Informação sobre a ocupação israelita, a resistência palestiniana e a solidariedade internacional *** email: comitepalestina@bdsportugal.org
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Ago 11
publicado por samizdat, às 14:38link do post | comentar

Nos últimos seis meses, vários meios de comunicação social têm publicado artigos sobre o chamado “novo” movimento não-violento palestiniano. Dois erros têm acompanhado esses relatos e análises. O primeiro é o uso da palavra “não-violento”, com as suas conotações; o segundo é o discurso em torno do movimento.

Infelizmente, a fonte desses artigos são muitas vezes meios de comunicação respeitados que informam honestamente sobre a causa palestiniana, incluindo Al Jazeera English. […] Os artigos estão repletos de citações como “mas a resistência tradicional de queimar pneus e atirar pedras não mudará de um dia para o outro. Temos de dar ao mundo uma imagem de resistência palestiniana não-violenta”; e “continuaremos a actuar com a não-violência até que fique muito claro na imprensa internacional quem é que viola os direitos humanos”.

Publicado em 6 de Julho de 2011


1. A resistência palestiniana não-violenta é coisa que não existe

Para começar, o perigo de usar a expressão “resistência não-violenta” insinua que qualquer outra forma de resistência é violenta, daí dar-lhe um sentido negativo.

Em árabe, os palestinianos não distinguem entre resistência violenta e não-violenta, mas antes entre resistência armada e resistência popular. O povo palestiniano e as facções políticas apoiaram-se nas duas formas, assim como noutras, ao longo do século passado.

Na verdade, e contrariamente a outros regimes coloniais na África do Sul ou na Argélia, o objectivo do colonialismo sionista é o de limpar etnicamente a Palestina e expulsar o seu povo indígena. Por isso, pelo simples facto de existirem e de se manterem firmes na sua terra, os palestinianos estão a resistir.

Embora eu não pretenda defender aqui defender uma forma específica de resistência, tem de haver uma distinção clara entre duas noções distintas.

Por um lado, há tentativas de impor a ideia de que a não-violência é a única forma de resistência “permitida”, portanto insinuando erradamente que outras formas de resistência são violentas, imorais ou ilegais. Por outro lado, um consenso geral entende a resistência como um direito legítimo do povo palestiniano, como o direito de qualquer povo que vive sob a opressão, colonização e ocupação estrangeiras.

Segundo esse ponto de vista, a resistência popular é mais eficaz do que a resistência armada nesta fase da luta. Devido à divergência entre estas duas visões, a expressão “violento” estendeu-se para abranger o lançamento de pedras aos tanques israelitas ou aos checkpoints militares fortemente armados.

Muitas formas diferentes de resistência popular caracterizaram a primeira Intifada, entre as quais as crianças a saltarem de casa em casa durante o recolher obrigatório para distribuir açúcar e farinha aos vizinhos, os jovens a jogar à bola nas esquinas das ruas para poderem avisar os grafiteiros quando passavam os carros militares, trabalho voluntário, greves e boicotes comerciais, assim como protestos de massa que incluíam o lançamento de pedras aos postos avançados armados e aos veículos militares.

A verdade é que enfrentar uma máquina de guerra brutal com pedras não é mais que um gesto simbólico. É um símbolo da grande desproporção entre o povo palestiniano e a máquina de guerra israelita.

Pedras atiradas aos tanques israelitas ou a outros veículos armados eram meios para o povo indígena da Palestina, de demonstrar a sua recusa da ocupação e da opressão. Jovens, mulheres, idosos e todos os sectores da sociedade participaram nesta forma de resistência.

As pedras podiam ser violentas, no entanto, quando usadas sistematicamente pelos soldados israelitas para esmagar os membros dos palestinianos, como parte da política ordenada por Yitzhak Rabin, então ministro da Defesa israelita, para “partir-lhes os ossos”. O Knesset recusou investigar a ordem de Rabin e este nunca foi responsabilizado.

Além do mais, os meios de comunicação social que defendiam essas tácticas não-violentas escolheram ignorar por completo o movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra Israel. Embora não caiba nas duas formas de resistência referidas acima, ele só pode ser classificado como uma táctica estritamente não-violenta, que tem como objectivo pressionar Israel a respeitar as suas obrigações perante a lei internacional.

O crescimento evidente do movimento BDS e a pouca cobertura que tem sido dada aos seus êxitos pela maior parte dos principais meios de comunicação social só podem ser um indicador da hipocrisia da cobertura da resistência palestiniana: eles só falam das formas de resistência que classificam de relevantes – ou, atrevo-me a dizer, de válidas.

Por fim, é importante compreender o contexto do conflito palestino-israelita, muitas vezes apresentado como “complexo”. Na realidade, e com o risco de sobre-simplificar, trata-se de um conflito entre um opressor e um oprimido. Dentro deste contexto, o uso da violência e da força pode ser perfeitamente exemplificado com as palavras de Paulo Freire:

Nunca na história a violência foi iniciada pelos oprimidos. Como poderiam eles dar início à violência se eles próprios são o resultado da violência? Como poderiam eles ser os promotores de algo que, ao instaurar-se objectivamente, os constitui? Não haveria oprimidos se não houvesse uma relação de violência que os conforma como violentados. Inauguram a violência os que oprimem, os que exploram, os que não se reconhecem nos outros; não os oprimidos, os explorados, os que não são reconhecidos.”



2. O discurso e a terminologia ocidentais

O segundo problema colocado por esta narração e pelo discurso em torno destes artigos é mais importante e merece mais críticas.

Os artigos apresentam o movimento actualmente chamado não-violento como a forma "correcta" de resistir, em que a opção dos palestinianos pelo método de resistência correcto demonstrará como merecemos que nos dêem os nossos direitos e independência.

Apresentar os nossos direitos à liberdade e à autodeterminação como dependentes do nosso método de resistência escolhido é, na melhor das hipóteses, errado e, na pior, racista.

Insinuar que os nossos direitos não foram respeitados porque não demonstrámos merecê-los liberta Israel da necessidade de respeitar a lei internacional e de nos garantir os nossos direitos básicos, e também desculpa os países hegemónicos ocidentais que recompensarem Israel com a impunidade total para que este continue com as suas violações e crimes.

É preciso tornar claro que o nosso direito ao retorno e a acabar com a ocupação, a colonização e o apartheid israelitas está garantido pelas convenções internacionais e que o seu cumprimento é um dever – independentemente dos métodos de resistência ou de quaisquer outros factores que escolhemos para chegar a esse fim.

Alem disso, sugerir que o protesto popular é um fenómeno novo na Palestina, onde “chegaram os verdadeiros manifestantes ao estilo não-violento de Martin Luther King”, é uma distorção vergonhosa dos factos pela imprensa.

A resistência na Palestina, e em particular a resistência popular, tem mais de um século, onde a grande maioria da resistência à colonização sionista, ao mandato britânico e mais tarde à opressão de Israel tomou a forma de levantamentos civis e populares. A resistência popular palestiniana só pode ser ao estilo palestiniano! Os jornalistas têm de deixar de fazer jornalismo preguiçoso e estender o seu período de memória para além de dez anos.

Assim, é-nos permitido seguir os valores e as figuras ocidentais ou os exemplos de qualquer dos que eles acham aceitáveis, como Gandhi e Martin Luther King (MLK). E se nós quisermos um Che Guevara ou um Malcom X palestinianos quando todos os outros esperam pelo próximo “Gandhi palestiniano”?

Foram eles, apesar de tudo, que analisaram e se concentraram sobre a “estrutura internacional dos poderes ocidentais”, uma estrutura que só desenvolveu as suas influência e ferramentas a partir dos anos 50 e 60. E, embora tenham o maior respeito pelos satyagraha de Gandhi e a batalha de MLK no movimento pelos direitos civis, os palestinianos não precisam de olhar para muito longe para encontrar modelos dentro da história e da herança da Palestina para meios alternativos de resistência.

Neste assunto, como noutros, a hipocrisia dos poderes ocidentais prevalece.

A democracia só é aceitável se os resultados forem aqueles que eles escolheram – nos países em vias de desenvolvimento só são permitidas as políticas económicas neoliberais que agradam aos verdadeiros eixos do mal (Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e a Organização Mundial do Comércio); e as comunidades queer pelo mundo fora têm de seguir os mecanismos ocidentais de orgulho e de defesa.

Embora estes todos sejam assuntos aparentemente diferentes, o mesmo paradigma se aplica a todos eles: as ideologias hegemónicas ocidentais e as formas de acção são usadas para medir a legitimidade de outras sugeridas pelo mundo fora.

Em particular para os palestinianos, o discurso é uma das questões-chave.

Israel tem o mundo nas suas mãos, não porque o ameaça pela força ou pelo poder militar, mas porque controla o discurso. É a razão pela qual, quando um grupo de israelitas assedia palestinianos e planeia assassinar um chefe de mesquita, os membros desse grupo são referidos na imprensa como “bandidos e gangs”, ou classificados de mentalmente instáveis, como Baruch Goldstein – nunca como “terroristas” ou “extremistas”.

Isto assemelha-se aos processos de controlo indirecto aplicados através de séculos de colonialismo, o mesmo lugar-comum foi usado para reforçar o poder dos colonizadores: os bárbaros primitivos vs o povo iluminado.

Uma recente campanha publicitária demonstra isto mesmo: “Em qualquer guerra entre o homem civilizado e o selvagem, apoie o homem civilizado. Apoie Israel. Derrote a Jihad.”

O nosso papel enquanto palestinianos é o de estarmos atentos às distorções do discurso e de combatermos esse discurso. Se o conseguirmos, será muito mais difícil para alguém como Benjamin Netanyahu humilhar o povo palestiniano e a chamada “liderança” palestiniana perante o congresso americano, como este fez muito recentemente.



A forma correcta de resistência?

Embora não haja dúvida de que, no seio da sociedade palestiniana, todas as formas de resistência à opressão têm de ser respeitadas e valorizadas, é importante não se deixar levar pelo discurso ocidental, especialmente quando muitos de nós entre a juventude da nação já estão expostos a ele através dos meios da comunicação social, da internet ou dos estudos no estrangeiro.

É falsa a ideia de que só existe um meio “correcto” de resistência ou de que a resistência armada e popular é contraditória (ou pelo menos carece de evidência histórica) quando simplesmente nos debruçamos sobre a história colonial (Argélia, África do Sul, etc.).

A prioridade nos dias de hoje, efectivamente, deveria ser de englobar amplamente todos os movimentos, grupos e indivíduos na reivindicação de criar uma nova instituição de liderança legitimada que represente todos os palestinianos independentemente da sua proveniência. Essa entidade deveria ser capaz de identificar democraticamente (e internamente) a forma de resistência mais eficaz.

Nos artigos referidos acima, os participantes palestinianos nos protestos populares são muitas vezes citados da seguinte forma: “Se alguns adolescentes atiraram pedras, é porque falharam aparentemente em assimilar os workshops sobre a não-violência que os organizadores planearam”, e porque eles “insistem em que nunca se atiraram pedras até que as tropas israelitas começassem a lançar gás lacrimogéneo, e que isso é feito apenas por adolescentes”.

Essas declarações mostram os manifestantes palestinianos como sendo apologistas do gesto simbólico de atirar pedras – e isso acontece em detrimento de se questionar a presença das forças de ocupação de Israel.

A história mostrou que o uso de uma extrema violência por parte de Israel é uma constante – quaisquer que sejam as acções violentas ou não-violentas dos palestinianos. É fundamental compreendermos que através dos anos da nossa luta contra o sionismo e o colonialismo, a resposta sionista às várias formas de resistência foi, na sua essência, sempre a mesma: a violência.

Há sessenta anos, há quarenta anos, durante a primeira e a segunda Intifadas, e durante as recentes marchas “pacíficas”, a resposta israelita foi sempre a violência e a efusão de sangue. Jovens homens e mulheres têm sido abatidos com munições reais e de borracha, espancados com cassetetes e sufocados com gás tóxico.

Seria ingénuo esperar que a resposta israelita fosse diferente no futuro, como também não seria preciso resistir de forma não-violenta para mostrar a horrenda face da ocupação israelita, uma vez que isso é demonstrado em qualquer simples acção do dia-a-dia dos palestinianos.

Independentemente da nossa estratégia, Israel continuará a negar a nossa existência como nação, não admitirá a limpeza étnica realizada em 1948 e continuará com as suas medidas repressivas de opressão contra os palestinianos em todo o lado.

A nossa tarefa consiste em concentrarmo-nos nas semelhanças e nos pontos de acordo respeitantes à resistência e não nas diferenças.

O povo palestiniano tem de mobilizar à sua volta para resistir ao apartheid israelita através de um programa resultante de uma discussão no seio de uma entidade verdadeiramente representativa, o que só é possível através de eleições directas para um novo Conselho Nacional Palestiniano.



Ibrahim Shikaki é diplomado pela UC Berkeley. Trabalha como investigador associado no Instituto de Investigação Económica da Palestina (MAS) e é um organizador da juventude residente em Ramallah.

Versão original do artigo em:

http://english.aljazeera.net/indepth/opinion/2011/06/201162895553754742.html

 

Tradução do Comité de Solidariedade com a Palestina


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