul e ali alimentando a guerra civil. Críticos insinuaram que Israel também tem conselheiros e formadores a operar clandestinamente no Sudão do Sul.


O fim das guerras convencionais

Mas o verdadeiro talento de Israel, diz Halper, tem sido o de explorar uma nova ênfase na “guerra segurocrática”.

“As guerras entre Estados são em grande parte uma coisa do passado”, observa. “No novo tipo de guerra, os aviões F-35 e as armas nucleares são muito menos úteis. O que é preciso actualmente, são as capacidades que Israel desenvolveu após um século de “contra-insurgência” contra os palestinianos. Israel é o país de referência quando se trata de guerra segurocrática”.

A necessidade deste tipo de guerra foi evidenciada na sequência do ataque americano ao Iraque em 2003, afirma Halper. Guerras convencionais entre Estados envolveram tradicionalmente três fases: preparações operacionais, o ataque propriamente dito e o desfecho.

Mas o Iraque - assim como o Afeganistão antes dele - mostrou uma quarta fase: a necessidade de estabilização e permanência da paz a seguir a uma mudança de regime.

A indústria de pacificação, que teve um boom pós-11 de setembro, diz Halper, está a estender-se para o ocidente. À medida que o exército assume muitas das tarefas de uma força policial em guerras externas como a do Iraque e do Afeganistão, de regresso a casa a polícia torna-se cada vez mais militarizada. A polícia em Ferguson não se distingue dos seus compatriotas do Exército americano no Iraque.

O que estamos a ver é o surgimento do Estado de segurança-humana - uma eterna "guerra contra o terrorismo", o mundo num permanente estado de emergência. As tradicionais fronteiras entre a polícia e o exército, entre as agências de inteligência domésticas e externas - entre o FBI e a CIA, se quisermos - desmoronam-se».


Polícias guerreiros

Para as elites que vêem o perigo a pairar em cada esquina, Israel tem a resposta: o que chama de “polícia guerreiro”. Durante décadas, Israel tem desenvolvido forças paramilitares como a polícia de fronteira, assim como os serviços de inteligência como o Shin Bet, cuja área de responsabilidade operacional não está constrangida por distinções entre Israel e os territórios palestinianos ocupados.

“Israel criou há muito tempo o modelo de militares e polícias trabalharem juntos e agora está bem colocado para dar formação ao mundo”, conclui Halper.

Este ponto foi posto em destaque esta semana quando o governo israelita anunciou que um oficial do exército com longa experiência, Gal Hirsch, seria o chefe da polícia nacional de Israel.

O que está aqui em jogo? Não estarão os EUA e a Europa a tentar defender-se contra ameaças reais de terrorismo?

Halper acredita que é importante examinar esses desenvolvimentos dentro de um quadro mais amplo: o do sistema capitalista mundial.

Ele acredita não ser uma coincidência que os EUA estejam a falar de ameaças terroristas mundiais ao mesmo tempo que a riqueza e o poder se estão a desterritorializar, criando um arquipélago de interesses de elites que se estende desde partes dos EUA e da Europa até Singapura e as Ilhas Virgens.

As empresas transnacionais precisam de corredores de segurança para o fluxo de capital e de mão-de-obra, na sua opinião, enquanto grande parte do resto do mundo se transforma em baldios ou bairros de lata.

O problema é como manter uma ordem social favorável ao capitalismo quando grandes extensões do planeta são empobrecidas e os migrantes tentam fugir da sua situação desesperada.

É aqui que entra Israel. O lugar onde Israel desenvolveu as suas ideias e as testou são os territórios palestinianos ocupados, diz Halper.

O controlo de Gaza, por exemplo, oferece um modelo para outros Estados interessados na vigilância interna, na segurança de fronteiras, na guerra urbana, nas ameaças de migração e muito mais.

«Os palestinianos, neste sentido, são um recurso importante para Israel. Sem os territórios ocupados, Israel seria a Nova Zelândia. Seria um destino turístico, não uma potência hegemónica regional.»


Um lugar à mesa da NATO

A indústria de armamento israelita não está apenas dirigida a fazer dinheiro. “Ela coloca Israel à mesa com os países da NATO”. Israel participa em exercícios militares com a NATO e ajuda a desenvolver drones Watchkeeper para os europeus.

Ela também estreitou cada vez mais, diz Halper, as relações com regimes que são ostensivamente seus inimigos, como a Arábia Saudita. “Os sauditas estão a financiar o ISIS [Estado Islâmico], por isso como se pode explicar a sua aliança com Israel? O denominador comum é ‘políticas de segurança’. Não há dois países que tenham interesses mais parecidos que Israel e a Arábia Saudita”.

Quando os sauditas divulgaram a Iniciativa Árabe da Paz em 2002, diz Halper, ofereceram, em troca do fim da ocupação, o reconhecimento pelo mundo árabe de Israel como uma potência hegemónica regional.

Estará a utilidade de Israel a compensar diplomaticamente?

Há indicações de que está cada vez mais. O Economist notou recentemente que a Índia, que tem um longo registo de apoio aos palestinianos, estava entre os cinco países que se abstiveram no Conselho da ONU para os Direitos Humanos no mês passado na votação de uma resolução que criticava Israel pela sua actuação em Gaza no verão passado durante um ataque de 51 dias que matou mais de 500 crianças.

A revista acrescenta que oficiais israelitas acreditam que a dependência crescente da comunidade internacional perante as suas armas reduzirá a longo prazo a sua vulnerabilidade face ao movimento de boicote BDS.

Halper sublinha que a Nigéria, outro país que se tornou dependente do armamento israelita, também traiu recentemente o seu apoio aos palestinianos.

A Nigéria salvou Israel e os EUA de um grande embaraço no passado mês de dezembro quando votou no Conselho de Segurança da ONU contra uma resolução palestiniana pedindo o fim da ocupação. Os Estados Unidos temeram ter de usar o seu veto.

Halper afirma que os Estados Unidos continuam a ser o maior negociante de armamento do mundo, com alguma margem. Mas, no seu esforço para ocupar mais nichos, Israel ajuda a mostrar o verdadeiro objectivo da indústria de armas: não a segurança, mas a pacificação.

“Quando lhe chamamos ‘segurança’, cortamos o debate. Quem não quer segurança? Ma, quando o colocamos como ‘pacificação’, os verdadeiros objectivos tornam-se muito mais claros”.
 
 

O Comité de Solidariedade com a Palestina traduziu o texto a partir da sua publicação em:
http://www.jonathan-cook.net/2015-08-29/in-an-endless-war-on-terror-we-are-all-doomed-to-become-palestinians/

13
Set 15
publicado por samizdat, às 22:23link do post | comentar

Como responder à urgência humanitária? Como enfrentar o fechamento e a xenofobia?

Terça-feira 15 de setembro, às 21h30
no MOB, Rua dos Anjos, 12F (metro Intendente), conversa com:

Ziyaad Yousef - Comité de Solidariedade com a Palestina
José Falcão - SOS Racismo

 

Nas últimas semanas, as imagens de um brutal êxodo forçado passaram a fazer parte do quotidiano mediático. Milhares de pessoas fogem das guerras e da miséria e chegam às fronteiras da Europa, que hesita diante da evidente crise humanitária. Em plena situação de emergência, assistimos aos governos a discutirem "quotas" e até ao levantamento de novos muros. Os resultados de décadas de intervenções militares e políticas desastrosas não comovem as elites europeias. A defesa de interesses particulares ou simplesmente o mais elementar populismo e oportunismo político continuam a prevalecer. Só podemos confiar na solidariedade: perante o drama e a urgência, fazem-se ouvir nas ruas essas vozes, que dão as boas-vindas a quem foge da morte e da perseguição.

Porque estalou agora esta crise de refugiados? O que se passa de realmente novo, quando há tanto tempo as portas da Europa são palco de um drama humano de dimensões catastróficas? Porque continuam milhares de pessoas a ter de arriscar tanto para salvar a sua vida? Porque é essencial conhecer melhor o que se está a passar e encontrar respostas para a emergência e a deriva xenófoba, o Comité de Solidariedade com a Palestina, o SOS Racismo e o MOB propõem esta conversa, em que pretendemos debater estas e outras questões.


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