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Abr 09
publicado por samizdat, às 12:51link do post | comentar

* Ziyaad Lunat

 

A promessa de "paz económica" de Benjamin Netanyahu anuncia um novo estádio da colonização.

 

Os israelitas ofereceram aos palestinianos vários tipos de "paz". A primeira tentativa que fizeram para chegar aos palestinianos foi em 1948 com uma proposta de "paz racista". A limpeza étnica era a base para a "paz racista", num momento em que os terroristas sionistas expulsaram dois terços da população palestiniana das suas casas.  A lógica era que a expulsão acabaria com o conflito entre sionistas e palestinianos (por via da eliminação de uma das partes), permitindo aos sionistas disfrutarem da paz num oásis etnicamente judeu. Os palestinianos, teimosos como eram, recusaram o Estado sionista racista como base para a "paz".

 

Israel estendeu então incansavelmente a mão aos palestinianos, oferecendo-lhes em vez disso uma "paz militar" em que um Estado sionista armado até aos dentes manteria o medo nos corações dos palestinianos. A lógica era que através da capacidade de dissuasão militar os palestinianos aceitaram a sua condição de expulsos. Pouco depois da expulsão de 1948, os refugiados palestinianos tentavam constantemente voltar às suas propriedades. Os sionistas lançaram então uma campanha contra o direito de regresso. Centenas foram mortos desta forma, incluindo através de massacres como o de Qibya em 1953, Líbano em 1982, Jenine em 2002 e Gaza em 2009. Contudo, os palestinianos continuaram a recusar a dmoinação militar sionista como base para a "paz".

 

Sendo aquelas duas propostas de paz muito toscas, Israel concebeu uma "paz de apartheid" como proposta mais elaborada a fazer aos palestinianos, esperando que eles finalmente reagissem de modo favorável. A separação física entre judeus e árabes palestinianos era a base para a "paz de apartheid". A lógica era que os palestinianos ficariam com uma autonomia limitada para gerir os seus assuntos internos e para construir as suas próprias instituições, mas que as suas reivindicações acabariam por ter de ficar abaixo da plena soberania.  Alguns palestinianos foram cooptados ao assinar os acordos de Oslo 1993, aceitando o apartheid como a base para a "paz".

 

Durante os anos seguintes, Israel consolidou a sua visão para uma "paz de apartheid", a que generosamente se referia como uma "solução de dois Estados". Aos palestinianos foi retirada mais terra para a construção de colonatos só-para-judeus e de estradas só-para-judeus, framgentando os territórios ocupados. As demolições de casas afastaram os indesejados palestinianos de certas áreas e foi construído um muro para cercar os ghettos. A ofensiva de "paz" israelita dividiu os palestinianos entre aqueles que aceitavam o apartheid israelita, nomeadamente a colaboracionista Autoridade Palestiniana de Ramallah, e aqueles que recusam subordinar os seus direitos mais elementares ao racismo de Israel.

 

Na mais recente oferta de paz, o novo primeir-ministro israelita,  Benjamin Netanyahu, prometeu aos palestinianos "paz económica", desta vez literalmente. Anteriores governos israelitas usaram a economia para pacificar os palestinianos e engodá-los com ganhos individualistas e materialistas a curto prazo. Netanyahu, todavia, é astuto e considera que as circunstâncias são hoje diferentes do que eram nos anos 70 ou 90. Ele goza de um apoio ainda mais entusiástico do lado palestiniano e da comunidade internacional.

 

Desde que tomou posse, Salam Fayyad, o primeiro-ministro não-eleito da colaboracionista Autoridade Palestiniana, trabalhou com o enviado do Quarteto, Tony Blair, para desenvolver um plano económico que "revitalizasse" a economia palestiniana. A Conferência de Paris em fins de 2007 juntou 7,4 biliões de dólares para o "Plano de Reforma e Desenvolvimento Palestiniano". Apelou à criação de um "ambiente favorável para o crescimento do sector privado". O documento nada diz sobre liberdades fundamentais e direitos humanos. Além disso, ele coloca Israel na posição de parte motora, normalizando o seu estatuto como ocupante e aceitando explicitamente as estruturas da colonização. O plano apela por exemplo à criação de "checkpoints agradáveis para os turistas".

 

Muito devido à pressão do lobby da segurança, Israel resistiu no passado a facilitar este tipo de iniciativas, recusando desmantelar os controlos de estrada ou permitir o acesso de investidores estrangeiros. Condicionou esses passos à demonstração da vontade dos palestinianos de policiarem e conterem a resistência às acções colonialistas de Israel. As forças de segurança colaboracionistas passaram um teste decisivo durante os 22 dias do massacre israelita em Gaza, quando centenas de protestatários foram violentamente reprimidos e impedidos de expressarem a sua repulsa pelos ataques ou de chegarem aos checkpoints israelitas. As forças de segurança actuaram como leais sub-empreiteiras no interesse de Israel. Israel pretende agora recompensar a camarilha de Ramallah com "medidas de criação de confiança", como incentivo para prosseguirem na colaboração.

 

A "paz económica" proposta por Netanyahu não deveria ser vista apenas neste contexto e sim, também, como o início de um novo estádio de colonização. Israel tem tido êxito em dividir os palestinianos em diferentes grupos, politica e geograficamente separados. Israel também tem tido êxito em criar uma classe política colaboracionista. Israel falhou, contudo, em esmagar o desejo de liberdade dos palestinianos e o seu direito de resistir à agressão. Por outras palavras, Israel tem tido êxito na colonização física da terra, controlando de facto o conjunto da Palestina histórica, mas tem falhado em colonizar as consciências palestinianas, pelo menos na sua maior parte. É esse o objectivo deste novo estádio. 

 

Uma amostra do que está para vir já está à vista na burocracia colaboracionista da Autoridade Palestiniana. Empregando cerca de 300.000 pessoas, ela é a maior empregadora nos territórios ocupados. Estes empregados e as suas famílias dependem da burocracia para manter os seus níveis de vida, beneficiando de incentivos pela obediência e pagando custos pela dissidência política, designadamente perdas de rendimentos e represálias políticas. A "paz económica" de Netanyahu vai significar que, além da estratificação política existente na sociedade palestiniana, vai ser cooptada uma classe capitalista para submeter a classe trabalhadora palestiniana às exigências do mercado. Espera-se que os palestinianos passem a sentir-se demasiado confortáveis com as novas liberdades económicas para não não relegarem os direitos políticos a um segundo plano. A ideia consiste em criar um homo economicus, um individualista, interessado apenas em si próprio, um escravo das estruturas capitalistas de desigualdade. A dependência desta estrutura neo-liberal em vias de formação visa acabar com a acção individual e colectiva. A falsa consciência daí resultante - no quadro dum capitalismo hegemónico - reflecte a relação de forças entre ocupante e ocupado

 

Claro que nem tudo é cinzento e triste. Os palestinianos sobreviveram aos piores atentados contra a sua existência. A ideia de que os palestinianos podem simplesmente ser manipulados é demasiado ingénua nos seus fundamentos. Ela está ligada a uma visão orientalista de um povo inferior, que o considera destituído de princípios, e supõe que os palestinianos de barriga cheia aceitarão a sua condição de oprimidos. Israel esquartejou a palavra "paz" nos seus vários significados. A mais recente proposta de "paz económica" de Netanyahu ficará para os livros de História como uma das muitas tentativas falhadas para controlar um povo que tem fome e sede de justiça.

 

Ziyaad Lunat é um activista no movimento de solidariedade com a Palestina e co-fundador da Palestine Solidarity Initiative (www.palestinesolidarity.org). Pode ser contactado pelo e-mail z.lunat@gmail.com.

 

Fonte: The Electronic Intifada, 15 April 2009

 


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