Informação sobre a ocupação israelita, a resistência palestiniana e a solidariedade internacional *** email: comitepalestina@bdsportugal.org
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Mai 16
publicado por samizdat, às 23:18link do post | comentar

Todos os anos, a 15 de maio, se comemora a Nakba, a catástrofe que se abateu sobre o povo palestiniano quando foi criado o Estado de Israel nas suas terras. Miko Peled, escritor israelita, defensor da BDS, escreveu neste dia o artigo que traduzimos a seguir.

Texto original em: http://ahtribune.com/history/904-nakba-day.html

 

Nakba Day f9858

 

Reflexões sobre o Dia da Nakba: 68 anos de violação e pilhagem sionista na Palestina


Sessenta e oito anos depois da ocupação da Palestina as pessoas começam a referir-se à violação e à pilhagem sionistas da Palestina como um “conflito”. É o “conflito israelo-palestiniano” ou a “questão” israelo-palestiniana; alguns até lhe chamam de “disputa” e outros de “problema”. O meu amigo Dr. Mads Gilbert disse-me recentemente que se alguém na Noruega se referisse à ocupação alemã da Noruega como um “conflito” ou “disputa”, seria expulso da sala. Espero que isso se torne verdade em França ou na Bélgica e até na ilha de Jersey. Ninguém se referirá à ocupação alemã, para não mencionar as políticas alemãs para com os judeus sob o regime nazi, como um conflito. No entanto, ao falarem da Palestina ocupada, onde a limpeza étnica e o genocídio têm sido realidade desde há 68 anos, as pessoas muitas vezes abstêm-se de usar o termo ocupação – sobretudo relativamente a 1948, quando a parte do leão da Palestina foi ocupada.


Há duas coisas que não estamos autorizados a dizer sobre a Nakba palestiniana. Duas coisas que a sociedade ocidental “civilizada” acha pouco educadas. A primeira é comparar ou simplesmente justapor a experiência judaica sob o regime nazi à experiência palestiniana sob o regime sionista. A segunda é afirmar que a experiência palestiniana é um genocídio lento e metódico. Portanto, vou já pedir desculpa por quebrar as regras da sociedade civilizada e vou tratar já aqui destas duas questões. Os judeus da Alemanha e das partes da Europa que foram ocupadas pela Alemanha sofreram com as políticas nazis de racismo e extermínio físico desde o momento em que Hitler chegou ao poder em 1933 até à derrota da Alemanha em 1945. Os palestinianos têm vivido sob as políticas sionistas de apartheid, limpeza étnica e lento genocídio desde 1948 e não se vê um fim à vista. É verdade que o plano nazi de exterminar os judeus era rápido, violento e muito eficaz, e felizmente os nazis foram derrotados e o genocídio terminou. Também é verdade que as políticas sionistas não reflectem as da Alemanha nazi e a matança dos palestinianos não tem sido tão horrenda. Ao mesmo tempo, as famílias de Gaza que perderam os seus entes queridos em bombardeamentos israelitas indiscriminados, e milhões de refugiados palestinianos que estão aprisionados em campos devem achar essas diferenças irrelevantes.


Caso haja alguma dúvida de que o que o regime sionista na Palestina, isto é, Israel, está a fazer é genocídio, o artigo 2º da Convenção das Nações Unidas sobre genocídio pode clarificar as coisas. Ele define o genocídio como um dos seguintes actos cometidos com a intenção de destruir, totalmente ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. O artigo 3º estabelece quem pode ser punido pelo crime de genocídio.


Artigo IIº: Na presente Convenção, genocídio significa qualquer dos actos cometidos com intenção de destruir, totalmente ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, tal como:
(a) matar membros do grupo;
(b) causar danos graves físicos ou mentais a membros do grupo;
(c) infligir deliberadamente ao grupo condições de vida calculadas para levar à sua destruição física totalmente ou em parte;
(d) impor medidas com a intenção de evitar nascimentos dentro do grupo;
(e) transferir pela força crianças de um grupo para outro.

Artigo IIIº: Os seguintes actos serão punidos:
(a) genocídio;
(b) conspiração para cometer genocídio;
(c) incitamento directo e público para cometer genocídio;
(d) tentativa de cometer genocídio;
(e) cumplicidade em genocídio.


Durante os últimos sessenta e oito anos, Israel tornou a sua intenção mais que evidente através das suas acções em relação aos palestinianos, e três dos actos do Artigo 2º e todos os do Artigo 3º se aplicam a Israel. Na realidade, tudo o que no artigo 3º se refere à Palestina também se aplica aos EUA, Reino Unido, França, Alemanha e vários outros  países europeus.


A saga “Tempos de Cavalos Brancos”, de Ibrahim Nasrallah, que conta as histórias de uma Palestina que já não existe, e as obras de Walid Khalidi e Salman Abu Sitta que recorda as cidades, vilas e aldeias que foram destruídas ainda vivem nos corações dos palestinianos em todo o mundo, e permitem-nos apreciar o que lá existia antes da invasão sionista. Não era uma terra sem povo, não era um deserto feito para ser desabrochado por judeus, mas sim um país de uma diversidade rica, que foi um lar para uma nação viva e próspera feita de agricultores e intelectuais, escritores e políticos, negociantes e construtores.


Este ano, a comunidade palestiniana realizou eventos do dia da Nakba e manifestações em todo o país, comemorando a Nakba nas localidades onde foram destruídas aldeias em 1948. Os palestinianos levavam bandeiras da Palestina, o que, dentro das fronteiras de 1948, é algo de notável. E num caso, em Eljalil, a bandeira de Israel foi arrancada numa esquadra de pFoto do massacre de Deir Yassim, em 1948, onde foram assassinados 200 palestinianosolícia e a bandeira palestiniana foi colocada no seu lugar. Milhares de pessoas assistiram a um evento no Negev, onde a aldeia de Wadi Zubala existiu até 1948. Os moradores de Wadi Zubala foram para as colinas do sul de Hebron na Cisjordânia, que nesse tempo estava fora da jurisdição israelita. Lá, eles compraram terras e estabeleceram-se em Um Hiran onde vivem desde então. Agora, colonos judeus tomaram as suas terras em Um Hiran, forçando-os a sair das suas terras pela segunda vez.


“O velho morrerá e o jovem esquecerá”, é o que os dirigentes sionistas dizem uns aos outros. Mas isto é apenas uma fantasia. Os velhos morrem, infelizmente é como anda o mundo, mas os jovens palestinianos recordam. Não há muito tempo, assisti a uma conferência sobre a Palestina em Chicago. Como é frequente no caso de conferências às quais muçulmanos e árabes assistem, havia muitas, muitas crianças pequenas presentes. É uma das alegrias de participar em tais conferências. Durante uma pausa, alguns amigos e eu sentámo-nos na sala do hotel e olhámos as crianças a brincar. Quando perguntámos a essas crianças, que tinham todas nascido nos Estados Unidos e muitas das quais tinham pais nascidos nos Estados Unidos, de onde é que elas eram, as respostas surgiram depressa e sem hesitação. Entre as suas respostas estavam Yaffa, Haifa, Isdud, Akka, Yibne, etc. Tanto para esquecer.


O meu amigo Nader Elbanna diz sempre, “A Nakba é muito mais do que perder a terra e a casa”. Fadwa, a minha cara metade, coloca a questão da Nakba em termos muito crus:
“Eu quero o meu país de volta, e quero que o meu pai tenha a sua dignidade de volta antes que ele morra. E depois de tudo o que eles nos fizeram e continuam a fazer-nos, os judeus nunca serão bem-vindos aqui." O pai dela tem 85 anos, é um estudioso e um educador. "Por ele se ter recusado a trabalhar com o Yahud, não pôde trabalhar de todo", disse-me ela.  Ele recusou-se a colaborar com a polícia secreta israelita, a Shabbak, e então, com 40 anos, perdeu o emprego como director de escola e nunca mais conseguiu outro emprego.  Para além do genocídio, da limpeza étnica e da morte e destruição, para além da humilhação e dos anos de sofrimento que nenhuma indemnização ou restituição poderá alguma vez compensar, há um aspecto profundamente pessoal na Nakba.  Todo o palestiniano foi tocado por isto e cada um tem uma história pessoal, comovente. E ainda há um fio comum entre as inúmeras histórias: não existe nenhuma disputa, nenhum conflito, apenas um povo que muito simplesmente quer o seu país de volta.

 

68 years ago today - The Deir Yassin Massacre Israel forces murder 200 Palestinians including women and children

Foto do massacre de Deir Yassim, em 1948,

onde foram assassinados 200 palestinianos


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