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Fev 09
publicado por samizdat, às 11:55link do post | comentar

O artigo que se segue foi publicado no diário israelita Haaretz em 12 de Fevereiro. O habitual desassombro do autor, em denunciar os crimes de guerra, não impede que o seu ponto de vista sionista seja fundamentalmente diverso do nosso. Publicamo-lo em todo o caso, como um primeiro comentário ao resultado das eleições israelitas.

 

Gideon Levy

 

A esquerda israelita morreu em 2000. Desde então o seu cadáver jaz por aí insepulto, até ter sido finalmente emitida a certidão de óbito, assinada, carimbada e entregue na terça-feira. O carrasco de 2000 foi o coveiro de 2009.: o ministro da Defesa Ehud Barak. O homem que conseguiu espalhar a mentira sobre não existir parceiro [para a paz] colheu nestas eleições o fruto da sua acção. O funeral teve lugar há dois dias.

 

A esquerda israelita está morta. Nos últimos nove anos, ela invocou em vão o nome do campo da paz. O Partido Trabalhista, o Meretz e o Kadima tiveram pretensões a falar em seu nome, mas era tudo truques e engano. O PY e o Kadima fizeram duas guerras e continuaram a construir colonatos na Cisjordânia; o Meretz apoiou ambas as guerras. A paz ficou orfã. Os eleitores israelitas, que foram enganados para pensarem que não há ninguém com quem dialogar e que a única resposta é a força – guerras, assassínios selectivos e colonatos – tiveram uma palavra clara a dizer nestas eleições: uma venda a preços de liquidação para o PT e o Meretz. Foi apenas a força da inércia que deu a estes partidos os poucos votos que obtiveram.

 

Não havia razão para ser de outra forma. Depois de muitos e longos anos em que quase não veio protesto algum da esquerda, a mesma rua que fervia de raiva após Sabra e Chatila ficou calada e esta ausência de protesto reflectiu-se nas urnas. O Líbano, Gaza, as crianças, as bombas de fragmentação, o fósforo branco, as atrocidades da ocupação – nada disto levou os cobardemente indiferentes a virem para a rua. Embora as ideias da esquerda tenham marcado o centro e por vezes a direita, toda a gente desde o antigo primeiro-ministro Ariel Sharon ao primeiro-ministro Ehud Olmert falou uma linguagem que em tempos foi considerada radical. Mas a voz era a voz da esquerda, ao passo que as mãos eram as mãos da direita.

 

Nas franjas deste baile de máscaras, existia uma outra esquerda, a esquerda marginal – decidida e corajosa, mas minúscula e não legitimada. O fosso entre ela e a esquerda era supostamente o sionismo. Hadash, Gush Shalon e outros que tais estavam foram do campo. Porquê? Porque são “não sionistas”.

 

E o que é hoje o sionismo? Um conceito datado e arcaico, nascido numa realidade diferente, um conceito vago e enganador fazendo a diferença entre o permitido e o proibido. Significa o sionismo colonatos nos territórios? Ocupação? A legitimação de todos os actos de violência e injustiça? A esquerda vacilou. Qualquer declaração crítica sobre o sionismo, mesmo sobre o sionismo da ocupação, foi considerada um tabu que a esquerda não ousava quebrar. A direita obteve um monopólio do sionismo, deixando à esquerda o moralismo doutrinário.

 

Um Estado judeu e democrático? A esquerda sionista disse sim automaticamente, ignorando a diferena entre ambos e não ousando dar prioridade a nenhum dos dois. Legitimação de todas as guerras? A esquerda sionista vacilou novamente – sim ao princípio, não à continuação, ou algo semelhante. Resolver o problema dos refugiados e o direito ao retorno? Reconhecer o mal feito em 1948? Impossível falar disso. Esta esquerda chegou agora, merecidamente, ao fim do seu caminho.

 

Quem quer que deseje uma esquerda significativa tem primeiro de arejar o sionismo na praça pública. Até surigr do mainstream algum movimento que corajosamente redefina o sionismo, não haverá aqui uma esquerda ampla. Não é possível ao mesmo tempo ser de esquerda e sionista, de acordo com a definição direitista do sionismo. Quem disse que os colonatos são legítimos e sionistas e que a luta contra eles não o é?

 

Este tabu tem de ser quebrado. É admissível não ser sionista, tal como o sionismo é hoje correntemente definido. É admissível acreditar no direito dos judeus a um Estado e no entanto combater o sionismo que se envolve na ocupação. É admissível acreditar que se devia discutir o que aconteceu em 1948, pedir desculpa pela injustiça cometida e agir para reabilitar as vítimas. É admissível opor-se desde o primeiro dia a uma guerra desnecessária. É admissível pensar que os árabes israelitas merecem os mesmos direitos – culturais, sociais e nacionais – que os judeus. É admissível levantar questões incómodas sobre o exército israelita como exército de ocupação, e é mesmo admissível querer falar com o Hamas.

 

Se se quiser, isto é sionismo; ou, se se quiser, isto é anti-sionismo. Em qualquer caso, é legítimo e essencial para aqueles que não querem ver Israel cair vítima das loucuras da direita por muitos mais anos. Quem quer que deseje uma esquerda israelita tem de dizer “basta” ao sionismo, ao sionismo que a direita passou a controlar inteiramente.

 


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