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Out 16
publicado por samizdat, às 22:17link do post | comentar

Um manipulador incansável

O mundo inteiro canta louvores, fala-se dele como um santo ou, pelo menos, um Nelson Mandela. No entanto, ao longo de meio século, Peres foi o mal-amado da política de Israel. “Como é que o percevejo chegou ao topo?”, dizia-se já nos anos sessenta, exprimindo assim o desprezo das elites israelitas por aquele que não fazia parte do aparelho: não cresceu no kibutz, não participou nas aventuras guerreiras dos comandos de Palmach.

 

Até aos dias de hoje, o seu sotaque denunciava a sua exterioridade em relação àqueles que moldaram o Estado hebreu à sua imagem suja. Digamo-lo claramente, Peres fez por merecer a imagem negativa que o acompanhou ao longo da sua carreira: nenhum político israelita soube ser tão oportunista como ele, e fazer da traição uma arte.

 

“Manipulador incansável”, é assim que o descreve nas suas memórias Yitzhak Rabin, que com ele conviveu muitos anos ao leme do Partido Trabalhista. Ele até traiu o seu mentor David Ben Gurion, quando decidiu abandonar o partido Rafi, apercebendo-se que, apesar da aura do seu chefe, este grupo de que foi o impulsionador se mostrava incapaz de pôr fim à hegemonia trabalhista. Tendo retomado o seu lugar na direção trabalhista, sai de novo deste partido, trocando-o pelo Kadima de Ariel Sharon, que também abandona ao pressentir o naufrágio que se aproximava.

 

Mas a sua maior traição foi sem dúvida a traição a Yasser Arafat, que tinha convencido a empenhar-se a fundo no processo de Oslo… que Peres sabota após o assassinato de Yitzak Rabin, não tendo coragem para confrontar aqueles que, ao matarem o primeiro-ministro, puseram um ponto final ao dito processo de paz. Shimon Peres é o único político israelita de primeiro plano que nunca foi eleito pelo povo, ganhando os seus galões (ministro dos Negócios Estrangeiros, ministro da Defesa, primeiro-ministro e finalmente presidente do Estado) nas batalhas de aparelho.

 

Os media locais e internacionais já fazem o balanço da ação política de Shimon Peres: como diretor geral do ministro da Defesa, nos anos sessenta, ele está não só na origem do nuclear israelita, mas também da transformação do Tsahal num exército moderno e eficiente.

 

É aliás graças aos seus estreitos laços com o Partido Socialista de Guy Mollet que ele conseguiu fazer de Israel uma potência militar, simbolizada pelos caças Mirage das empresas de Dassault e as suas performances em junho de 1967. Mas poucos elogios fúnebres falam do massacre de Kana, no Líbano em 1996, preferindo alongar-se sobre o Prémio Nobel da Paz, recebido pelo seu papel nos acordos de Oslo… que sabotará três anos depois.

 

Em seu abono, devemos reconhecer que a biografia de Peres não está contaminada com casos de corrupção, de violações ou assédios sexuais, o que contrasta claramente com a classe política israelita dos dias de hoje.

 

Dito isto, e apesar das coroas de louros que hoje lhe colocam nos quatro cantos do mundo, o antigo presidente do Estado de Israel não terá sido um grande político, mas um politiqueiro manipulador que se tornou um dos grandes mestres do nosso tempo na arte da mentira e da traição.

 

Michel Warschawski é um escritor e jornalista israelita, fundador da Alternative Information Center, uma ONG que junta activistas israelitas e palestinianos contra a ocupação.
Este artigo foi publicado em 29/9/2016 no 
Siné Mensuel
e traduzido do francês por Luís Branco para o esquerda.net: http://www.esquerda.net/artigo/um-manipulador-incansavel/44681


Subscrevo o comentário de Robert Singer: "O movimento BDS mostrou a sua cara. Provaram não serem mais do que um grupo de vândalos. Isto foi um ato de antissemitismo. Atacar um 'chef' em Portugal apenas porque participou num festival em Telavive é desprezível. Estes autodeclarados ativistas dos Direitos Humanos são exatamente o oposto: espalham ódio, não direitos humanos".
Anónimo a 20 de Novembro de 2016 às 14:43

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