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SOLIDARIEDADE COM A PALESTINA

Informação sobre a ocupação israelita, a resistência palestiniana e a solidariedade internacional *** email: comitepalestina@bdsportugal.org

SOLIDARIEDADE COM A PALESTINA

Informação sobre a ocupação israelita, a resistência palestiniana e a solidariedade internacional *** email: comitepalestina@bdsportugal.org

O REGRESSO DA VELHA TOUPEIRA

A propósito dos túneis de Gaza, um artigo de

Luís Alves de Fraga (coronel reformado da Força Aérea) e António Louçã (jornalista)

 

 

Quando a horda ganhou uma hierarquia, em especial intermédia, transformou-se em exército, em força armada. Quando os exércitos começaram a combater, faziam-no em campo aberto escolhido pelo que primeiro identificava as melhores condições de combate ‒ normalmente, uma planície onde existisse uma elevação para garantir a melhor forma de conduzir as tropas. Uma batalha podia durar do nascer do sol até começar a ser noite. As populações civis só sofriam com a passagem dos exércitos pelas suas aldeias, onde o saque era permitido como forma de reabastecimento logístico dos combatentes.

 

Para além da batalha campal, existiram ao longo dos séculos as guerras de sítio ou cerco. Ocorriam quando um dos oponentes ocupava, em regra, num ponto alto, um castelo. Na Europa (em determinadas circunstâncias, também no Oriente), os castelos constituíam um conjunto de quatro tipos de elementos defensivos: a torre de menagem, as muralhas altas e grossas, o fosso e a barbacã. No primeiro, concentrava-se o senhor ou administrador do castelo, sua família e os cavaleiros mais distintos das hostes; à volta da torre de menagem, desenvolvia-se a construção dos edifícios mais importantes da defesa, cercando-os os grossos muros do castelo onde existiam passeios de guarda, ameias e frestas para arqueiros e, mais tarde, besteiros; rodeando as muralhas havia, normalmente, um fosso cheio de água e com margens quase verticais para impossibilitar a aproximação dos inimigos; seguiam-se terras de cultivo e casas de quem vivia à sombra da defesa do castelo; cercando esse aglomerado existia uma outra muralha não tão alta como a do castelo, chamada barbacã, que constituía a defesa avançada em caso de guerra. Ressalta desta descrição que na guerra de cerco não se movimentavam, praticamente, nenhumas tropas ‒ quem estava dentro do castelo queria sair e quem estava fora queria entrar ‒, passando tudo pelo desgaste de ambas as partes.

 

Usavam-se, nestas épocas distantes, somente duas dimensões: a horizontal e a vertical: quem estava mais alto no terreno via mais longe. Claro que, em séculos muito anteriores ao V, na China já se utilizavam papagaios de papel para, numa espécie de cadeirinha, se elevar um homem suficientemente leve que lá do alto observasse o campo inimigo e fosse capaz de identificar a chamada ordem de batalha por ele adoptada, servindo para os generais decidirem que forças haviam de lançar em primeiro lugar e em que direcção. Este estratagema deu importância à visão vertical. No começo do século XX, não se sabendo bem que utilidade dar aos aviões, eles serviram, antes do mais, como meio de observação.

 

Mas, nas hostes que cercavam os castelos, também se começou a usar a dimensão vertical, embora em sentido inverso: construindo subterrâneos ou túneis para conseguir chegar, pelo menos à muralha principal para, usando cargas de pólvora (quando ela já era conhecida na Europa) fazer derruir uma parte da muralha por onde pudessem entrar os sitiadores. Eram os chamados trabalhos de sapa. Contudo, os sitiados, sabendo desta possibilidade, tinham especialistas para detectar as vibrações do solo junto às muralhas e, procurando adiantar-se ao inimigo usando o mesmo método, destroçá-lo em pleno trabalho e poder, aproveitando os túneis já feitos, levar a cabo pequenas incursões militares quando o inimigo menos esperava.

 

Tudo isto faz parte do estudo da história militar europeia, foi uma forma de cultura que se enraizou ao longo de séculos de guerras.

 

Quando as armas de artilharia e até as individuais melhoraram a sua eficiência, as altas torres e as muralhas inacessíveis tenderam a baixar, ficando a poucos metros do solo e, embora muito mais grossas, perderam a geometria quadrangular ou retangular, para se apresentarem como linhas quebradas sob a forma de estrelas de várias pontas. A vida dos militares passou a fazer-se mais junto ao solo e, até muitas vezes, enterrada.

 

No começo do século XX, entre 1914 e 1918, durante a Primeira Guerra Mundial, na frente ocidental da Europa, numa verdadeira guerra de duplo cerco, os combatentes viveram e morreram em trincheiras e abrigos subterrâneos; a rainha das batalhas foi a artilharia de longo e médio alcance e as princesas foram as metralhadoras ligeiras, pesadas e os morteiros ligeiros. Em todos os combates não se respeitaram nem a propriedade dos civis, nem a sua vida. Anos mais tarde, no período da Segunda Guerra Mundial, as batalhas tanto foram campais como urbanas ou mesmo aéreas. Importante era quebrar a vontade do inimigo, levando-o à exaustão; Estalinegrado foi um excelente exemplo de um cerco em que os sitiantes caíram de cansaço, tal como a de Kursk foi uma batalha campal, ocupando e destruindo, de passagem, cidades e vilas.

 

Em 1945, a vitória dos Aliados, mas em especial a dos EUA e da URSS, estabeleceu novas formas de combate, porque nem em Washington nem em Moscovo, havia vontade de um confronto directo. Passou-se a um novo tipo de guerra: a de guerrilha, onde os chamados insurrectos, em menor número e com armamento mais ligeiro do que o da potência militar dominante, impuseram o desgaste militar, económico, social e moral àqueles que defendiam uma ordem anterior.

 

Em traços muito largos, estão expostos séculos de guerra na Europa. Ora, que história militar têm os EUA? A bem dizer, muito pouca: a da independência, a guerra civil, a guerra contra a Espanha, guerras de ocupação territorial contra o México, as duas intervenções na Europa, já referidas, e a guerra contra o Japão (1941-1945). A verdadeira experiência bélica dos americanos (imigrantes europeus radicados naquele lado do “Novo Mundo”) foi a do extermínio dos índios. Tudo isto constituiu o ingrediente necessário para gerar uma cultura que, parecendo-se com a europeia, diverge dela em muitos e variados aspectos, razão pela qual a maioria dos intelectuais americanos, em especial os das ciências sociais, julgando descobrir novas teses e novas explicações, limitam-se a desenvolver métodos de propaganda que justifiquem as políticas de momento que mais convêm a Washington e ao Pentágono. Está neste caso o senhor Anthony King, com a obra publicada há dois anos, Urban Warfare in the Twenty-First Century.

 

Hoje, são assimétricos todos os conflitos em que intervenha a única superpotência sobrevivente da Guerra Fria - os EUA. E são assimétricos sem retaguarda, ou quase, para o beligerante mais fraco: ao Vietname da segunda metade do século passado, apesar de tudo com algum apoio da China e da URSS, não podem comparar-se o Iraque invadido, a Líbia fragmentada, a Palestina arrasada, todos sem qualquer outra potência que as apoie efectivamente.

 

Além de assimétricos e sem retaguarda são, cada vez mais, urbanos, por várias razões que se encontram meticulosamente analisadas na obra de Anthony King. Desde logo, quando a população mundial afluiu e continua a afluir às cidades, controlá-las deixa de ser mero objecto de manobra táctica, para se tornar desiderato estratégico em todas as guerras.

 

Além desta espectacular mutação demográfica, em curso desde há décadas, há a drástica redução dos efectivos militares, também referida por King. Incapazes de sustentarem linhas de frente com dezenas ou centenas de quilómetros, os exércitos concentram nas cidades as boots que conseguem colocar on the ground, e batem-se sobretudo para controlar as cidades. Segundo King, acabaram-se as grandes batalhas campais e a luta pelas capitais para poder proclamar a vitória. As cidades, pequenas e grandes, capitais ou não, tornam-se o campo de batalha por excelência.

 

E, se há uma revolução na localização dos cenários de guerra, há também uma no modo de encará-los. A urbanização da guerra, diz-nos King, relega para o museu de velharias o velho pensamento bidimensional de estrategas debruçados sobre uma abundante cartografia salpicada de alfinetes com bandeirinhas. Ao transferir-se do campo aberto para labirintos urbanos, o planeamento militar deve ter em conta que as cidades crescem em altura e que passou a ser preciso pensar em termos tridimensionais e volumétricos (embora King relativize a novidade, por já ter havido, desde tempos imemoriais, veleidades de introduzir a guerra aérea e de tirar partido das alturas, como atrás referimos).

 

Mas, perante a agudeza das observações de King, não pode deixar de surpreender-nos que os seus volumetrismo e tridimensionalidade apenas se refiram às alturas e nunca às profundezas. Ele olha os céus e ignora o subsolo - esse subsolo que mereceu a atenção de Pérez-Reverte para combates do capitão Alatriste, de Victor Hugo para a fuga de Jean Valjean e Marius, esse mesmo que não era só literatura e foi via de fuga para os últimos insurrectos do ghetto de Varsóvia.

 

Hoje, a resistência palestiniana em Gaza aí está para recordar-nos que há um mundo debaixo dos nossos pés. Esse mundo tem sido o cenário de uma guerra prolongada, muito antes do 7 de outubro. A rede de túneis construída pelos palestinianos tem sido o sistema vascular que lhes permite o abastecimento da Faixa. Nos interregnos entre as campanhas de bombardeamento israelita, Gaza tem continuado a ser, simultaneamente, um campo de concentração a céu aberto e uma praça sitiada por todos os lados. A luta para sobreviver tem sido uma guerra económica permanente. A mitificação dos túneis como sistema de agressão contra Israel é apenas uma tentativa de ocultar que eles têm sido um mecanismo essencial para o povo de Gaza poder defender-se - primeiro contra a fome, depois contra os bombardeamentos aéreos.

 

Parece que a infantaria israelita, guardada em segurança para um momento em que Gaza já se encontrasse terraplanada e qualquer prédio de habitação, creche, escola, hospital ou edifício público já estivessem destruídos, tem tido surpresas ao pensar que estava finalmente a apoderar-se de um enorme cemitério. E também pode ser que essas surpresas sejam riscos mais ou menos calculados e com perdas que o Estado-Maior israelita considerou toleráveis para a sua carne de canhão. Mas, ainda assim, os últimos redutos da resistência palestiniana terão sido, como no ghetto de Varsóvia, as catacumbas em que os derradeiros sobreviventes conseguem perseverar.

 

A metáfora marxista da velha toupeira, inspirada nas tradições do proletariado mineiro, revigorada ao longo dos anos por exemplos como a Comuna das Astúrias em 1934 ou a greve mineira inglesa em 1984, tinha entre outros méritos o de lembrar-nos que num mundo cheio de Trumps, Bolsonaros, Mileis e Netanyahus, há uma realidade invisível, ou menos visível, que vai amadurecendo e que pode haver nas entranhas da terra um futuro diferente a gestar-se. A resistência palestiniana tem mostrado que até o mais sofisticado e o mais actualizado pensamento geoestratégico pode passar ao lado de algo essencial.

 

 

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