Informação sobre a ocupação israelita, a resistência palestiniana e a solidariedade internacional *** email: comitepalestina@bdsportugal.org
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Nov 14
publicado por samizdat, às 16:11link do post | comentar

por Mazin Qumsiyeh*

 

Regressei a este país (e é um país) para encontrar uma situação ainda mais tensa do que era há duas semanas atrás. Um colono israelita atropelou crianças palestinas matando uma de 5 anos e ferindo outra. Um nativo palestiniano atropelou um guarda da fronteira israelita em Jerusalém, matando um e ferindo vários. Tais incidentes são cada vez mais frequentes.

 

O sionismo começou aqui como um movimento colonial para transformar uma florescente multi-religiosa Palestina em EJIL (Estado Judeu de Israel no Levante). O apoio das potências ocidentais foi e continua a ser crucial para o estabelecimento do EJIL e a sua manutenção (cada vez mais dispendiosa). Os movimentos coloniais devem, por um lado, destruir a sociedade nativa e, por outro lado, construir uma nova sociedade. No caso da colonização da Palestina (agora chamada Israel), a destruição é de cortar a respiração. Somos 7 milhões de refugiados ou de pessoas deslocadas (de uma população de 12 milhões). A terra da Palestina histórica que nos resta para viver é de cerca de 8% (incluindo os guetos da Galiléia, Naqab, Gaza, Jerusalém Oriental e Cisjordânia). Agora milhões de colonizadores da Europa e de outras partes do mundo controlam 92% do território, mais de 90% da água, todas as fronteiras e todos os outros recursos naturais do país.

 

A política sionista do poder virou direito e significa que os direitos humanos e o direito internacional não são aplicáveis aqui. Isto aumenta a frustração e a raiva dos povos nativos. Os nativos foram privados de liderança real (anteriormente a OLP) e têm agora uma "Autoridade Palestina" (AP), aprovada pelos EUA / Israel. Os homens da AP estão mais preocupados com seus empregos do que com o futuro da Palestina, e actuam agora como esbirros da ocupação. Esta foi a armadilha que foi criada nas negociações da Noruega em 1993 (posteriormente referidas como os Acordos de Oslo). Desde então, só na Cisjordânia, o número de colonos israelitas aumentou de 180.000 para 650.000. A vida para os restantes palestinianos tornou-se cada vez mais insuportável (excepto se pertencem à elite da AP, cuja maioria está em Ramallah). Para manter um sistema racista significa alimentar um sistema educacional e social israelita que leva cada vez mais a sua população a extremos.

 

O sistema chauvinista e esquizofrênico, alheado do futuro, caminha lado a lado com o fascismo. Casas estão a ser destruídas, milhões de nós não têm direito a viver no nosso país, nem o direito de visitar, nem rezar nas igrejas e mesquitas em Jerusalém. Os esforços de transformação para o país parecer cada vez mais "judeu" aceleram-se, especialmente, nos arredores de Jerusalém provocando mais tensões.

 

Israelitas decentes estão a abandonar o sistema (são agora 300.000 a viver na Alemanha, onde há o maior crescimento de população judaica). Os Palestinos sem lugar para onde ir estão a ficar desesperados. A pressão aumenta como o vapor numa panela de pressão. Os actos de violência individual que vemos são apenas um sintoma deste sistema insustentável e o perigo está a alastrar-se.

O Estado Judeu de Israel no Levante (EJIL) tem que ter novos estados como o sunita (ISIS) e xiita e outros, de modo que ser "naturalizado" em vez de ser o único sistema de apartheid na Ásia Ocidental. As nossas escolhas ainda são 1) o poder faz o direito, ou 2) os direitos humanos, incluindo a abolição de estados baseados na religião, e a insistência em democracias seculares. O primeiro caminho leva a uma situação em que todos ficamos a perder, e o segundo a uma situação em que todos ficamos a ganhar.

 

 

Não há um cenário vencedor-vencido (como MLK disse uma vez ou vivemos juntos em igualdade com outros seres humanos ou pereceremos juntos como tolos). Ficar pendurado entre dois caminhos apenas significa mais extremismo, mais violência, e mais injustiça. Escolher a democracia, os direitos humanos e a justiça não é fácil e pagamos um preço (financeiramente, fisicamente, etc.). Somos nós, as pessoas que devem fazer por isso (já que todo o mundo reconhece que, na sua maioria, os nossos políticos são hipócritas e tolos egocêntricos).

 

O dia em que voltei também foi o dia em que as "eleições" nos EUA nos deram um congresso ainda mais subserviente inclinado para aumentar a destruição da economia dos EUA com o fim de servir interesses especiais. Alguns de nós pagam preços mais pesados do que outros e alguns até foram mortos (muitos dos meus amigos foram mortos em manifestações não-violentas). Alguns perdem empregos ou casas. Alguns são feridos. Alguns passam anos como presos políticos. Mas é uma luta existencial e deve ser levada a cabo. Como fazê-lo e manter a dignidade, a humanidade e a paz interior é um desafio. «Não se pode ser neutro num comboio em movimento» sem que a apatia seja conivente com a opressão. Quando a nossa curta estadia neste mundo se aproxima do fim, vamos nos arrepender ou sermos orgulhosos de ter tentado torná-lo melhor? A escolha é óbvia.

 

Para aqueles que querem saber acerca da minha estadia de quase duas semanas na Europa: Conheci centenas de pessoas. Falei em mais de 15 eventos em três países (França, Suíça e Noruega). Estabeleci bons contatos para ajudar a estabelecer projetos conjuntos entre o nosso Museu de História Natural da Palestina e alguns grupos europeus para trabalharmos no desenvolvimento sustentável, democracia e justiça (ou seja, ajudar-nos a viajar ao longo do caminho em que todos ficamos a ganhar). Todas as parcerias com pessoas que compartilham esta visão é bem-vinda. A luta continua.

 

Mazin Qumsiyeh
http://palestinenature.org
http://qumsiyeh.org

Fonte: http://grupoaccaopalestina.blogspot.pt/

 

* Mazin Qumsiyeh é investigador em genética e professor nas universidade de Belém e Birzeit. É presidente do Centro Palestiniano para a aproximação entre os povos. É uma figura importante da resistência popular contra a ocupação israelita.


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