Informação sobre a ocupação israelita, a resistência palestiniana e a solidariedade internacional *** email: comitepalestina@bdsportugal.org
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Jul 09
publicado por samizdat, às 12:19link do post | comentar
Esta é a primeira parte de uma entrevista a Haidar Eid, feita pelo médico português e membro do Comité de Solidariedade com a Palestina, André Traça, durante a sua viagem a Gaza, em Junho deste ano.  Haidar Eid é professor na Universidade de Al-Aqsa, em Gaza, doutorado na África do Sul em teoria pós-colonial e literatura de resistência, e membro fundador do PACBI (Palestinian Campaign for the Academic Boycott of Israel/Campanha Palestininana para o Boicote Cultural e Académico de Israel)
Pergunta: Fale-me um pouco sobre o PACBI. 
Eu sou membro da Comissão executiva do PACBI. Os restantes membros estão na Cisjordânia, em Inglaterra e ainda um em Nova Iorque. Creio que temos de começar a estabelecer laços com órgãos de estudantes por todo o mundo. Os estudantes locais activistas desta campanha querem que as instituições académicas no exterior sejam pressionadas pelos seus estudantes para denunciarem empresas que mantêm laços comerciais com o apartheid israelita. No fundo, a mesma metodologia que foi aplicada nos anos 60, 70 e 80 contra o apartheid sul-africano e que produziu resultados. E isto, graças à mobilização de organizações da sociedade civil, estudantes, mulheres, académicos, comunidades negras pelo mundo, movimentos de libertação nacional. Foi isso o que permitiu acumular pressão sobre a comunidade internacional, culminando no desenvolvimento em larga escala da campanha de BDS (boicote, desinvestimento e sanções). O que nós tentamos fazer aqui é comparar o desenvolvimento da campanha BDS contra o apartheid sul-africano com aquela contra o apartheid israelita. A primeira vez que existiu um apelo à comunidade internacional da parte dos movimentos negros anti-apartheid na África do Sul foi na sequência do massacre de Sharpeville. A mensagem destes movimentos era clara: dada a disparidade de forças entre nós e o regime, não conseguiremos ganhar esta guerra contra o apartheid sozinhos. É então lançada a campanha global de BDS.

P.: Falando da guerra... 
Não houve uma guerra, houve um massacre. Houve uma acesa luta de resistência levada a cabo pelos diversos combatentes de libertação, e esta foi a razão pela qual Israel não pôde ocupar a faixa de Gaza... não conseguem mesmo. Eu vivo em Tal-al-Hawa [bairro da cidade de Gaza] e vi, ouvi e testemunhei esta resistência feroz. A questão é que existe uma gigantesca disparidade. De um lado temos o quarto mais poderoso exército do mundo, mais de 200 ogivas nucleares, tanques Merkava, F-16, fósforo branco, DIME... E o que temos do outro lado? Kalashnikovs, rockets toscos...
  P.: Os mass-media ocidentais ainda assim esforçaram-se por transmitir a imagem que a agressão teria sido um sucesso do ponto vista israelita, com poucas baixas, uma retirada de acordo com o planeado... Uma vitória politica e não tanto militar? 
Se houve poucas baixas militares israelitas? Quem o diz são os israelitas, não temos necessariamente que acreditar. Mesmo que acreditemos, existe uma razão para isso. A razão é terem evitado o combate directo com as forças da resistência. Do outro lado, também temos um número reduzido de baixas nos combatentes da resistência.
Dou-te um exemplo, o meu bairro, Tel-al-Hawa, talvez o ponto mais fraco na cidade de Gaza devido às suas ruas largas. A primeira vez que tentaram ocupar Tel-al-Hawa não conseguiram. Eu, que obviamente não conseguia dormir, assisti com os meus próprios olhos aos tanques a serem confrontados com uma forte resposta da resistência. Passados três dias regressaram e, após terem matado várias dezenas de civis, a maioria dos quais mulheres e crianças, conseguiram de facto ocupar o bairro. É isto que os vossos media consideram uma vitória? Então, creio que também se pode dizer que a ditadura salazarista ganhou a guerra às forças democráticas de Portugal e aos movimentos de libertação africanos.  
E hoje, Gaza foi transformada no maior campo de concentração do planeta. E de facto custa-me compreender como é que as vítimas do nazismo se permitem ser hoje em dia os fazedores de vítimas... E repara bem, a questão judia não é uma questão palestiniana, nem tão pouco uma questão árabe ou uma questão islâmica. É uma questão europeia. Os europeus tinham um problema com os judeus e nós é que pagamos por isso. E, infelizmente, os media europeus reflectem os seus complexos por 6 milhões de judeus mortos e séculos de anti-semitismo. Nós nunca fizemos nada disso. Estes pogroms cometidos pelo nazismo e pela Europa foram repetidos pelas suas vítimas, e nós aqui em Gaza é que pagamos o preço. E desculpa se uso uma linguagem muito forte. 
Prova-se então que a comunidade internacional, representada pelos seus governos e pelos mass media, é de facto cúmplice dos crimes de guerra cometidos contra o povo palestiniano. Dizer que Israel ganhou a guerra, dizer que as 450 crianças que morreram são combatentes ou terroristas, que as 125 mulheres, que os 95 idosos também o eram, se é assim que a Europa e os seus principais meios de comunicação social definem uma vitória, então isso significa que Israel conseguiu “nazificar” a mente europeia. Gaza 2009, tenho más notícias, Hitler não morreu, Hitler conseguiu “nazificar” a consciência das vítimas do nazismo. Israel regressa como uma potência nazi. E estas não são as minhas palavras, isto é dito por jornalistas israelitas corajosos, antes e durante a guerra: “Israel assemelha-se agora à Alemanha dos anos 30”. É óbvio que Hitler também falava de grandes vitórias, obtidas contra judeus inocentes, mulheres e crianças. E foi isso uma vitória? E à época, por toda a Europa, os europeus que lutavam pela liberdade orgulhavam-se da grande Intifada que foi o levantamento de Varsóvia. 
Como se define uma vitória militar? Se se julga uma vitória militar pelo número de mártires, pelo número de mortes de crianças, mulheres e idosos, cujo número neste conflito andou perto dos 1300, se for essa a definição de vitória, então também podemos dizer que Hitler ganhou a Segunda Guerra Mundial. 
Como se define uma vitória ou uma derrota? Antes de mais, temos que olhar para os objectivos desta guerra. Primeiro objectivo, todos conhecemos, derrubar o governo do Hamas na Faixa de Gaza; segundo, pôr fim ao lançamento de rockets; por último, criar uma nova realidade politico-militar no terreno, isto é, trazendo de volta as forças pró-acordos de Oslo. Qual destes objectivos foi alcançado? Nenhum. O Hamas continua no poder, a resistência continua viva e as forças pró-Oslo não voltaram à Faixa de Gaza. Mais ainda, a guerra levou ao enfraquecimento das forças pró-Oslo na Cisjordânia. Portanto, acho que podemos afirmar que houve uma vitória. 
E tendo em consideração esta desigualdade entre o movimento de resistência e as forças israelitas, eu creio que o movimento de resistência, pela primeira vez, se tornou criativo na forma como resiste à ocupação. Para isto terá contribuído a mensagem positiva do Hezbollah e outras forças de resistência libanesas quando, em 2000 e em 2006, repeliram as tropas israelitas do sul do Líbano, o que compreendeu uma mudança táctica no modelo de confronto da invasão. Em segundo lugar, creio que os palestinianos de Gaza adoptaram o programa do movimento de resistência. Israel esperava que a população se rebelasse contra o movimento de resistência e, em particular, contra o governo, governo esse com o qual muitos não nos identificamos e discordamos ideologicamente, mas que foi democraticamente eleito. Governo este que percebeu qual devia ser o seu papel nesta situação, ao lado dos outros movimentos de resistência, incluindo a Frente Popular de Libertação da Palestina, a Jihad Islâmica e até mesmo a Fatah – e isso tem que ser levado em consideração. E o que se tem que perceber é que a vitória histórica da resistência se deveu à resistência dos palestinianos de Gaza, porque estes decidiram não se render à brutalidade da agressão genocida e é isso que torna possível a hipótese da resistência ter sucesso. E é sobre este ponto de viragem que a dinâmica do conflito israelo-palestiniano se deve construir, o que infelizmente ainda não aconteceu. O movimento de resistência palestiniano e as suas direcções em particular têm que lidar com a base da população. Creio que se conseguiu uma grande vitória, e neste sentido não quero dizer que nós, em Gaza, ou que o movimento de resistência no Líbano tenhamos derrotado Israel, apenas se derrotou a agressão israelita. 
E, se compararmos o massacre de Sharpeville com o de Gaza 2009, em Sharpeville foram assassinadas 69 pessoas, e em Gaza, 1500, 90% dos quais civis, no espaço de 22 dias. E isto para não falar das vítimas do cerco, nem das vítimas da primeira e da segunda Intifada ou das dezenas de milhar de vítimas mortais desde 1967. Basta, estamos fartos!
Apreciando o esforço que as delegações que aqui chegam fazem e a solidariedade que demonstram, queremos que essa solidariedade se transforme em acção. Sejamos práticos. Por exemplo, que universidades em Portugal têm laços com universidades em Israel? Estas instituições devem ser visadas. Com cartas, panfletos, e-mails, mensagens, etc. Essa é a coordenação importante que nós aqui no terreno desejamos ter com movimentos de solidariedade no exterior. E repara, o mais interessante é que esta campanha resulta de um apelo a partir de Gaza. Em 2004 tem início a PACBI, e em 2005 tem início a campanha de BDS na sequência de uma tomada de posição conjunta por 177 organizações pelo mundo fora, apelando à comunidade internacional para intervir no sentido de apoiar os palestinianos e tratar Israel da mesma forma que o apartheid sul-africano foi tratado. E isto foi ganhando mementum, sobretudo recentemente, quando, na segunda semana do massacre, um grupo de organizações da sociedade civil redigiu um texto de conteúdo forte e assertivo que contou com o apoio de múltiplas organizações internacionais, chamando a comunidade internacional para intervir imediatamente no sentido de pôr fim à guerra genocida contra os civis de Gaza. E quero frisar que a guerra foi de facto contra os civis de Gaza.

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