Informação sobre a ocupação israelita, a resistência palestiniana e a solidariedade internacional *** email: comitepalestina@bdsportugal.org
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Jan 08
publicado por samizdat, às 12:23link do post | comentar

 

Meron Benvenisti

O prémio para o comentário mais cínico vai para o presidente George W. Bush, que em Ramallah disse sobre os pontos de passagem das Forças de Defesa de Israel: “Vocês gostarão de saber que a minha comitiva automóvel com 45 carros pôde atravaessar tudo sem nunca ser detida”. Claro que ele estava a ser irónico mas, mesmo se acrescentou que não tinha “bem a certeza que isso suceda a qualquer pessoa”, alguém devia lembrar-lhe que na casa do enforcado não se fala em corda. Muito bem, estamos então perante uma falta de compreensão política e humana, mas não haverá também aqui uma ponta de sensibilidade e de empatia?

Esta cínica observação impressionou muito pouco os que a ouviram. Ao fim e ao cabo, as pessoas que se encontraram com Bush não são as que se sujeitam às humilhações que milhares sofrem todos os dias nas barragens e pode ser que recebam mesmo um tratamento VIP. Porque é que essas pessoas haviam de mostrar-se descontentes com um disparate espontâneo, se não acham necessário reagir a uma coisa estúpida que alguém no séquito de Bush formulou para o presidente? “Um queijo suíço não vai funcionar, quando se tratar de definir um Estado. Estou a falar a sério”, dissera Bush. Logo depois, ele disse que o desenho da futura fronteira vai reflectir a realidade actual. Mas é a realidade dos colonatos que criou o “queijo suíço”.

E, na verdade, para quê discutir minudências se o próprio evento é a encarnação do cinismo? O presidente dos EUA visita um punhado de palestinianos que se embrulham em títulos pomposos, como se representassem uma autoridade soberana, e discute com eles sobre a paz que conduzirá ao estabelecimento de um Estado palestiniano dentro de um ano. Estes dirigentes devem a sua existência à protecção da ocupação israelita – que, evidentemente, condenam  e sobre a qual conseguiram arrancar ao presidente o comentário de que “temos de acabar com ela”. E devem a sua sobrevivência a uma ajuda financeira sem precedentes.

Com um cinismo pasmoso, têm a pretensão de conduzir negociações para pôr fim ao conflito, quando nem sequer representam um quarto da população palestiniana – a parte que vive na Margem Ocidental. Estão a discutir as “questões centrais” do conflito quando o que é central nos seus esforços é conseguir a enorme soma de dinheiro que lhes foi prometida na Conferência de Paris. Esse dinheiro só chegará às mãos deles se se concentrarem na aparência das negociações. Esses biliões permitir-lhes-ão continuar a alimentar a sua inchadíssima burocracia e o seu sistema de doações caritativas que cobre a maioria da população da Margem Ocidental. Mas é impossível alguém vir queixar-se a um punhado de falhados que estão só a tentar sobreviver. O dirigente da única superpotência está a usá-los para melhorar a sua própria posição. Claramente, quando já não precisar deles e achar que já não tem qualquer utilidade a dar-lhes, vai despachá-los sem um instante de hesitação.

Bush e Abu Mazen (o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmud Abbas), para quem o cinismo é um meio de sobrevivência, são acompanhados pelo maior de todos os cínicos, que fez do cinismo uma arte. O primeiro-ministro Ehud Olmert pode dar lições a Bush e Abbas sobre como tecer uma história que explora as esperanças de um povo ingénuo e se apoia no sentimento de que as pessoas importantes estão ocupadas com alguma coisa. É um sinal de que essa alguma coisa é importante.

O cinismo de Olmert é assombroso. Ele diz coisas bombásticas sobre como  foi “eleito com um plano diplomático amplo, quer levar a cabo um acordo e pretende realizar a sua visão”. Ele conduz negociações sabendo à partida que não pode levá-las por diante e a bom termo, já para não falar de pôr em prática o acordado. Ele dilui intencionalmente a diferença entre um “acordo de gaveta” teórico e um acordo que haja o empenhamento em aplicar. Como nunca obterá o primeiro, não precisa de preocupar-se com a aplicação do segundo. Omert joga com os últimos restos do desejo de paz do povo e vai explorar sem vergonha a fraqueza dos palestinianos, que têm de negociar sobre a paz, ostensivamente, enquanto carradas deles estaõ a ser mortos pelo exército israelita.

Todos os meios se justificam para sobreviver politicamente – os três cínicos precisam uns dos outros para sobreviverem.

* Meron Benvenisti é dirigente do partido da esquerda israelita Meretz e foi vice-presidente da Câmara em Jerusalém Oriental (1971-1978)
Fonte: www.haaretz.com, 18.01.08

 


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