Informação sobre a ocupação israelita, a resistência palestiniana e a solidariedade internacional *** email: comitepalestina@bdsportugal.org
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Mai 10
publicado por samizdat, às 20:55link do post | comentar

Esther Mucznick já nos habituou a quase tudo. Mas a sua crónica dada à estampa no "Público" de 6 de Maio excede os limites. Receosa de que o filme "Lebanon", de Samuel Maoz, possa prestar-se a uma leitura crítica sobre os crimes de guerra sionistas, Mucznick elogia o instinto de sobrevivência: "Sem esse instinto, não há guerra possível". Aí está, portanto, um instinto que faz muita falta.
E prossegue: "Se quiseres proteger os teus soldados, não podes ser moral. Se escolheres actuar moralmente, a maioria dos teus soldados morre". Esta é, com efeito, uma filosofia enraizada, que justifica todos os crimes de guerra. Para "protegeres os teus soldados", recorres à "prática de vizinhos", que consiste em sequestrares aleatoriamente civis palestinianos para serem expostos, como escudos humanos dos soldados ocupantes, sempre que estes entenderem que podem estar perante uma possível linha de fogo. Dirá Mucznick, como disseram durante muito tempo - até um dia - os tribunais israelitas: é um comportamento justificado, porque protege os soldados. Mas as Convenções de Genebra baseiam-se na ideia de que também há obrigações com os combatentes do inimigo - e mais ainda com os não-combatentes. Tudo o resto se baseia na ideia racista de que as vidas dos outros valem menos do que as nossas.
Com a sua filosofia, Mucznick só tem de propor que o Estado de Israel - agora em vias de ser acolhido na OCDE pelas democracias ocidentais - rompa formalmente com as Convenções de Genebra, ficando assim dispensado de responder a relatórios como o de Goldstone. Claro que aí ainda ficaria por explicar em que é que o bombardeamento aéreo de cidades densamente povoadas é tão necessário para proteger os soldados israelitas
Mucznick conclui do seu arrazoado que "a coragem de Maoz foi a de encarar 'a besta' que há em cada ser humano". É isso também que diz um nazi fictício, representativo de tantos nazis reais do seu tempo - Max Auer, o protagonista de "As Benevolentes", que se desculpa dos seus crimes dizendo que toda a gente seria capaz de cometê-los, porque em toda a gente há uma "besta".
A "investigadora" conclui que a condenação dos crimes de guerra é algo "de quem vê a guerra de longe, de muito longe". Tem razão: nós condenamos os crimes de guerra e hoje, felizmente, vemos a guerra de longe. Ela justifica-os estando tão longe como nós.

 

(carta enviada à directora do Público e publicada no jornal em 12.5.10)


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