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Ali Abunimah,  25 setembro 2017
https://electronicintifada.net/blogs/ali-abunimah/germanys-new-nazis-see-israel-role-model
 


"Infelizmente, os nossos piores receios tornam-se realidade," disse Josef Schuster, presidente do Conselho Central dos Judeus na Alemanha, a propósito do sucesso eleitoral de Alternativa para a Alemanha nas eleições de domingo.

Conhecido pela sua sigla alemã AfD, o partido nacionalista extremista ganhou quase 100 assentos no parlamento da Alemanha.

"Um partido que tolera posições de extrema-direita nas suas fileiras e incita ao ódio contra as minorias no nosso país está hoje não apenas em quase todos os parlamentos regionais mas também representado no Bundestag", disse Schuster.

O partido é conhecido por abrigar toda a espécie de racistas e extremistas, incluindo apologistas da memória da guerra da Alemanha e revisionistas do Holocausto.

Foi um desastre previsto pelos políticos tradicionais da Alemanha.

Sigmar Gabriel, ministro dos Negócios Estrangeiros do país, advertiu no início deste mês que se a AfD tivesse um bom resultado nas urnas, "teremos verdadeiros nazis no Reichstag alemão pela primeira vez desde o fim da segunda guerra mundial."

Os financiadores pro-Israel apoiam os neo-nazis

Se é verdade que a Alemanha não precisa de lições de como ser racista, esta catástrofe pode ser atribuída em parte aos líderes israelitas e seus apoiantes fanáticos: durante anos eles fizeram causa comum com a extrema-direita na Europa, demonizando os muçulmanos como invasores externos que devem ser rejeitados e até expulsos de maneira a manter uma pureza mítica europeia.

Também pode ser atribuída aos líderes alemães que, durante décadas, reforçaram este Israel racista através do financiamento da ocupação militar israelita e da opressão dos palestinianos.

O que aconteceu na Alemanha é mais uma faceta da aliança da supremacia branca-sionista que encontrou um lar na Casa Branca de Donald Trump.

Nas últimas semanas, os emblemáticos liberais The New York Times e The Washington Post têm andado à caça das sombras inexistentes da interferência russa nas eleições alemãs.

Entretanto, como Lee Fang escreveu no The Intercept, o Gatestone Institute, o grupo de reflexão da maior financiadora da indústria islamofóbica Nina Rosenwald, inundava a comunicação social alemã com "um fluxo constante de conteúdo inflamatório sobre as eleições alemãs, focado em alimentar medos sobre os imigrantes e muçulmanos".

O Gatestone Institute é dirigido por John Bolton, o antigo diplomata americano neo-conservador conhecido pelo seu apoio belicista à invasão do Iraque.

Os artigos do Gatestone afirmando que o cristianismo se está a "extinguir" e avisando contra a construção de mesquitas na Alemanha foram regularmente traduzidos para o alemão e publicados por políticos e simpatizantes da AfD.

História após história eles alegaram que os migrantes e os refugiados violavam mulheres alemãs e traziam doenças perigosas para o país, temas clássicos da propaganda nazi usados outrora para incitar ao ódio exterminador dos judeus.

Numa trágica ironia, o pai de Rosenwald, um herdeiro da fortuna das lojas Sears, usou a sua riqueza para ajudar refugiados judeus a fugirem da perseguição na Europa.

A sua filha tomou um caminho diferente. O jornalista Max Blumenthal chamou Nina Rosenwald de "mãe doce do ódio anti-muçulmano."

Blumenthal relatou em 2012 que Rosenwald “usou os seus milhões para consolidar a aliança entre o lobby pro-Israel e os extremistas islamofóbicos.”

Para além de financiar uma série dos mais notórios demagogos anti-muçulmanos, segundo Blumenthal, Rosenwald "serviu o Conselho da AIPAC, o braço central do lobby de Israel na América, e exerceu funções de direcção numa série de organizações pró-Israel."

O partido de Anders Breivik

Numa coluna no dia após a eleição, The Jerusalem Report, publicado pelo direitista Jerusalem Post, ofereceu à líder parlamentar da AfD Beatrix von Storch uma plataforma para difundir a ideologia anti-muçulmana do partido.

The Jerusalem Report também cita o politólogo alemão Marcel Lewandowsky explicando que " os membros da AfD vêem a União Europeia como um traidor à herança cristã da Europa por terem deixado entrar os muçulmanos. A ideia é que a islamização da Europa foi causada pela UE."

"Substituição" pelos muçulmanos, explicou Lewandowsky, "é o cerne do medo dos eleitores da AfD."

Isto significa que a ideologia central do partido é indistinguível da de Anders Breivik, o norueguês que assassinou dezenas dos seus concidadãos, principalmente adolescentes, num acampamento de jovens do Partido Trabalhista, em julho de 2011, em nome da barreira à "islamização" da Europa.

Um dos maiores benfeitores da generosidade de Rosenwald, segundo Blumenthal, foi Daniel Pipes, o influente demagogo pró-Israel, anti-muçulmano que Breivik citou 18 vezes no seu famoso manifesto.

Admiração por Israel

O líder parlamentar da AfD von Storch, deputado no Parlamento Europeu, também usa a entrevista do The Jerusalem Report para esquematizar a postura pro-Israel do seu partido, comparando o seu nacionalismo alemão à ideologia sionista de Israel.

Segundo o The Jerusalem Report, von Storch é um fundador de "Amigos da Judeia e Samaria," um grupo de extrema-direita no Parlamento Europeu que apoia a colonização ilegal de Israel em território palestiniano ocupado.

Estranhamente, esse grupo lista como uma das suas pessoas de contacto o dirigente do " Conselho Regional Shomron," uma organização de colonos na Cisjordânia ocupada.

"Israel poderia ser um modelo para a Alemanha," disse von Storch ao The Jerusalem Report. Israel é uma democracia que tem uma sociedade livre e pluralista. Israel também faz esforços para preservar a sua cultura e tradições únicas. O mesmo deveria ser possível para a Alemanha e qualquer outra nação."

A identificação de von Storch com Israel faz eco à do demagogo nazi Richard Spencer, que descreveu a sua visão de um "etno-estado" ariano como "sionismo branco."

A presidente da AfD Frauke Petry também manifestou o seu apoio aos colonatos israelitas na Cisjordânia ocupada. Em fevereiro, ela disse ao jornal de direita Tablet que a sua única visita a Israel lhe tinha dado uma visão positiva do país.

"De repente a imagem que se tem é um pouco diferente da que se tem quando se vive longe," ela disse.

Estes pontos de vista fazem eco aos de Anders Breivik. Ele era um grande admirador do sionismo e defendia uma aliança com Israel para lutar contra os muçulmanos e os seus apoiantes "marxistas culturais/multiculturalistas".

Os líderes dos colonos israelitas tomaram nota. Enquanto o mundo estava sob o choque do êxito eleitoral da AfD, Yehuda Glick, um legislador do Likud, partido do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, twitou que todos aqueles que estavam "em pânico" com a AfD deviam estar confiantes de que Petry estava a trabalhar "intensamente" para expulsar todos os elementos anti-semitas.

Glick, um líder do movimento apocalíptico que visa destruir a Mesquita de al-Aqsa de Jerusalém e substituí-la por um templo judeu, também recomenda um artigo que descreve a postura pro-Israel da AfD.

Segundo o Tablet, a visita de Petry também a levou a acreditar "que a Europa deveria aprender mais com Israel na sua luta contra o terrorismo."

De acordo com uma sondagem recente, este forte apoio a Israel é sentido nas fileiras da direcção da AfD.

Aliança com o sionismo

Há uma lógica clara para os dirigentes da AfD aderirem à aliança recentemente revigorada entre forças de extrema-direita tradicionalmente anti-semitas, por um lado, e Israel e sionistas por outro.

A presidente do partido Petry tem argumentado que os judeus devem estar dispostos a conversar com a AfD sobre interesses supostamente comuns, explicando, segundo o Tablet, que "é a esquerda na Alemanha e os novos imigrantes muçulmanos que dirigem o movimento anti-Israel do seu país ".

"Tanto o anti-semitismo como o anti-sionismo são mais fortes na comunidade islâmica e na esquerda", disse von Storch. "Eles rejeitam o facto de que as bases judaico-cristãs da civilização europeia são fundamentais para o seu sucesso. Reconhecemos a ameaça que representam para a comunidade judaica de Israel e da Alemanha e a sua segurança é uma grande prioridade para nós."

Isto é, naturalmente, o mais descarado revisionismo: durante séculos as autoridades cristãs da Europa não só não consideraram os judeus como uma parte fundamental da sua "civilização", mas perseguiram-nos impiedosamente, por vezes tentando o genocídio.

Mas tais factos são ocultados no interesse de uma aliança anti-muçulmana actual que está preparada para deitar fogo ao tecido social cada vez mais desgastado das sociedades pluralistas, para bem da purificação nacional de Israel e da Alemanha.

O apoio de Israel aos fascistas

Olhando criticamente, como indicam os tweets de Glick, isto não foi um caso apenas de sentido único. Ele foi incentivado por Israel e os seus grupos de lobby.

A noção de que Israel é a ponta de lança de uma frente de batalha civilizacional ocidental contra o Islão tem sido uma reivindicação-chave de Netanyahu.

Ele e outros dirigentes israelitas têm explorado todos os ataques terroristas na Europa para avançar com a mensagem venenosa de que Israel está "a combater na mesma luta."

E os poderosos grupos de lobby de Israel, tais como a Liga Anti-difamação, que agora se mostram alarmados com o sucesso eleitoral da AfD, estão longe de ser inocentes.

Durante anos, a Liga Anti-difamação – que se apresenta como um grupo de "anti-ódio" – cortejou e branqueou influentes pregadores do ódio anti-muçulmano porque eles apoiavam a sua agenda pro-Israel.

Esse enlace entre sionistas e seus supostos opositores continua a desenvolver-se no bom acolhimento que os antigos conselheiros de Trump Steve Bannon e Sebastian Gorka encontraram em Israel e nos seus grupos de lobby.

Bannon falará na próxima gala da Organização Sionista da América, enquanto Gorka, que tem ligações aos nazis e às milícias anti-semitas violentas, foi recentemente recebido em Israel.

Isto pode ser visto no longo e visível silêncio do governo israelita quando o resto do mundo condenava a fúria dos neo-nazis em agosto em Charlottesville, na Virgínia.

Também pode ser visto na aproximação de Netanyahu aos dirigentes de extrema-direita europeus, incluindo o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, que tentou reabilitar a aliança com Hitler no seu país durante a guerra.

Se o descaramento desta aliança pode ser chocante, ela remonta aos anos iniciais dos movimentos sionista e nazi. Como o professor Joseph Massad da Columbia University salientou, sionistas e europeus anti-semitas historicamente compartilharam a mesma análise: que os judeus eram estranhos à Europa e tinham de ser deslocados para outro lugar.

E isto continua: comentadores israelitas estão a notar que Israel não tem tido pressa em condenar a AfD.

Netanyahu – sempre rápido para atacar o alegado anti-semitismo dos críticos de Israel – veio ao Twitter para felicitar a chanceler Angela Merkel pela sua vitória, mas até agora manteve-se calado sobre o assunto de que todo o mundo fala.

Na corrente dominante

Apesar do seu sucesso eleitoral, a AfD é afectada por divisões: a sua presidente Frauke Petry anunciou de surpresa na segunda-feira que não iria juntar-se à bancada parlamentar do seu partido.

Uma estratégia que os dirigentes do partido estão a desenvolver para tornar a AfD mais aceitável é a de tentar mitigar os receios da comunidade judaica.

Sem dúvida, eles continuarão a tentar fazê-lo expressando admiração e apoio a Israel – a mesma abordagem da Frente Nacional francesa historicamente anti-semita.

Podemos contar ver a AfD reforçar o seu apoio a Israel, incluindo os seus colonatos na "Judeia e Samaria".

Mas isso é na verdade uma marca da sua integração. Historicamente, o estabelecimento da Alemanha no pós-guerra, incluindo os governos liderados por Merkel, tem "expiado" o genocídio dos judeus no país, apoiando Israel a cometer crimes contra os palestinianos.

Biliões de dólares de "reparações" alemãs não foram para ajudar sobreviventes do Holocausto, mas para armar Israel na ocupação militar e na colonização.

Para os palestinianos, portanto, o centrismo "moderado" de Merkel e a intolerância e racismo evidentes da AfD, são pouco diferentes na verdade.

Tal como Donald Trump apresenta a face nua e crua do militarismo e imperialismo americano que tem vitimado povos em todo o mundo durante décadas, a AfD é de certa forma uma voz mais honesta de uma Alemanha que fala dos "direitos humanos", enquanto apoia incondicionalmente um Israel cuja exportação principal é o extremismo e a islamofobia.

O racismo da Europa aliado a este mau vento de Israel produz uma mistura tóxica.


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