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SOLIDARIEDADE COM A PALESTINA

Informação sobre a ocupação israelita, a resistência palestiniana e a solidariedade internacional *** email: comitepalestina@bdsportugal.org

SOLIDARIEDADE COM A PALESTINA

Informação sobre a ocupação israelita, a resistência palestiniana e a solidariedade internacional *** email: comitepalestina@bdsportugal.org

Israelitas falam sobre os acontecimentos na Palestina I

Artigo publicado no Haaretz em 8/10/2023: https://www.haaretz.co.il/opinions/2023-10-08/ty-article/.premium/0000018b-0aac-dae9-adcb-abbf619e0000?utm_source=App_Share&utm_medium=iOS_Native

 

 

É impossível aprisionar dois milhões de pessoas sem esperar um preço cruel

Por Gideon Levy

 

 

Por detrás de tudo isto está a arrogância israelita. Pensamos que temos autorização para fazer tudo e mais alguma coisa e partimos do princípio de que nunca pagaremos, nunca seremos punidos. E pensamos que vamos continuar e que nada nos vai interromper. Prenderemos, mataremos, abusaremos, despojaremos, protegeremos os colonos e os seus pogroms, iremos ao túmulo de José, ao túmulo de Ot'niel, ao altar de Josué, todos nos territórios palestinianos, e, claro, ao Monte do Templo - mais de 5.000 judeus só no Sukkot. Dispararemos sobre inocentes, arrancaremos os seus olhos e esmagaremos os seus rostos, expulsá-los-emos, expropriá-los-emos, roubá-los-emos, raptá-los-emos das suas camas, sujeitá-los-emos a limpezas étnicas e, claro, continuaremos o incrível cerco a Gaza. E partiremos do princípio de que tudo correrá como habitualmente.

 

Pensámos que, com a construção de uma super barreira à volta da Faixa de Gaza, cujo muro subterrâneo custou três mil milhões de shekels, estávamos seguros. Confiávamos que seríamos avisados a tempo pelos génios do 8200 (unidade de escuta dos serviços secretos militares) e pelos omniscientes do Shin Bet. Pensámos em deslocar metade do exército dos arredores de Gaza para Hawara, só para proteger as loucuras de Zvi Sukkot e dos colonos, e tudo ficaria bem, tanto em Hawara como em Erez. Acontece que, quando há grande motivação, o obstáculo mais sofisticado e caro do mundo pode ser transposto até por um simples bulldozer e com relativa facilidade. É possível atravessar esse muro com bicicletas e trotinetas, apesar de todos os milhares de milhões investidos nele e apesar de todos os especialistas e seus empreiteiros terem enriquecido.

 

Pensámos que iríamos continuar a assediar Gaza, a atirar-lhes algumas migalhas de bondade sob a forma de alguns milhares de autorizações de trabalho em Israel - uma gota no oceano, e estas estão sempre condicionadas a um "comportamento correto" - e, no entanto, assumimos que iríamos continuar a mantê-los em condições semelhantes às de uma prisão.

 

Pensámos que, ao fazer a paz com a Arábia Saudita e os Emirados, os palestinianos seriam esquecidos, até serem apagados, como muitos israelitas gostariam. Continuaríamos a manter milhares de prisioneiros palestinianos, incluindo prisioneiros sem julgamento, a maioria deles prisioneiros políticos, e, no entanto, não aceitaríamos discutir a sua libertação, mesmo depois de décadas na prisão. Dir-lhes-íamos que só pela força é que os seus prisioneiros veriam a liberdade. Pensámos que continuaríamos a rejeitar arrogantemente qualquer tentativa de solução política, simplesmente porque não é do nosso interesse fazê-lo, e pensámos que provavelmente continuaria assim para sempre.

 

Mais uma vez se provou que não era esse o caso. Algumas centenas de militantes palestinianos romperam o arame e invadiram Israel de uma forma que nenhum israelita alguma vez imaginou que pudesse acontecer. Algumas centenas de militantes palestinianos provaram que é impossível aprisionar dois milhões de pessoas para sempre sem cobrar um preço cruel. Tal como ontem o bulldozer palestiniano, antiquado e cheio de fumo, derrubou a vedação, a mais sofisticada de todas as vedações, derrubou também o manto de arrogância de Israel. E também destruiu a ideia de que basta atacar e desmantelar Gaza com drones suicidas e vendê-los a meio mundo para manter a segurança.

 

Israel viu ontem imagens que nunca tinha visto: veículos militares palestinianos a patrulharem a cidade, ciclistas de Gaza a entrarem pelos seus portões. Estas imagens devem rasgar o véu da arrogância. Os palestinianos de Gaza decidiram que estão dispostos a pagar qualquer preço por uma centelha de liberdade. Mas será que isto tem algum potencial? Não. Israel aprenderá a sua lição? Não.


Ontem, já se falava em arrasar bairros inteiros da cidade de Gaza, ocupar a Faixa de Gaza e castigar Gaza "como nunca foi castigada antes". Mas Gaza não deixou de ser castigada por Israel desde 1948, nem sequer por um momento. Mais de sete décadas de abusos e, mais uma vez, o pior ainda está para vir. As ameaças de "arrasar Gaza" só provam uma coisa: não aprendemos nada. A arrogância veio para ficar, mesmo depois de Israel, mais uma vez, pagar um pesado preço.

 

Benjamin Netanyahu tem uma grande responsabilidade pelo que aconteceu e tem de pagar os custos, mas a questão não começou com ele e não terminará após a sua partida. Agora temos de chorar amargamente pelas vítimas israelitas; mas também temos de chorar por Gaza. Gaza, onde a maioria dos seus habitantes são refugiados criados por Israel. Gaza, que nunca conheceu um único dia de liberdade.

 

 

 

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